quinta-feira, dezembro 25, 2014

Daquelas noites que seriam curtas demais para se dormir: existe uma inquietação pequeno-burguesa, só porque atravessei a cidade bêbado enquanto dirigia - ah, neste século isso virou deveras emocionante - enquanto repasso estes pequenos espaços que se abrem. Desde quem cheirava Drummond e nunca duvidou que minhas mãos eram hábeis e meus pés bem fincados no chão. Ou dos pés descalços na areia molhada da ressaca do mar, vestígios do ciclone extra-tropical. Daquela segunda enquanto poderíamos cantar "será que esse bar já vai fechar" só alimentados na voragem de querer o outro. Desce Miguel Torga encostado naquelas paredes sujas de calabouço, enquanto ele se mistura com uma daquelas citações que voltam como murro: "Pareço uma dessas árvores que se transplantam que têm má saúde do país novo, mas que morrem se voltam à terra natal". Provavelmente Retorno de Saturno você vaticinaria naquele sofá multicor, quando de Paraíso só havia o bairro, enquanto aprendia a fumar naquela janela de madeira aberta porque o calor é insustentável. E se debruçasse, olhar para cima, até poderia ver você postada noutra sacada, noutra estação, enquanto dedilhava o violão me dedicando aquela antiga canção, despretenciosamente sensual. Volto à selva e penso que poderia ter ido para o Rio. Volto ao cerrado e penso que poderia ter havido mais leveza e lamento que leveza é algo que só se ganha quando se abre o mundo. De cerveja e do conhaque (desvio pensando que havia aquela Lua), do vinho vagabundo até o que tilinta neste exato momento numa xícara de chá pela ausência de copos limpos nesta casa. E que abandonar a fragilidade da vitimização talvez seja das coisas mais difíceis para se exercitar no ano que se vem. Sinto falta da minha prosa que se derramava, sinto falta dos meus melhores textos. Sinto falta daqueles espaços longos que se abriam entre entrar no ônibus e chegar em casa sem ceder à tentação de acompanhar a sociedade da super-informação. Das árvores do meu bairro quase sem nome. Seguir noite adentro, pobríssimo, pela possibilidade do que poderia acontecer. Um Natal sem desconforto.