segunda-feira, novembro 25, 2013

Vi uma entrevista lindíssima do Fernando Sabino no Roda Viva. Falou muito sobre "Encontro Marcado" (que li, gostei, mas o que marcou em minha vida mesmo foi a novela que leva o nome deste espaço) e, também, falou sobre o ato de escrever.

O ponto que mais gostei foi quando disse que o escritor de verdade escreve, principalmente, sobre coisas que nunca viu e não sabe.

Por essas e outras, a conclusão que vem me acompanhando nestes últimos dois anos: sim, falhei.

terça-feira, outubro 15, 2013

Munique

A beleza da ordem - e, o pouco que quebrava, era o sorriso e o fraternal povo da Bavária.

Muito pouco ficou, além desse funcionar exato de engrenagens.

sábado, agosto 31, 2013

Love, Love, Love

"Amor é palavra que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados. A vida toda"
(Caio F.)



Não quero que você pense que tenha sido cruel ao escolher este texto. Na verdade, Caio F. nunca é chegado a suavidades, principalmente para quem está fitando a gilete que repousa, lânguida, na mesa ao lado. O que posso dizer, baseado na minha parca experiência batendo nas sarjetas por aí é que foi esse texto exato que me salvou. E me salvar, naquela época, era de um grande evento.

Encontrei o livro por acaso. Procurava uma biografia para ler, na verdade procurava por Nara. Na prateleira da Cultura estava ali: Para sempre teu, Caio F. Eu havia decidido que desceria para ver o mar. Eu resolvi, por uma vez, inventar uma mentira branca para quebrar quase quatro meses ininterruptos de trabalho de segunda a domingo. Pois bem: liguei para um amigo, enchi o carro de boas esperanças e fui.

Quando cheguei no mar, o tempo fechou - e permaneceu fechado por todo feriado, com direito a ciclone extra-tropical como cereja do bolo de um final de semana praticamente perdido. Meu amigo trabalhava e, assim, passei longos períodos só com meus cigarros (naquela época fumar era prazer, não necessidade), toda cerveja que pudesse beber e este livro da Paula Dip.

O tempo passa e pouquíssimos dias ficam guardados com clareza. Lembro-me que passava do almoço, lá fora chovia, eu estava num colchão de república absorto na leitura. Até que veio esse Love, Love, Love. Doído. Rasgado. Do amor desfeito, numa redenção tardia e minúscula. No nosso papel de protagonista de nossa própria vida, sempre esperamos que uma grande perda seja compensada por uma recompensa da mesma monta - e daí aguardamos que o destino equilibre as forças com a Mega Sena acumulada, o Amor que só estava ali se esgueirando pelos cantos, qualquer coisa que se abra num grande Carnaval. E não é. Quase nunca é assim. A Grande Perda do Momento abre essa fenda minúscula que vai dilapidando lentamente, num traço rápido. Quase nunca há salvação fácil, gratuita. Quase nunca há um Cavaleiro Branco a Nos Pegar Pela Mão e Dizer: vem. A salvação é pessoal e intransferível. A salvação vem da ressignificação.

Lembro-me de fechar o livro e procurar o mar, enquanto chovia cântaros. Ninguém havia, salvos parcos surfistas que enfrentavam o frio e as ondas imensas. Era preciso entender que havia e se fôra (acento diferencial por pura birra, eu sei). E que ia passar. E que esse comportamento de se rasgar e contorcer é tão antigo quanto a natureza humana - e continuamos nos movendo por isso, apesar disso e assim sempre seria e sempre será. Lógico que, ali no mar, já havia um distanciamento de tempo e de corpos que batiam seis meses. A ausência se preenchera no vagar dos dias modorrentos, do trabalho para saturar a mente e cansar o corpo, de tantas outras noites que passei não ultrapassando a barreira da lamentação. Naquele dia de julho, Caio F. me mostrou o que havia além: do sofrimento a um otimismo complacente.

Encharcado e sorrindo, depois disso tudo mudou. Subi a serra e então sorri de novo, chorei um pouco, perdi-me nos meus próprios enganos, disse sins e nãos. Em nenhum momento veio novamente esse sentimento destrutivo de desespero e inação. São só satélites orbitando vagos, tontos, ritmados. E se perder o passo, ter a calma de reencontrar, noutra estação, a dança elíptica noutro astro, satélite, planetóide, meteorito ou qualquer coisa que valha...

quarta-feira, agosto 28, 2013

10 anos

E a data passou, porque a vida segue rápido dentro das desimportâncias.

Foram dez anos. Já são dez anos. E, em 2003, era tudo diferente. Lembro que olhava, curioso e ansioso para o mundo lá fora. E isto aqui era a minha janela. Não existiam redes sociais, a internet era discada ou raramente cedida nos laboratórios da faculdade. Ainda assim, escrevia. Quase todos os dias, banalidades, coisas pontuais. E, deste exercício, a possibilidade de poder me resgatar em determinados momentos e me rever com ternura, beleza ou num arrependimento brando.

Quase terço de vida repousa nestes mortos caracteres. Quase todo registro de vida adulta se encontra por aqui. Acho que continuo o mesmo, talvez com melhor controle sobre minhas vírgulas e pontuações. Mais temeroso quanto esta abertura me proporciona. Ainda assim, continuo mastigando com vagar as minhas próprias histórias, colando os cacos até virar uma coisa bonita e distante.

Martini Seco, porque, lá nos primórdios, eu já não sabia de quem era a culpa. Hoje sei, era minha. Porque coragem é algo que não se nasce: cria-se e vem da reinvenção. Hoje consigo entender com clareza do tédio que me imobilizava nos dois primeiros anos, na fagulha do ano seguinte, seguido por outro de longuíssimo abismo para depois resolver olhar para frente, e depois se aventurar na cidade nova e depois vir chorar de solidão para então encontrar o eixo, errando aqui e ali até chegar agora, longos três anos e algo sem grandes desassossegos.

Está tudo aqui, todas as histórias, ainda que não-lineares, ainda que se choquem e tenham se perdido por aí.

terça-feira, agosto 06, 2013

Agosto

Sei que estou em falta, mas juro que é culpa deste agosto que começou terrível (e terrível permanecerá, apesar do calor que se principia, os dias ensolarados quase sem nuvens, Sampa com essa cara de quase idílio que quase engana a gente).

Só que estou aqui pensando em você, mandando energia boa. Sei que está sendo difícil. mas nunca achei que passar agosto esperando setembro, se bem me lembro, fosse lá uma opção.

Amar sempre foi difícil mesmo. Dizia Pondé, o pai, que o amor é uma trincheira. Principalmente quando não existe essa perspectiva de consumação-para-sempre, possibilidades de mãos juntas por prazo indeterminado. Esses amores transatlânticos são doloridos. E há sempre aquele instinto de auto-preservação que insiste em nos jogar para longe, de volta à zona de conforto, das prateleiras, das quinquilharias, das coisas afins.

Nosso instinto de auto-preservação nos coloca jogados na sarjeta, chorando pelo amor que não será dado. Dá, na verdade, a opção pela sarjeta ao invés de deixar a coisa desaguar no destino que será exatamente esse. Noves fora, o caminho é o mesmo: o que muda é o tempo e a decisão.

Abrir mão de um amor doce e tenro pode ser um ato de grandeza ou covardia. Eu acho que a maior parte das renúncias são gestos de grandeza. Para quem tem carne, insistir no caminho que levará ao sofrimento nunca é uma escolha racional. Mas, de tantas racionalidades que somos obrigados a levar nesta vida metropolitana, o que se perde em se aproveitar os estertores? Muito pouco para quem estava, há tempos, nos desertos povoados de gin tônica augustando por aí.

"A salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena" - penso eu. Não tema que ficará tudo bem. Há sempre um bocado de carne para aparar o tombo. E de resto, depois, a vida se encaixa. A vida prossegue em seu lento vagar, as doçuras se reencontram. Mares turquesas europeus, talvez, quem sabe?

Te beijo daqui, neste grande Dia da Marmota que este mês se transformou.

sábado, julho 13, 2013

- Fui eu quem matou a poesia e não posso botar essa culpa em alguém.

- Fomos nós que matamos essa poesia, para ela poder se direcionar para outro lugar.

quarta-feira, julho 10, 2013

((fim))

- Então tá.

- Então tá.

- Daí a gente se vê, se adiciona, depois marca algo. Tipo chopp, sabe?

- É...

- Então tá.

- E se tentarmos algo diferente? E se fingíssemos que nada disso aconteceu?

- Como assim?

- Assim, esse encontro nunca aconteceu. Faz de conta que não te vi e passei reto. Faz de conta que foi só um estranho que passou.

- Eu disse alguma coisa errada?

- Não, não. Nada errado.

- Então, que foi?

- Eu fico pensando que éramos de um jeito e tudo mudou. Eu mudei, você mudou. É normal. Eu esperei por anos esse esbarrão, o momento quando as contas estivessem zeradas e haveria espaço para um algo que eu não saberia definir. Talvez epifania, talvez redenção.

- Epifania? Que é isso?

- É a súbita revelação da verdade. Tipo: PANS, e acaba. Tipo close no fim do filme. Assim esperei. E passou o tempo e continuei esperando. Porque acreditava que precisava de uma resposta para seguir em frente. Esperava que o reencontro me fizesse virar a chave e me entender melhor.

- E o que mudou? Esse encontro ficou abaixo das suas expectativas?

- Não, não. Ele só não faz sentido. Eu havia me esquecido de você quase completamente. Já nem me lembro do discurso decorado que fiz para essa situação.

- Bom, então é bom. Então poderíamos começar de novo doutro jeito, né?

- Acho que não. Somos dados viciados. Nossa relação nunca iria conseguir se desvencilhar daquilo que poderia ter sido e não foi. Digo, mesmo amigos de bar. Mesmo para falar mal do trabalho, reclamar do trânsito. Vou olhar para você sorrindo e procurar tudo aquilo que gostei um dia e ficou perdido em algum lugar. Não estaria pronto para receber o você de agora, nem teria de volta o você que um dia gostei tanto.

- Olha... Eu não estou entendendo? Você não gostou em me ver?

- Sim, gostei. Mas gosto tanto de você que não estou preparado para abrir mão de toda ilusão que criei sobre você durante todos estes anos.

= Então tá.

- Então tá.

segunda-feira, junho 03, 2013

((seis))

Doeu porque você deu conta de continuar a vida e eu permaneci uma ou duas estações depois do ponto em que nos separamos. Foi assim. A metade da minha vida que gostava se arrebentou depois que você partiu. Veja bem, nem pensei em me atirar da janela do segundo andar, cabeça no forno, nada dramático. O que sobrou para mim, por muito tempo, foi uma imensa aridez. Não movimentava, não preenchia e nem se esgotava. Deixava-me num estado de irritação discreta e contínua. E achei que não aconteceria de novo. E escrevi cartas, poemas, recados, bilhetes, dissertações e fui deixando na gaveta, até quando a gaveta encheu. E cortei cabelo, deixei a barba, tirei a barba, troquei os armários, ensaiei mudança e você não voltou. Daí tentei aqui, sabotei uma relação ali, dancei como louco em tantas pistas pela cidade e cada homem que beijava procurava aquilo que gostava tanto em você e não encontrei. Até que, certo dia, aconteceu sem esforço e sorri e depois chorei porque só era ilusão, não desisti e fui me encontrando, tentando, vasculhando, agora bonito e corajoso, agora inteiro quase dois anos depois.

sexta-feira, maio 31, 2013

((cinco))

Fui eu quem decidiu não estar lá. Fui eu quem saí pela porta que você me abriu, eu sei. Tinha um mundo todo lá fora: colorido, sedutor. Saí assim, mesmo, sem dizer adeus. Nem até logo. Nem ao menos o muito obrigado que você merecia. Eu queria mais, sem saber o que era. Eu queria além. Taquicardias, aventuras, breves histórias para colocar na parede. Assim quis, assim foi. E daí a vida foi se encaixando, entre acertos e erros. Entre porres, choros, gozos e o mundo cresceu. Ficou imenso, como um balão. E você foi ficando pequeno, diminuto, perto de tudo que havia. Nunca aprendi andar para trás, essa é a verdade. Não poderia. Não naquele momento, pensava. Acho que também, na verdade, nem queria. A vida continuava sorrindo e eu correndo atrás, perdendo-me nesse labirinto que é tanta coisa por aí, pulsando, fritando, alegre. Você nunca mereceu, é verdade. Me desculpe se não tenho uma resposta melhor, mas a resposta é essa: saí pela porta e não olhei para trás. E quando, vezenquando, lembrava que você existia, eu sorria - um pouco triste, algo machucado, algo que precisei deixar para trás para poder continuar seguindo.

quinta-feira, maio 30, 2013

((quatro))

Sempre me lembro daqueles dias frios, inverno virando primavera, no velho carro do meu pai. Andávamos por aí, procurando becos escuros e ermos, escondendo da polícia. Não havia insufilm nem aquecimento. Havia só um rádio tosco, que eventualmente tocava algum CD que deveria ser gravado com antecedência. Tinha Marisa, Nando, Jack. Às vezes, se houvesse tempo, até rolava uma bossa nova. Quase sempre bêbados, dedos doendo sem luvas que procuravam a mão do outro para se entrelaçar. Conversávamos pouco neste momento - as palavras eram sempre tão desnecessárias ali. Madrugada caia, batia quatro da manhã e a mão vacilante no freio de mão lembrando que talvez fosse hora de se ir, mas se fosse naquela hora haveria uma espera de semanas até o próximo momento. Daí amanhecia, um deitado no colo do outro e as olheiras que principiavam ficar pelo resto da semana dentro. Queria ficar, mas não podia. Queria partir, também não. Dali, então, quase nada se falava depois. Um abraço longo, beijo curto e adeus.

terça-feira, maio 28, 2013

((três))

Nunca encontrei alguém que ficasse tão doce tomando conhaque numa noite fria. Dreher, barato, insano, descendo queimando as vísceras sem Coca-Cola. Nunca também encontrei outro alguém que abrisse os braços e aceitasse minha natureza esguia e vacilante. Quando você me tocou e me virei, lembro de ter olhado a Lua, olhado você e percebido o quanto era bonito. E quando dormi, cansado na rodoviária, com a mão no seu colo. E quando acordei, antes de você, espremido porque não cabia na barraca minúscula. Antes de você chegar, sempre haveria esse medo em saber se quem sairia do ônibus seria você. E chegava e me ligava em seguida, eu sorria, maquinando planos e tentando encaixar tanta coisa em tão pouco tempo. Gostava do jeito que você chegava de peito aberto, mesmo quando a hesitação batia do lado de cá. É algo que, muito tempo depois, entendi e peguei para mim. Lindo: dentro, fora.

domingo, maio 26, 2013

((dois))

E então eu tinha dividido minha vida em dois. O problema era que a parte que ficava com meus pés, sete dias por quatro semanas, era exatamente na metade agridoce: do suor, do sangue, da labuta sem a possibilidade de um sorriso depois de uma terça-feira tenebrosa. Ah, a família. A tradição. A propriedade, os livros de ponto ao senhor comendador - Bandeira, sempre gostei tanto de Bandeira. Até que, por decreto, decidi que precisava viver. Porque viver partido, sacrificando-me em prol de tanta gente que mal sabe o meu nome, não valia a pena. Juntei minhas malas, minha coragem e vim. E foi bom. E a vida encaixou. E descobri que podia ser feliz, apesar de eventualmente ficar chorando na sarjeta tonto de amor não dado. Apesar de também ser dotado do poder da mágoa e não compreender o momento alheio. E era tão bom que quase não voltaria mais. Não havia necessidade. Havia trazido aquela metade doce que deixei em nossa cidade natal para cá. Vezenquando voltaria para cumprir as obrigações cerimoniais, casamentos e velórios, aniversários e eleições. Eu, todo, estava aqui na selva de pedra. Daí fui ficando, ficando e ficarei, sem data para voltar.

quinta-feira, maio 23, 2013

((um))

Não aprendi violão, nem virei advogado de fato. Passei na OAB, arrumei emprego de firma e fiquei ficando. Mas, veja bem, parei de fumar. E nem tenho esses arroubos de Carrie caçando um cigarro perdido nas calçadas sujas por aí. O isqueiro? Ah, deve ter ficado por aí, não sei. Deve ter ficado na casa da minha mãe e se perdido na primeira mudança. Daí saí de casa e comprei casa, pagando em milhares de prestações. Daí eu mudei agora, para cá e deixei a casa lá, montada,  com meu namorado e meio milhar de quilômetros nos separando. Finalmente mudei. Com algum esforço, mas mudei. Lá não me cabia mais. Não digo o apartamento - ele é bonito, comprei uns vasos, umas flores, umas cortinas bonitas. Se comparar onde estou agora, não tenho cama nem sofá. Chego do trabalho novo, exausto destas baldeações sem fim desta cidade cão e sento no colchão que é sofá e cama, vejo a novela e depois vejo outra, às vezes abro uma cerveja para ajudar o sono chegar. E abro um sorriso. Eu queria ter mudado logo depois que terminei a faculdade. Só que veio a preguiça de sair da zona de conforto, comida de mãe no freezer, amor tranquilo pela casa. Recomeçar tudo depois dos vinte cinco, e a coragem? Eu até tinha, só resolvi guardá-la para depois. Até quando foi batendo aquela agonia da vida encaixada sem grandes saltos. Que podia ser mais. Daí você se lembra de que precisa pagar a geladeira e o fogão, quem sabe até Natal num fim de ano, mesmo naquele projeto CVC. Até tentei moderar minhas expectativas com aquilo que chamamos de vida responsável. Até que não deu. E, agora, estou aqui.

quarta-feira, maio 22, 2013

Admito que o erro é unicamente meu ao esperar que as estórias terminem com um (des)virar de chaves.

terça-feira, maio 14, 2013

Berlim

Enquanto andava pela cidade que entrava pela primavera, flanando por aqui e ali sem muitas preocupações geográficas (é tão fácil se perder em Berlim com suas ruas de quinze letras e um mapa confuso em que as letras se apertam), comprando cervejas por menos de euro, entrando em cemitérios e parques sem nome, pensei que há tanto não ficava tanto tempo sem pensar em coisa alguma. Nada, nadinha, só olhos vorazes sorvendo o envolta, maquinações pontuais de tentando se localizar. Só havia silêncio. Até poderia tentar conversar com desconhecidos, descolar companhia para seguir meus passos. Mas, não. Eu estava ostríssimo em Berlim. Confortável dentro do meu pequeno mundo desbravando um grande mundo. Sentia falta de pouquíssimas pessoas que talvez entendessem esse sentimento ora contemplativo, ora de introspecção. Fora da loucura que é esse cotidiano de empregos e vida responsável para se levar adiante, consegui escutar algumas engrenagens - que deslizam quase macias, dentro do meu roteiro pré-programado. Há pouco ruído, às custas de um grande esforço. Esforço, este, voltado para manter as engrenagens no lugar. Não sou desses que aceitaria um emprego na Austrália. Nem desses que procuraria companhia num balcão de bar para conversar só porque a silêncio poderia ressoar se mantido por tanto tempo. Mastigo minhas próprias alegrias e tristezas silenciosamente. Eu não era assim, mas estou sendo. Independente do julgamento do fato, está me fazendo feliz assim.

sábado, maio 04, 2013

Berlim

A beleza maior do Muro é de pensar que, mesmo trazendo tanto sofrimento e opressão por tanto tempo, ele permanece às vezes sob escombros, às vezes transformado noutra coisa diferente: mas um memorial daquilo que foi e é parte importante para se compreender o que é hoje. Um hoje melhor, diferente, renascido. Transfigurado.

Não é cicatriz, é tatuagem.

quarta-feira, abril 17, 2013

Ostra feliz não produz pérola - disse uma amiga, parafraseando um livro de Rubem Alves que jazia feliz na prateleira. Acho que é isso, acho que é assim. As histórias tem vindo: grandes, megalomaníacas. Só que tenho lido tão pouco, aferrado na rotina quase diária dos reality shows, sitcoms sem culpa. Já estamos em abril, já passamos a data que completaria uma década destes caracteres soltos nesta rede mundial de computadores. Estou feliz. Felicidade, esta, conquistada com suor e paciência. E a felicidade, infelizmente, não me é muito produtiva. Não me dá vontade de sair da zona de conforto. É daqueles cobertores quentes numa manhã fria, o despertador toca e você puxa, repuxa, querendo não sair nunca mais.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Faço as contas e agora são seis, quase sete e a mínima possibilidade de um esbarrão. Veja bem, tenho trabalhado tanto e viajado tão pouco - e, quando viajo, há uma série imensa de prioridades que nem me deixam de sair na rua. Parcas vezes me lembro, só quando eventualmente esbarro no Guiu e as temporalidades semelhantes. Pois naquela época distante havia a sede imensa de se reencontrar no espelho bonito do outro. E isso mudou? Acho que não. Acho só que aconteceu. Aconteceu e todo resto vai se desaparecendo devagar com o vagar dos meses. Às vezes preciso apertar bem os olhos para se lembrar do que aconteceu: uma noite, umas voltas, umas músicas por aí. E tudo que me lembro era de mim: dos movimentos (in)voluntários de se fazer novo, lustrar umas partes para se fazer bonito. Era bonito, eu. O que sobra era uma Bethânia que não conhecia na época, do tempo que transforma todo amor em quase nada. Nada, nadíssima. O que sobra é essa alegria de se acordam bem e escovar os dentes, torcendo para que amanhã trabalhe-se menos e tenhamos mais dias nos trópicos, quem sabe Rio.

Nem fica o gosto amargo de pensar que tantos caracteres desaguaram sem cair em lugar nenhum.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Pontuais (1)

Conclusões de uma noite de jazz: não acredito em pouco amor, não acredito em pouca fé.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

2013

Pela primeira vez em muito tempo que começa um ano e simplesmente digo que não sei. Não sei mesmo. Tenho pouquíssimas certezas: de ter depositado o amor no lugar certo, construído uma esfera de carinho suficiente para atravessar um improvável longo inverno, a certeza de se bastar com aquilo que se tem. E só. Talvez trabalhar menos e tomar mais sorvetes. Talvez insistir na academia que descobri que faz um bem danado (apesar de rolar um desejo interno de ir de burca para passar bem desapercebido). E também ler o Cortázar que vai ficando empoeirado na prateleira, escrever aquela história que brotou durante uma madrugada modorrenta, ver mais o mar. Coisas que, se não acontecerem, tudo bem e vai-se indo: pagando as contas e indo ao banco, reclamando vezenquando dos chefes e tomando cerveja na sarjeta suja. Quando tendo a reclamar da calmaria, abro os arquivos e me encontro às vezes sangrando e desnecessariamente perdido, tem feito bem. Faço as pazes com o passado, com o eu-passado e tenho encontrado beleza em quase tudo.

Quanto ao eu-presente, tenho nadado no raso com a água nas canelas.