domingo, maio 26, 2013

((dois))

E então eu tinha dividido minha vida em dois. O problema era que a parte que ficava com meus pés, sete dias por quatro semanas, era exatamente na metade agridoce: do suor, do sangue, da labuta sem a possibilidade de um sorriso depois de uma terça-feira tenebrosa. Ah, a família. A tradição. A propriedade, os livros de ponto ao senhor comendador - Bandeira, sempre gostei tanto de Bandeira. Até que, por decreto, decidi que precisava viver. Porque viver partido, sacrificando-me em prol de tanta gente que mal sabe o meu nome, não valia a pena. Juntei minhas malas, minha coragem e vim. E foi bom. E a vida encaixou. E descobri que podia ser feliz, apesar de eventualmente ficar chorando na sarjeta tonto de amor não dado. Apesar de também ser dotado do poder da mágoa e não compreender o momento alheio. E era tão bom que quase não voltaria mais. Não havia necessidade. Havia trazido aquela metade doce que deixei em nossa cidade natal para cá. Vezenquando voltaria para cumprir as obrigações cerimoniais, casamentos e velórios, aniversários e eleições. Eu, todo, estava aqui na selva de pedra. Daí fui ficando, ficando e ficarei, sem data para voltar.

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