terça-feira, janeiro 31, 2012

Velha e Louca

"Nem vem tirar
Meu riso frouxo com algum conselho
Que hoje eu passei batom vermelho,
Eu tenho tido a alegria como dom"

(Velha e Louca - Mallu Magalhães)

A vida tem sido tal qual essa música gostosa da Mallu Magalhães. Você nem dá nada por ela. Talvez nunca tivesse dado nada por muita coisa. Mas se encanta na melodia, no disparate. No jeito cadenciado e desimportante que se constroi. No estou nem aí. No climinha do topo do prédio no centro, meio decadente, meio moderninho. Meio compassado.

Só conhece o quanto é libertário esta política do foda-se quem já se vendeu muito para parecer simples, ou acima do que se queria, ou caminhando de lado para se esquivar da atenção de todos. Dá vontade de cantar junto: sobre a perna bamba e cambaleante. Sobre o ato lento do batom vermelho. Sobre a estrada.

Velho e louco, isso sim. Agora sim.

E pode falar que eu, definitivamente, não ligo.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Delicada Atração



Vocês acreditam que um único momento pode definir o resto da sua vida inteira?

São poucos, eu sei. Neste, em específico, faz mais de dez anos atrás. Eu estava na locadora com um grande amigo, brincando na sessão de filmes cults. Devia ter quinze anos, talvez dezesseis. Quem vai querer assistir esse filme, "A maçã"? Pegávamos a fita, líamos a sinopse, talvez até fizéssemos algum teatro fingindo que éramos intelectuais. Entendam que esta prateleira ficava ali no fundo da locadora, num lugar onde jovens de quinze anos dificilmente frequentariam por vontade própria.

Até que numa dessas, puxamos um filme inglês. Na capa, um baita arco-íris e dois rapazes bonitos. A sinopse dizia rapazes, subúrbio de Londres, primeiro amor. Emudecemos. Eu e ele já havíamos conversado sobre isso: os meninos nos interessavam, as meninas não. Só que naquela época não havia a onisciência da Internet. Não haviam redes sociais. Não havia literatura, discussão, nada além de umas revistas pornográficas na locadora e um bocado de minhocas na cabeça. Tudo tinha que ser meio que adivinhado às escuras e havia um medo tremendo.

Devolvi o filme à prateleira, decorando muito bem a sua localização. Esperei uma viagem dos meus pais, a primeira que eu ficaria sozinho em casa depois de toda sorte de chantagem emocional e voltei à locadora. De pernas bambas, de mãos suadas, como se estivesse fazendo a coisa mais indecorosa do mundo: afinal, para bom entendedor, aquele baita arco-íris da capa servia perfeitamente como condenação. Mas, foda-se, vamos lá?

Vi o filme quatro vezes no final de semana. Até decorei as falas das cenas mais importantes, como aquela da massagem de menta. Virei um fã ardoroso de The Mama and the Papas e Jamie Gangel foi meu nick no ICQ por um bom tempo. A paixão de Jamie e Stu foi, por um bom tempo, o meu referencial de amor-perfeito. Por conta deste filme que eu conclui: sim, eu sou gay e talvez ser gay até seja possível, para ser assim, feliz para sempre.

Revi-o diversas vezes desde então, sempre com um sorriso no rosto. "Delicada Atração", para mim, está na minha lista de "romances de formação". Se não o tivesse visto, talvez os caminhos tivessem sido mais tortuosos do que já foram. Lógico que acreditar nesta fábula edulcorada também me rendeu um bocado de auto-sabotagens, mas enfim: isto fica para outro momento.

E para todo mundo que está nesta fase inicial de dúvidas ou até pessimista com a vida, eu o recomendo. Assista, sorria, acredite.

E, na última cena, não esqueça de tirar alguém para dançar.