domingo, novembro 25, 2012

Para não esquecer:

o que sua avó sempre dizia: que com o passar do tempo, os dias ficariam cada vez mais insuficientes.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Você sabe que é preciso manter a ternura nesta cidade, mas como? Você atravessa a Paulista naqueles algo de congestionamentos que se fazem às quatro da tarde (estrategicamente ignorando o profeta do Fim do Mundo que vezenquando se posta debaixo do MASP pedindo para que Dilma nos levem todos para as montanhas) e vê o primeiro termômetro marcando mais de quarenta graus, pensa que é brincadeira e tem o segundo apontando quarenta e um e você pensa que talvez seja alucinação coletiva e quando chega ao terceiro conclui-se que a cidade deve estar mesmo cáustica, desértica, sufocante de inabitável. Bate o olho no relógio e está atrasado, o pai perdeu o emprego por conta do maldito voto evangélico, a mãe mantém carinhos difíceis dentro da relação telegráfica que se faz a quinhentos quilômetros de distância, de quem já foi magoado e sabe que é preciso seguir em frente de alguma forma, ainda que reduzido nos pequenos pontos do cotidiano de ser adulto e ainda ter a roupa toda para lavar, jantar salada com medo do colesterol, previdência privada para abater no Imposto de Renda. A cidade sufoca e viaturas passam velozes, várias, lembrando que o estado seria de sítio com tanta violência rolando na periferia e nem a perspectiva de uma proposta mais vermelha (digo libertária, não de sangue) consola muito neste momento. Corta e o momento é pouco depois: atravesso a Nove de Julho e acendo um cigarro, é quase feriado e você trabalhou o final de semana anterior. Cada passo é uma vitória, outra viatura passa, a temperatura dá trégua. Garotos felizes e bonitos tomam cerveja desde as três da tarde naqueles bares próximos a GV e bate uma inveja branca, Tento manter a doçura, mas quem vem são estas certas ferocidades que às vezes invadem sem permitir. Chego em casa, tiro a roupa, ligo o ventilador e deito na minha cama que sozinho parece uma piscina de tão imensa. Abraço o segundo travesseiro como um amante carinhoso, musicado pelo barulho monótono das pás que giram e giram ali em cima. Fecho os olhos, tento me entregar a repetição tediosa da semana pesada para ver se o sono chega: são nove da noite, ele se recusa a chegar. Aperto os olhos um pouco mais, trago o travesseiro um pouco mais perto do corpo.

E é dai que a mágica acontece: abre-se a porta e você me tira da cama com a insistência de um príncipe. Pega-me pela mão, alisa meus cabelos. Vencido pela ternura, coloco uma roupa brilhante e ganho a noite novamente.