quinta-feira, maio 30, 2013

((quatro))

Sempre me lembro daqueles dias frios, inverno virando primavera, no velho carro do meu pai. Andávamos por aí, procurando becos escuros e ermos, escondendo da polícia. Não havia insufilm nem aquecimento. Havia só um rádio tosco, que eventualmente tocava algum CD que deveria ser gravado com antecedência. Tinha Marisa, Nando, Jack. Às vezes, se houvesse tempo, até rolava uma bossa nova. Quase sempre bêbados, dedos doendo sem luvas que procuravam a mão do outro para se entrelaçar. Conversávamos pouco neste momento - as palavras eram sempre tão desnecessárias ali. Madrugada caia, batia quatro da manhã e a mão vacilante no freio de mão lembrando que talvez fosse hora de se ir, mas se fosse naquela hora haveria uma espera de semanas até o próximo momento. Daí amanhecia, um deitado no colo do outro e as olheiras que principiavam ficar pelo resto da semana dentro. Queria ficar, mas não podia. Queria partir, também não. Dali, então, quase nada se falava depois. Um abraço longo, beijo curto e adeus.

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