domingo, agosto 26, 2012

Vinte e cinco de agosto

Anotava seguidamente a data nos cabeçalhos, como de habitual. A questão era que a caneta hesitava no primeiro ou segundo segundo, como se soubesse que diferentemente da grande maioria dos outros trezentos e sessenta e cinco dias que compõe o ano, esse era um dia de algo que se evitaria um pouco de atenção, desviando rapidamente o olhar para a pilha de folhas, o dia de sol, o cansaço do sábado que se principia assim de trabalho.

Deveria ligar: era isso que pensava quando acertava o 2012 num rápido rabisco. Ou talvez só escrever, sinal de fumaça, um desejar nada além de felicidades continue assim. Isso era seguido pelos pensamentos de trabalho, tira isso e coloque aquilo, troque, peça, mude, talvez sim,  talvez não, até que o próximo cabeçalho chegasse e o pensamento inicial voltasse ao ponto de partida: deveria ligar? Sabia que o dia seria longo, haveriam ainda mais duas dezenas de datas, de pensamentos, desse ligeiro soco no estômago que não se pode evitar porque a vida é assim, ingrata. Havia a necessidade em dizer continue assim porque deve bastar para todos, para tantos, para tudo o que se há nesta terra.

Numa destas pausas veio a lembrança de minha amiga bruxa naqueles estertores. Disse, entre um trago de cigarro longo e dedos leves pousando no cinzeiro, das oposições. Virgem com Peixes, uma oposição perfeita entre nossos sóis. Cento e oitenta graus. Quando abriu o mapa, assombrada, falou da complementariedade. Ying, yang, do aparente encaixe certeiro. Somente no fim que me disse o que a havia assombrado: você sempre contemplava o Sol dele, ele sempre contemplava o seu. Frente a frente. E era tanta luz. Tanto brilho. Tanta coisa que deveria ter ofuscado. Oposição perfeita sempre ofusca, porque alguém tem que correr pela tangente. E quem correu foi você.

Sorri leve, mordendo a tampa da caneta num um movimento esquivo. Olho para trás e se materializa Julie Delpy e seus "Dois Dias em Paris": "we'll slowly think of each other less and less until we forget each other completely". E assim foi. E mesmo que eu vencesse o desconforto e procurasse na agenda o número que há tanto não sei mais de cor: "E aí, o que tem feito, tudo bem?" E o diálogo cairia num vazio daquelas pausas longas entre desconhecidos, murmurando as desculpas da rotina que pesa, do cansaço que oprime, grifando a felicidade que agora vem, agora é plena, agora é bom, agora está melhor, um elogio rasteiro e até ano que vem, quem sabe, fique bem, continue assim, você também, apareça, ok, ok, ok, ok.

Vinte e cinco de agosto, escrevi pela sétima vez, desviando a atenção do fato enquanto pensava no dia a seguir.