segunda-feira, janeiro 23, 2012

Delicada Atração



Vocês acreditam que um único momento pode definir o resto da sua vida inteira?

São poucos, eu sei. Neste, em específico, faz mais de dez anos atrás. Eu estava na locadora com um grande amigo, brincando na sessão de filmes cults. Devia ter quinze anos, talvez dezesseis. Quem vai querer assistir esse filme, "A maçã"? Pegávamos a fita, líamos a sinopse, talvez até fizéssemos algum teatro fingindo que éramos intelectuais. Entendam que esta prateleira ficava ali no fundo da locadora, num lugar onde jovens de quinze anos dificilmente frequentariam por vontade própria.

Até que numa dessas, puxamos um filme inglês. Na capa, um baita arco-íris e dois rapazes bonitos. A sinopse dizia rapazes, subúrbio de Londres, primeiro amor. Emudecemos. Eu e ele já havíamos conversado sobre isso: os meninos nos interessavam, as meninas não. Só que naquela época não havia a onisciência da Internet. Não haviam redes sociais. Não havia literatura, discussão, nada além de umas revistas pornográficas na locadora e um bocado de minhocas na cabeça. Tudo tinha que ser meio que adivinhado às escuras e havia um medo tremendo.

Devolvi o filme à prateleira, decorando muito bem a sua localização. Esperei uma viagem dos meus pais, a primeira que eu ficaria sozinho em casa depois de toda sorte de chantagem emocional e voltei à locadora. De pernas bambas, de mãos suadas, como se estivesse fazendo a coisa mais indecorosa do mundo: afinal, para bom entendedor, aquele baita arco-íris da capa servia perfeitamente como condenação. Mas, foda-se, vamos lá?

Vi o filme quatro vezes no final de semana. Até decorei as falas das cenas mais importantes, como aquela da massagem de menta. Virei um fã ardoroso de The Mama and the Papas e Jamie Gangel foi meu nick no ICQ por um bom tempo. A paixão de Jamie e Stu foi, por um bom tempo, o meu referencial de amor-perfeito. Por conta deste filme que eu conclui: sim, eu sou gay e talvez ser gay até seja possível, para ser assim, feliz para sempre.

Revi-o diversas vezes desde então, sempre com um sorriso no rosto. "Delicada Atração", para mim, está na minha lista de "romances de formação". Se não o tivesse visto, talvez os caminhos tivessem sido mais tortuosos do que já foram. Lógico que acreditar nesta fábula edulcorada também me rendeu um bocado de auto-sabotagens, mas enfim: isto fica para outro momento.

E para todo mundo que está nesta fase inicial de dúvidas ou até pessimista com a vida, eu o recomendo. Assista, sorria, acredite.

E, na última cena, não esqueça de tirar alguém para dançar.

6 comentários:

Anônimo disse...

quiser eu minha descoberta tivesse sido assim e não de outros jeitos. Adoro seu blog, de coração.

Aleatoriamente disse...

Passei por aqui e li seu texto. Muito legal.
Abraço amigo

Anônimo disse...

Adorei!

Camila disse...

Bacana, Gabriel.

Muito feliz por você, pela beleza de ser quem se é. Admiração sem fim.

Camila.

Marcelo A. disse...

Gente, tirou as palavras da minha boca! "Romances de formação"... Eu, como bom cinéfilo, também tive/tenho os meus. E o primeiro deles foi Delicada Atração. Obrigado pelo belo texto. Me emocionou aqui.

Marcelo

Fernando disse...

Ah, só quem sabe o que é ir na locadora e passar 20, 30 minutos, suando, pernas bambas, esperando criar coragem para levar o filme pra casa, é que sabe bem o que vc descreveu.

Ótimo texto, parabéns. Delicada Atração não fez parte dos meus "romances de formação", uma pena, pois não tive acesso a ele durante a adolescência.

Mas, como cinéfilo que sou, não poderia deixar de ver, mesmo que bastante atrasado...

Abraços.