sexta-feira, março 16, 2012

Futuros Amantes

Por muito tempo, adotei “Futuros Amantes” do Chico Buarque como ode de consolo aos tortuosos amores que muito quis que dessem certo e, por todas as razões do Universo, não deram. Era uma época em que acreditava que o amor deveria conquistar, superar distâncias, elevar espíritos e atravessar os obstáculos: portanto, se não era agora, em algum momento ele sairia de daquela silenciosa prateleira alta para nos redimir, retornar, remoçar e mostrar o caminho mais curto para o “happy ending after”.

Colecionei tantos amores mal-resolvidos quantos couberam nestas parcas linhas telegráficas. Todos eles sabotados pela inexperiência, pela carência, pela inabilidade e, acima de tudo, pela aridez de uma época em que havia muito medo e pouca ação (talvez o motivo principal fosse que eles não haveriam mesmo de ser – o que por si só já renderia um tratado).

Pois enfim: veio tempo, várias alegrias, algumas tristezas e a sensação de finalmente estar pisando o real. Os tortuosos amores subsequentes ganharam outro destino: ao invés do edulcorado espaço no fundo do armário, foram se encaixando naqueles lugares que não doem mais, não ocupam mais, talvez só um espaço de agenda por questões temporais. Veio a consciência que amor bom é o amor de agora, aquele se leva ao cinema e suporta toda a exaustão de uma quarta-feira paulistana quando chove, ri do comportamento mais habitual que passaria desapercebido em olhares menos atentos.

Foi assim, agora, que reencontrei Chico: ele, garboso como sempre num show irrepreensível. No bis, vieram os primeiros acordes de “Futuros Amantes” e fiquei sorrindo ali quatro minutos e meio, nostálgico. Havia percebido que tinha encalacrado com os primeiros versos: “não se afobe, não / Que nada é pra já / O amor não tem pressa...” e deixado de prestar atenção no resto da música. Ele contaria a fábula do Rio inundado e esse amor submarino, inerte, aguardando estranhos escafandristas encontra-lo tal qual aquele robozinho do Inteligência Artificial.

Quem na verdade sorveria do amor ali repousado seriam os Futuros Amantes que, quiçá, se amariam sem saber com amor que fora ali deixado.

Daí pensei em tantas coisas: pensei nas canções do Tom, naquelas de Nara, nos contos de Caio, nos poemas de Bandeira, nas gravuras do Keith – todas meio amores assim jogados ao mar, sem entendermos as razões pelas quais foram escritas / compostas / desenhadas e vagam por aí, chegando até nós e iluminam nossos dias.

Somos também Futuros Amantes quiçá amando, sem saber, com o amor alheio

E sorri com a beleza do fato.

Um comentário:

Camila disse...

Oi, querido! Quanto tempo...

Passei pra dizer que seu comment puxando a cadeira me deixou muito feliz na noite de ontem.

Meu tempo não é mais tão meu, mas as histórias virão no tempo que for possível (não se afobe não).

E será sempre uma delícia ter você como companhia nessa varanda virtual de fim de tarde a qualquer tempo.

Beijão e tudo de bom sempre,
Camila