sábado, agosto 31, 2013

Love, Love, Love

"Amor é palavra que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados. A vida toda"
(Caio F.)



Não quero que você pense que tenha sido cruel ao escolher este texto. Na verdade, Caio F. nunca é chegado a suavidades, principalmente para quem está fitando a gilete que repousa, lânguida, na mesa ao lado. O que posso dizer, baseado na minha parca experiência batendo nas sarjetas por aí é que foi esse texto exato que me salvou. E me salvar, naquela época, era de um grande evento.

Encontrei o livro por acaso. Procurava uma biografia para ler, na verdade procurava por Nara. Na prateleira da Cultura estava ali: Para sempre teu, Caio F. Eu havia decidido que desceria para ver o mar. Eu resolvi, por uma vez, inventar uma mentira branca para quebrar quase quatro meses ininterruptos de trabalho de segunda a domingo. Pois bem: liguei para um amigo, enchi o carro de boas esperanças e fui.

Quando cheguei no mar, o tempo fechou - e permaneceu fechado por todo feriado, com direito a ciclone extra-tropical como cereja do bolo de um final de semana praticamente perdido. Meu amigo trabalhava e, assim, passei longos períodos só com meus cigarros (naquela época fumar era prazer, não necessidade), toda cerveja que pudesse beber e este livro da Paula Dip.

O tempo passa e pouquíssimos dias ficam guardados com clareza. Lembro-me que passava do almoço, lá fora chovia, eu estava num colchão de república absorto na leitura. Até que veio esse Love, Love, Love. Doído. Rasgado. Do amor desfeito, numa redenção tardia e minúscula. No nosso papel de protagonista de nossa própria vida, sempre esperamos que uma grande perda seja compensada por uma recompensa da mesma monta - e daí aguardamos que o destino equilibre as forças com a Mega Sena acumulada, o Amor que só estava ali se esgueirando pelos cantos, qualquer coisa que se abra num grande Carnaval. E não é. Quase nunca é assim. A Grande Perda do Momento abre essa fenda minúscula que vai dilapidando lentamente, num traço rápido. Quase nunca há salvação fácil, gratuita. Quase nunca há um Cavaleiro Branco a Nos Pegar Pela Mão e Dizer: vem. A salvação é pessoal e intransferível. A salvação vem da ressignificação.

Lembro-me de fechar o livro e procurar o mar, enquanto chovia cântaros. Ninguém havia, salvos parcos surfistas que enfrentavam o frio e as ondas imensas. Era preciso entender que havia e se fôra (acento diferencial por pura birra, eu sei). E que ia passar. E que esse comportamento de se rasgar e contorcer é tão antigo quanto a natureza humana - e continuamos nos movendo por isso, apesar disso e assim sempre seria e sempre será. Lógico que, ali no mar, já havia um distanciamento de tempo e de corpos que batiam seis meses. A ausência se preenchera no vagar dos dias modorrentos, do trabalho para saturar a mente e cansar o corpo, de tantas outras noites que passei não ultrapassando a barreira da lamentação. Naquele dia de julho, Caio F. me mostrou o que havia além: do sofrimento a um otimismo complacente.

Encharcado e sorrindo, depois disso tudo mudou. Subi a serra e então sorri de novo, chorei um pouco, perdi-me nos meus próprios enganos, disse sins e nãos. Em nenhum momento veio novamente esse sentimento destrutivo de desespero e inação. São só satélites orbitando vagos, tontos, ritmados. E se perder o passo, ter a calma de reencontrar, noutra estação, a dança elíptica noutro astro, satélite, planetóide, meteorito ou qualquer coisa que valha...

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