terça-feira, outubro 23, 2012

Sabe que agora que passamos a contar o tempo em meia-décadas, dúzias, com esforço tentar separar um ano ruim doutro pouco mais iluminado, as coisas adquiriram um ar de leveza. Parece que tudo já veio pronto, num esquete rápido de tv.

Parece que tudo era planejado do exato jeito que haveria de ser. Numa periculosidade segura, para se esborrachar com muito choro e poucas escoriações. Vem cá, me abraça - e a gente se abraçava soluçando, às vezes eu, às vezes você.

Em noites como essa de chuva lenta e carros barulhentos cortando a cidade, dessas improváveis noites que passamos sozinhos vendo a novela das oito enquanto o sono não vem, vem a saudade. Destas, sem propósito de ser. Destas que não viriam dentro desse ir-e-vir insano de vida adulta comme il faut porque até confesso que são algo vazias e desnecessárias agora que está tudo bem, tinindo, brilhando, supimpa etc.

Porque antes éramos só imobilidades, tão crentes que o mundo era cão e nós éramos frágeis. Naquelas cadeiras de cinema, os encontros de pouco álcool. Ninguém explicou que podia se manter pouco fora da curva sem medo de escorregar pela tangente. Ninguém desenhou que se esfolar não quebra. Ninguém mostrou que tempo não corria em lentíssimas revoluções que se escorriam por quase-eras de exercícios fúteis de possibilidades.

Éramos brilhantes quando de mãos dadas, não é?

Um comentário:

Anônimo disse...
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