sexta-feira, agosto 01, 2014

Enquanto eles dormem

Deste tipo de domingo que deságua numa insônia inútil e persistente de segunda-feira, quando o barulho do ventilador já passou da conta de mil mesmo que eu já tenha pensado no imposto de renda que se há para fazer, o lixo para descer vinte e dois andares, recitar trinta pai-nossos sem fé naquele gesto automático que um dia aprendi quando tinha sete anos da professora com cheiro de naftalina. E  enquanto penso na geladeira sem nada além de dois litros d’água e a cerveja que sobrou da praia passada, o maço de cigarro pela metade que eu deveria jogar pela janela, minha nudez noturna tão desnecessária destes hábitos reflexos que tenho: como às vezes, por exemplo, mexo nas chaves entre os dedos enquanto o elevador não chega na esperança hesitante da pausa e do sorriso cinco segundos antes de girar o ferrolho e dar de cara com. 
E então levanto sem calçar os chinelos, checo se o chuveiro está tão fechado e abro os dedos para escorar na parede fria mesmo que já saiba de cor o caos organizado que se instalou semana a dentro, desviando da cadeira preta que deveria estar perto da mesa e agora é cabide, o cinzeiro cheio, o prato no chão, o vaso que há dias que não vê água, as contas em atraso por pura negligência estratégica, até chegar à cozinha e dar meia-volta na preguiça que é a dedicação a essas pequenas obrigações. Talvez pôr Sinatra na vitrola ou abrir aquele Dimple que há tempos repousa pela metade numa solidão elegante ou finalmente experimentar aquele vestido preto com o velho colar de pérolas de minha avó enquanto telefono para semi-conhecidos, destes que já dividimos leitos e noites para dizer coisas sutis, ferocidades, ou banalidades, ou atrocidades, ou coisas tão baixas como um atestado de inabilidade crônica com essa coisa de jantar bem limpinho de terça fingindo certa cerimônia porém recheado de desejos e entrelinhas. Ou talvez nada fazer e separar os livros que deveria doar, os discos em ordem alfabética, as roupas por tom, os amantes por sentimentos provocados, as ideias por matizes políticas, pensando que dentro dessa madrugada vagarosa ninguém da cidade pode me incomodar. 
 
Enquanto eles dormem, meu universo é infinito. Enquanto eles dormem, fico aqui tamborilando qualquer coisa até quando o sono finalmente vir.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gabriel, acompanho esse blog há anos. Primeira vez que me manifesto. Obrigada, seus textos me emocionam desde sempre e me representam. Abs, Barbara L