segunda-feira, junho 03, 2013

((seis))

Doeu porque você deu conta de continuar a vida e eu permaneci uma ou duas estações depois do ponto em que nos separamos. Foi assim. A metade da minha vida que gostava se arrebentou depois que você partiu. Veja bem, nem pensei em me atirar da janela do segundo andar, cabeça no forno, nada dramático. O que sobrou para mim, por muito tempo, foi uma imensa aridez. Não movimentava, não preenchia e nem se esgotava. Deixava-me num estado de irritação discreta e contínua. E achei que não aconteceria de novo. E escrevi cartas, poemas, recados, bilhetes, dissertações e fui deixando na gaveta, até quando a gaveta encheu. E cortei cabelo, deixei a barba, tirei a barba, troquei os armários, ensaiei mudança e você não voltou. Daí tentei aqui, sabotei uma relação ali, dancei como louco em tantas pistas pela cidade e cada homem que beijava procurava aquilo que gostava tanto em você e não encontrei. Até que, certo dia, aconteceu sem esforço e sorri e depois chorei porque só era ilusão, não desisti e fui me encontrando, tentando, vasculhando, agora bonito e corajoso, agora inteiro quase dois anos depois.