sexta-feira, maio 31, 2013

((cinco))

Fui eu quem decidiu não estar lá. Fui eu quem saí pela porta que você me abriu, eu sei. Tinha um mundo todo lá fora: colorido, sedutor. Saí assim, mesmo, sem dizer adeus. Nem até logo. Nem ao menos o muito obrigado que você merecia. Eu queria mais, sem saber o que era. Eu queria além. Taquicardias, aventuras, breves histórias para colocar na parede. Assim quis, assim foi. E daí a vida foi se encaixando, entre acertos e erros. Entre porres, choros, gozos e o mundo cresceu. Ficou imenso, como um balão. E você foi ficando pequeno, diminuto, perto de tudo que havia. Nunca aprendi andar para trás, essa é a verdade. Não poderia. Não naquele momento, pensava. Acho que também, na verdade, nem queria. A vida continuava sorrindo e eu correndo atrás, perdendo-me nesse labirinto que é tanta coisa por aí, pulsando, fritando, alegre. Você nunca mereceu, é verdade. Me desculpe se não tenho uma resposta melhor, mas a resposta é essa: saí pela porta e não olhei para trás. E quando, vezenquando, lembrava que você existia, eu sorria - um pouco triste, algo machucado, algo que precisei deixar para trás para poder continuar seguindo.

quinta-feira, maio 30, 2013

((quatro))

Sempre me lembro daqueles dias frios, inverno virando primavera, no velho carro do meu pai. Andávamos por aí, procurando becos escuros e ermos, escondendo da polícia. Não havia insufilm nem aquecimento. Havia só um rádio tosco, que eventualmente tocava algum CD que deveria ser gravado com antecedência. Tinha Marisa, Nando, Jack. Às vezes, se houvesse tempo, até rolava uma bossa nova. Quase sempre bêbados, dedos doendo sem luvas que procuravam a mão do outro para se entrelaçar. Conversávamos pouco neste momento - as palavras eram sempre tão desnecessárias ali. Madrugada caia, batia quatro da manhã e a mão vacilante no freio de mão lembrando que talvez fosse hora de se ir, mas se fosse naquela hora haveria uma espera de semanas até o próximo momento. Daí amanhecia, um deitado no colo do outro e as olheiras que principiavam ficar pelo resto da semana dentro. Queria ficar, mas não podia. Queria partir, também não. Dali, então, quase nada se falava depois. Um abraço longo, beijo curto e adeus.

terça-feira, maio 28, 2013

((três))

Nunca encontrei alguém que ficasse tão doce tomando conhaque numa noite fria. Dreher, barato, insano, descendo queimando as vísceras sem Coca-Cola. Nunca também encontrei outro alguém que abrisse os braços e aceitasse minha natureza esguia e vacilante. Quando você me tocou e me virei, lembro de ter olhado a Lua, olhado você e percebido o quanto era bonito. E quando dormi, cansado na rodoviária, com a mão no seu colo. E quando acordei, antes de você, espremido porque não cabia na barraca minúscula. Antes de você chegar, sempre haveria esse medo em saber se quem sairia do ônibus seria você. E chegava e me ligava em seguida, eu sorria, maquinando planos e tentando encaixar tanta coisa em tão pouco tempo. Gostava do jeito que você chegava de peito aberto, mesmo quando a hesitação batia do lado de cá. É algo que, muito tempo depois, entendi e peguei para mim. Lindo: dentro, fora.

domingo, maio 26, 2013

((dois))

E então eu tinha dividido minha vida em dois. O problema era que a parte que ficava com meus pés, sete dias por quatro semanas, era exatamente na metade agridoce: do suor, do sangue, da labuta sem a possibilidade de um sorriso depois de uma terça-feira tenebrosa. Ah, a família. A tradição. A propriedade, os livros de ponto ao senhor comendador - Bandeira, sempre gostei tanto de Bandeira. Até que, por decreto, decidi que precisava viver. Porque viver partido, sacrificando-me em prol de tanta gente que mal sabe o meu nome, não valia a pena. Juntei minhas malas, minha coragem e vim. E foi bom. E a vida encaixou. E descobri que podia ser feliz, apesar de eventualmente ficar chorando na sarjeta tonto de amor não dado. Apesar de também ser dotado do poder da mágoa e não compreender o momento alheio. E era tão bom que quase não voltaria mais. Não havia necessidade. Havia trazido aquela metade doce que deixei em nossa cidade natal para cá. Vezenquando voltaria para cumprir as obrigações cerimoniais, casamentos e velórios, aniversários e eleições. Eu, todo, estava aqui na selva de pedra. Daí fui ficando, ficando e ficarei, sem data para voltar.

quinta-feira, maio 23, 2013

((um))

Não aprendi violão, nem virei advogado de fato. Passei na OAB, arrumei emprego de firma e fiquei ficando. Mas, veja bem, parei de fumar. E nem tenho esses arroubos de Carrie caçando um cigarro perdido nas calçadas sujas por aí. O isqueiro? Ah, deve ter ficado por aí, não sei. Deve ter ficado na casa da minha mãe e se perdido na primeira mudança. Daí saí de casa e comprei casa, pagando em milhares de prestações. Daí eu mudei agora, para cá e deixei a casa lá, montada,  com meu namorado e meio milhar de quilômetros nos separando. Finalmente mudei. Com algum esforço, mas mudei. Lá não me cabia mais. Não digo o apartamento - ele é bonito, comprei uns vasos, umas flores, umas cortinas bonitas. Se comparar onde estou agora, não tenho cama nem sofá. Chego do trabalho novo, exausto destas baldeações sem fim desta cidade cão e sento no colchão que é sofá e cama, vejo a novela e depois vejo outra, às vezes abro uma cerveja para ajudar o sono chegar. E abro um sorriso. Eu queria ter mudado logo depois que terminei a faculdade. Só que veio a preguiça de sair da zona de conforto, comida de mãe no freezer, amor tranquilo pela casa. Recomeçar tudo depois dos vinte cinco, e a coragem? Eu até tinha, só resolvi guardá-la para depois. Até quando foi batendo aquela agonia da vida encaixada sem grandes saltos. Que podia ser mais. Daí você se lembra de que precisa pagar a geladeira e o fogão, quem sabe até Natal num fim de ano, mesmo naquele projeto CVC. Até tentei moderar minhas expectativas com aquilo que chamamos de vida responsável. Até que não deu. E, agora, estou aqui.

quarta-feira, maio 22, 2013

Admito que o erro é unicamente meu ao esperar que as estórias terminem com um (des)virar de chaves.

terça-feira, maio 14, 2013

Berlim

Enquanto andava pela cidade que entrava pela primavera, flanando por aqui e ali sem muitas preocupações geográficas (é tão fácil se perder em Berlim com suas ruas de quinze letras e um mapa confuso em que as letras se apertam), comprando cervejas por menos de euro, entrando em cemitérios e parques sem nome, pensei que há tanto não ficava tanto tempo sem pensar em coisa alguma. Nada, nadinha, só olhos vorazes sorvendo o envolta, maquinações pontuais de tentando se localizar. Só havia silêncio. Até poderia tentar conversar com desconhecidos, descolar companhia para seguir meus passos. Mas, não. Eu estava ostríssimo em Berlim. Confortável dentro do meu pequeno mundo desbravando um grande mundo. Sentia falta de pouquíssimas pessoas que talvez entendessem esse sentimento ora contemplativo, ora de introspecção. Fora da loucura que é esse cotidiano de empregos e vida responsável para se levar adiante, consegui escutar algumas engrenagens - que deslizam quase macias, dentro do meu roteiro pré-programado. Há pouco ruído, às custas de um grande esforço. Esforço, este, voltado para manter as engrenagens no lugar. Não sou desses que aceitaria um emprego na Austrália. Nem desses que procuraria companhia num balcão de bar para conversar só porque a silêncio poderia ressoar se mantido por tanto tempo. Mastigo minhas próprias alegrias e tristezas silenciosamente. Eu não era assim, mas estou sendo. Independente do julgamento do fato, está me fazendo feliz assim.

sábado, maio 04, 2013

Berlim

A beleza maior do Muro é de pensar que, mesmo trazendo tanto sofrimento e opressão por tanto tempo, ele permanece às vezes sob escombros, às vezes transformado noutra coisa diferente: mas um memorial daquilo que foi e é parte importante para se compreender o que é hoje. Um hoje melhor, diferente, renascido. Transfigurado.

Não é cicatriz, é tatuagem.