segunda-feira, junho 03, 2013

((seis))

Doeu porque você deu conta de continuar a vida e eu permaneci uma ou duas estações depois do ponto em que nos separamos. Foi assim. A metade da minha vida que gostava se arrebentou depois que você partiu. Veja bem, nem pensei em me atirar da janela do segundo andar, cabeça no forno, nada dramático. O que sobrou para mim, por muito tempo, foi uma imensa aridez. Não movimentava, não preenchia e nem se esgotava. Deixava-me num estado de irritação discreta e contínua. E achei que não aconteceria de novo. E escrevi cartas, poemas, recados, bilhetes, dissertações e fui deixando na gaveta, até quando a gaveta encheu. E cortei cabelo, deixei a barba, tirei a barba, troquei os armários, ensaiei mudança e você não voltou. Daí tentei aqui, sabotei uma relação ali, dancei como louco em tantas pistas pela cidade e cada homem que beijava procurava aquilo que gostava tanto em você e não encontrei. Até que, certo dia, aconteceu sem esforço e sorri e depois chorei porque só era ilusão, não desisti e fui me encontrando, tentando, vasculhando, agora bonito e corajoso, agora inteiro quase dois anos depois.

Um comentário:

Anônimo disse...

Por algum motivo achei seu blog numa noite perdida de 2008 e por algum motivo me perdi daqui em alguma noite de 2011.. mas tenho a obrigação de dizer que suas palavras estão cada vez mais afinadas. Fumamos um cigarro num casamento no início de 2011, uma noite infelizmente não tão engraçada como gostaria de ter guardado na memória, mas valeu por conhecer o autor desses textos! Cada vez melhor. Um abraço.