sábado, junho 23, 2012

A mockingbird

Daqueles dias em que você sobe a Augusta em noite alta, aquela leve chuva de resignação que insiste em cair bagunçando os cabelos e espantando as putas para os toldos, os becos, os carros de quem passam. Pois bem, era noite alta e eu já estava irremediavelmente bêbado. Tanto, que lutava contra um daqueles soluços por três quadras, daqueles que não se sabe se é somente soluço ou primeira ânsia de vômito. Andei mais meia quadra que o habitual - precisava mijar, não queria mijar na rua, talvez comprar uma Coca. Entrei num daqueles bares toscos que amamos e nos abraçam em qualquer situação. Entrei, mijei, voltei, comprei uma Coca e fiquei sentado num daqueles bancos no balcão, onde todos os seres da noite sentam para tomar uma cachaça, um ar, um porre, esperando a lufada do destino. Dali conseguia ver boa parte da rua através da porta de vidro. Ninguém parecia ligar muito para o avançado da hora, para chuva que caia, para nada. Encoberto pela fauna local, fortemente grudado no balcão com medo da vertigem, ao longe eu vi: bonito, elegante, despreocupado. Do outro lado da rua, com amigos e cerveja na mão, deixando um leve sorriso cortar a fala para demonstrar aquela doçura inata. Aposto que não haveria ali alguém mais bonito que ele. Até brilhava um pouco, refletido no asfalto molhado e nas luzes dos carros que passavam indo daí para ali. Quanto a mim, num movimento instintivo, curvei sobre o balcão enquanto segurava firme a lata de Coca. Pois estava sozinho e bêbado, estava despido de toda segurança acumulada por anos, era só um rapaz barbudo atolado numa noite suja e dali provavelmente não conseguiria dar um passo. Diria o que? Eu diria, com absoluta sinceridade, que sentia muito. Sentia mesmo. Era o que tinha que ser e não me arrependia. Pois havia algo entre a paixão e o amor que desandou, não por sua culpa, não por culpa minha, mas que às vezes não basta ser bom e bonito, não basta saber trazer para perto e dançar. Desandou e foi das coisas mais dolorosas que me aconteceu na minha vida: saber toda a dor que vai se provocar de antemão e que não haveria modo de aliviá-la senão não me importar, sair correndo, deixar sozinho sangrando até que algo melhor, amanhã ou ano que vem, surgisse. Depois do tempo necessário, esperaria que eu encarnasse o papel do crápula manipulador, do infeliz que não soube amar, daquele que prometera e não cumprira - e, confesso, até aceitaria sem muita relutância o papel. A culpa residual que me cabe é destes pecados que ficam tatuados em algum lugar escondido e ninguém se digna a perguntar. Fica escondido dentro dos meus movimentos corretos, a capa de bom moço, nos causos cotidianos (tipo carro novo, apartamento financiado, faxineiras e bricolagrens) que nos atolam e ocupam a mente. Por isso que aqui, neste banco escondido neste bar, fiquei até perceber que você tinha ido embora. "To kill a mockingbird", logo pensei. Não conseguiria te encarar. Principalmente porque, sabia, que você me receberia com um sorriso leve no rosto, um abraço terno e uma pergunta sincera: "e aí, tudo bem com você?"

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