quinta-feira, dezembro 20, 2012

Felicidade

E eu queria te dizer, então, que vai dar tudo certo. Vai mesmo. Pode não ser agora, pode ser para quando você quiser. É só preciso ter paciência e não perder a ternura. Mesmo quando se está enterrado até os joelhos numa vida que não te satisfaz, ainda que a única perspectiva que reste seja seguir seguindo sem saber onde vai dar.

Digo isso porque nunca ninguém disse isso para mim. Era desses que virou os dezessete cantando insistentemente "Why does it always rain on me" e entrou aos dezoito cantando "Don't look back in anger". De quando tomava chuva, sobressaltado naquelas longas quadras arborizadas da faculdade, pensava que deveria chorar um pouco e não conseguia.

Ninguém me entregou o plano de vida pronto. Não havia modelo para se espelhar. O que havia, na verdade, era um constante escorregar entre negativas e interdições. Vezenquando uma esperança fugaz, cíclica, um pequeno lampejo entre tanta coisa que não servia. É só não perder o prumo que passa. É só entender que se guarda somente o que serve que fica mais fácil seguir em frente.

Felicidade vem nesses atropelos, como o Jeneci, eu,  você,  poderíamos cantar. Até meio ridículos. Até algo desconectado da realidade, quem se importa?

Felicidade é só questão de ser, meu bem.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Do tempo que transforma em quase nada

Daí, estaquei.

Pelo vidro, percebi que não havia me visto e nem entrei.

E perceber que as coisas se encerram, sim, neste silêncio constrangido.


segunda-feira, dezembro 10, 2012

Noturna

Noites como esta, quando me deito, concluo que vim parar um certo ponto em que nunca imaginei que chegaria.

Como quem dorme no metrô, exausto depois de um dia especialmente difícil.

Não que isto seja, necessariamente, ruim. Pelo contrário.

Fico pensando que abrirei os olhos e me encontrarei comigo mesmo: barba mais curta, cabelo também. Abraçaríamo-nos em silenciosa compreensão.

Enquanto explicaria a desnecessariedade do sofrimento vão, afagaria-me com a palpitação de um recem-chegado.

Reencontrar-se é somente uma das formas de seguir em frente.

domingo, novembro 25, 2012

Para não esquecer:

o que sua avó sempre dizia: que com o passar do tempo, os dias ficariam cada vez mais insuficientes.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Você sabe que é preciso manter a ternura nesta cidade, mas como? Você atravessa a Paulista naqueles algo de congestionamentos que se fazem às quatro da tarde (estrategicamente ignorando o profeta do Fim do Mundo que vezenquando se posta debaixo do MASP pedindo para que Dilma nos levem todos para as montanhas) e vê o primeiro termômetro marcando mais de quarenta graus, pensa que é brincadeira e tem o segundo apontando quarenta e um e você pensa que talvez seja alucinação coletiva e quando chega ao terceiro conclui-se que a cidade deve estar mesmo cáustica, desértica, sufocante de inabitável. Bate o olho no relógio e está atrasado, o pai perdeu o emprego por conta do maldito voto evangélico, a mãe mantém carinhos difíceis dentro da relação telegráfica que se faz a quinhentos quilômetros de distância, de quem já foi magoado e sabe que é preciso seguir em frente de alguma forma, ainda que reduzido nos pequenos pontos do cotidiano de ser adulto e ainda ter a roupa toda para lavar, jantar salada com medo do colesterol, previdência privada para abater no Imposto de Renda. A cidade sufoca e viaturas passam velozes, várias, lembrando que o estado seria de sítio com tanta violência rolando na periferia e nem a perspectiva de uma proposta mais vermelha (digo libertária, não de sangue) consola muito neste momento. Corta e o momento é pouco depois: atravesso a Nove de Julho e acendo um cigarro, é quase feriado e você trabalhou o final de semana anterior. Cada passo é uma vitória, outra viatura passa, a temperatura dá trégua. Garotos felizes e bonitos tomam cerveja desde as três da tarde naqueles bares próximos a GV e bate uma inveja branca, Tento manter a doçura, mas quem vem são estas certas ferocidades que às vezes invadem sem permitir. Chego em casa, tiro a roupa, ligo o ventilador e deito na minha cama que sozinho parece uma piscina de tão imensa. Abraço o segundo travesseiro como um amante carinhoso, musicado pelo barulho monótono das pás que giram e giram ali em cima. Fecho os olhos, tento me entregar a repetição tediosa da semana pesada para ver se o sono chega: são nove da noite, ele se recusa a chegar. Aperto os olhos um pouco mais, trago o travesseiro um pouco mais perto do corpo.

E é dai que a mágica acontece: abre-se a porta e você me tira da cama com a insistência de um príncipe. Pega-me pela mão, alisa meus cabelos. Vencido pela ternura, coloco uma roupa brilhante e ganho a noite novamente.

terça-feira, outubro 23, 2012

Sabe que agora que passamos a contar o tempo em meia-décadas, dúzias, com esforço tentar separar um ano ruim doutro pouco mais iluminado, as coisas adquiriram um ar de leveza. Parece que tudo já veio pronto, num esquete rápido de tv.

Parece que tudo era planejado do exato jeito que haveria de ser. Numa periculosidade segura, para se esborrachar com muito choro e poucas escoriações. Vem cá, me abraça - e a gente se abraçava soluçando, às vezes eu, às vezes você.

Em noites como essa de chuva lenta e carros barulhentos cortando a cidade, dessas improváveis noites que passamos sozinhos vendo a novela das oito enquanto o sono não vem, vem a saudade. Destas, sem propósito de ser. Destas que não viriam dentro desse ir-e-vir insano de vida adulta comme il faut porque até confesso que são algo vazias e desnecessárias agora que está tudo bem, tinindo, brilhando, supimpa etc.

Porque antes éramos só imobilidades, tão crentes que o mundo era cão e nós éramos frágeis. Naquelas cadeiras de cinema, os encontros de pouco álcool. Ninguém explicou que podia se manter pouco fora da curva sem medo de escorregar pela tangente. Ninguém desenhou que se esfolar não quebra. Ninguém mostrou que tempo não corria em lentíssimas revoluções que se escorriam por quase-eras de exercícios fúteis de possibilidades.

Éramos brilhantes quando de mãos dadas, não é?

segunda-feira, setembro 24, 2012

Castro

A nudez, na Califórnia, não é pecado.

Quer dizer, num pedaço dela. Num distrito. Num enclave. Numa rua onde os homens descem e sobem a rua numa tarde ensolarada de setembro, apesar do vento cortante que eventualmente resolve soprar sem aviso. Eles sobem e descem com seus adornos, algum detalhe de couro, alguns muitos quilos a mais.

Não existe um apelo necessariamente sexual. Não existe necessariamente o culto ao corpo, trincado por horas inúteis na academia, milhares de dólares gastos na ponta da faca ou em aminoácidos sintéticos. Estão nus, provavelmente, pela liberdade do ato talvez. E é por isso que eles sentam e tomam café despreocupados, apesar do olhar curioso dos turistas que, como eu, estão acostumados com certas  proibições.

Eles são livres para libertar as fantasias dos porões. Eles são livres pois sabem que encaixam num determinado pedaço do mundo e não precisam, desta forma, abrir mão do seu mundo para seguir a estética tão recorrente e pasteurizada.

A maior beleza de Castro é essa: seja quem seja, isto não é estranho.

domingo, agosto 26, 2012

Vinte e cinco de agosto

Anotava seguidamente a data nos cabeçalhos, como de habitual. A questão era que a caneta hesitava no primeiro ou segundo segundo, como se soubesse que diferentemente da grande maioria dos outros trezentos e sessenta e cinco dias que compõe o ano, esse era um dia de algo que se evitaria um pouco de atenção, desviando rapidamente o olhar para a pilha de folhas, o dia de sol, o cansaço do sábado que se principia assim de trabalho.

Deveria ligar: era isso que pensava quando acertava o 2012 num rápido rabisco. Ou talvez só escrever, sinal de fumaça, um desejar nada além de felicidades continue assim. Isso era seguido pelos pensamentos de trabalho, tira isso e coloque aquilo, troque, peça, mude, talvez sim,  talvez não, até que o próximo cabeçalho chegasse e o pensamento inicial voltasse ao ponto de partida: deveria ligar? Sabia que o dia seria longo, haveriam ainda mais duas dezenas de datas, de pensamentos, desse ligeiro soco no estômago que não se pode evitar porque a vida é assim, ingrata. Havia a necessidade em dizer continue assim porque deve bastar para todos, para tantos, para tudo o que se há nesta terra.

Numa destas pausas veio a lembrança de minha amiga bruxa naqueles estertores. Disse, entre um trago de cigarro longo e dedos leves pousando no cinzeiro, das oposições. Virgem com Peixes, uma oposição perfeita entre nossos sóis. Cento e oitenta graus. Quando abriu o mapa, assombrada, falou da complementariedade. Ying, yang, do aparente encaixe certeiro. Somente no fim que me disse o que a havia assombrado: você sempre contemplava o Sol dele, ele sempre contemplava o seu. Frente a frente. E era tanta luz. Tanto brilho. Tanta coisa que deveria ter ofuscado. Oposição perfeita sempre ofusca, porque alguém tem que correr pela tangente. E quem correu foi você.

Sorri leve, mordendo a tampa da caneta num um movimento esquivo. Olho para trás e se materializa Julie Delpy e seus "Dois Dias em Paris": "we'll slowly think of each other less and less until we forget each other completely". E assim foi. E mesmo que eu vencesse o desconforto e procurasse na agenda o número que há tanto não sei mais de cor: "E aí, o que tem feito, tudo bem?" E o diálogo cairia num vazio daquelas pausas longas entre desconhecidos, murmurando as desculpas da rotina que pesa, do cansaço que oprime, grifando a felicidade que agora vem, agora é plena, agora é bom, agora está melhor, um elogio rasteiro e até ano que vem, quem sabe, fique bem, continue assim, você também, apareça, ok, ok, ok, ok.

Vinte e cinco de agosto, escrevi pela sétima vez, desviando a atenção do fato enquanto pensava no dia a seguir.

sábado, julho 28, 2012

Sabia sorrir escorrendo pelos lábios. Sabia ser doce, mesmo tomando cerveja todo dia. Sabia um jeito automático de trazer para perto sem muito esforço, com as pontas dos dedos tocando o cabelo. Sabia desenhar o Sol na calçada de um dia particularmente ruim. Sabia o timing de uma braçada de flores, um adular sem critério, o aceitar a falha sem grande crítica.

Sabia o que puxar do baú quando as coisas aparentemente seguiam sem rumo.

Quanto a mim, só sei que você é do meu melhor.

quinta-feira, julho 12, 2012

Tenho tido algumas dificuldades em lidar com essa situação vida-adulta.

Antes parecia que havia um objetivo: era terminar a faculdade, terminar a residência, conseguir se sustentar, amar e ser amado em troca. Talvez um mochilão para Índia, talvez uma terceira língua. Parecia que toda a vida confluia para um ponto, diferentes pequenos pontos, era só olhar para frente e, perto ou longe, o objetivo estava lá.

Agora, não. Agora não há linha de chegada. Agora tem que se trabalhar para ganhar dinheiro e pagar as contas para depois quem sabe trabalhar para pagar mais contas ou para tentar trabalhar menos. Tem que batalhar para não deixar o amor cair na rotina, para que a faxineira venha, para que consertem os armários e lavar o carro, vezenquando voltar para casa e dar um beijo na mãe, ponderar os vícios, acordar cedo de segunda-a-sexta.

Vamos sobrevivendo com algum sucesso, desejando internamente que as férias logo cheguem e que os demônios fiquem longe, mordiscando os calcanhares alheios. Sobrevivendo, confesso, até com um certo charme e no pouco pudor que esta vida-adulta pode proporcionar.

Será que o resto de nossas vidas se resume a isto?

segunda-feira, julho 02, 2012

I Ching

Daí que joguei I Ching e veio bonito. Sempre tremo nas bases quando estou com as moedas na mão - o I Ching eventualmente vaticina catástrofes e infortúnios. Repito, veio bonito: o nove, o quarenta e dois. Veio falando de sucesso e pedindo suavidade. Veio pedindo crescimento e que o momento não dura para sempre. Veio para trazer um pouco de mim que estava discretamente escondido, latente, jogado para debaixo do tapete.

Veio trazendo a necessidade de retomar algumas coisas.

Como aqui, por exemplo.

sábado, junho 23, 2012

A mockingbird

Daqueles dias em que você sobe a Augusta em noite alta, aquela leve chuva de resignação que insiste em cair bagunçando os cabelos e espantando as putas para os toldos, os becos, os carros de quem passam. Pois bem, era noite alta e eu já estava irremediavelmente bêbado. Tanto, que lutava contra um daqueles soluços por três quadras, daqueles que não se sabe se é somente soluço ou primeira ânsia de vômito. Andei mais meia quadra que o habitual - precisava mijar, não queria mijar na rua, talvez comprar uma Coca. Entrei num daqueles bares toscos que amamos e nos abraçam em qualquer situação. Entrei, mijei, voltei, comprei uma Coca e fiquei sentado num daqueles bancos no balcão, onde todos os seres da noite sentam para tomar uma cachaça, um ar, um porre, esperando a lufada do destino. Dali conseguia ver boa parte da rua através da porta de vidro. Ninguém parecia ligar muito para o avançado da hora, para chuva que caia, para nada. Encoberto pela fauna local, fortemente grudado no balcão com medo da vertigem, ao longe eu vi: bonito, elegante, despreocupado. Do outro lado da rua, com amigos e cerveja na mão, deixando um leve sorriso cortar a fala para demonstrar aquela doçura inata. Aposto que não haveria ali alguém mais bonito que ele. Até brilhava um pouco, refletido no asfalto molhado e nas luzes dos carros que passavam indo daí para ali. Quanto a mim, num movimento instintivo, curvei sobre o balcão enquanto segurava firme a lata de Coca. Pois estava sozinho e bêbado, estava despido de toda segurança acumulada por anos, era só um rapaz barbudo atolado numa noite suja e dali provavelmente não conseguiria dar um passo. Diria o que? Eu diria, com absoluta sinceridade, que sentia muito. Sentia mesmo. Era o que tinha que ser e não me arrependia. Pois havia algo entre a paixão e o amor que desandou, não por sua culpa, não por culpa minha, mas que às vezes não basta ser bom e bonito, não basta saber trazer para perto e dançar. Desandou e foi das coisas mais dolorosas que me aconteceu na minha vida: saber toda a dor que vai se provocar de antemão e que não haveria modo de aliviá-la senão não me importar, sair correndo, deixar sozinho sangrando até que algo melhor, amanhã ou ano que vem, surgisse. Depois do tempo necessário, esperaria que eu encarnasse o papel do crápula manipulador, do infeliz que não soube amar, daquele que prometera e não cumprira - e, confesso, até aceitaria sem muita relutância o papel. A culpa residual que me cabe é destes pecados que ficam tatuados em algum lugar escondido e ninguém se digna a perguntar. Fica escondido dentro dos meus movimentos corretos, a capa de bom moço, nos causos cotidianos (tipo carro novo, apartamento financiado, faxineiras e bricolagrens) que nos atolam e ocupam a mente. Por isso que aqui, neste banco escondido neste bar, fiquei até perceber que você tinha ido embora. "To kill a mockingbird", logo pensei. Não conseguiria te encarar. Principalmente porque, sabia, que você me receberia com um sorriso leve no rosto, um abraço terno e uma pergunta sincera: "e aí, tudo bem com você?"

domingo, maio 13, 2012

Escrevo, apago, refaço. Redigo, repenso, até fechar o computador num baque e tentar outra coisa menos cerebral, algo até mecânico: videogame, tv-besteira, punheta. Atolado com dois pés numa rotina que sufoca e, ao final, recompensa com o vil metal em que pago o carro e o apartamento, as bebidas e a televisão a cabo, fingindo uma pretensa segurança para evitar a inevitável terapia-aos-trinta-anos onde, inconsolável, lamentarei dos amores que desfiz com os próprios dedos, a negligência com os carinhos de casa e a inutilidade que é correr de sol-a-sol perseguindo os desejos dos outros enquanto ainda se há tanta vida por se enfrentar por aí.

segunda-feira, abril 02, 2012

Nono ano

Há tempos que tenho escrito e as coisas vão se acumulando no rascunho. Hoje respirei fundo e vamos lá?

E por falar de parcas linhas telegráficas, elas completam por estes dias nove anos. Quando penso que nove anos são um terço da minha vida, surpreendo-me com a rapidez do tempo passado e a dimensão que este diminuto espaço virtual tomou em minha vida.

A vida blogueira começou aos 18 anos, numa era em que o blog era a primeira tentativa em agregar pessoas com afinidades e propostas em comum (as ditas redes sociais viriam três anos depois, acho). Naquela época, queria escrever e sabia que escrever era um hábito, uma habilidade que se desenvolvia com o exercício. Na esteira de vários "zines" virtuais e uma galera jovem que estava reinventando o uso da internet como forma de disseminação de informação, pedi umas orientações de html e entrei no barco.

Escrevia quase que diariamente. Tanto que, pouco tempo depois, fazia uso do meu espaço virtual para ficar desparafusando as ideias, conjecturando hipóteses e, principalmente, colocar sobre a mesa as angústias e tentar transformá-las em coisas diferentes - às vezes bonitas, às vezes melancólicas, às vezes só reclamações sobre um bocado de desejos que não respeitavam meu planejamento.

Isto aqui sempre foi minha melhor terapia.

Gosto muito de pegar um determinado ano, um determinado mês e lê-lo, pensando nas coisas que eu estava fazendo, nas coisas que eu queria e na forma que tentava alcançá-las. Também gosto bastante de ler sobre um "turning point" específico, naquela situação que foi decisiva de alguma forma para mim e que me fez uma pessoa melhor (ou pior, vai saber), mais feliz ou um momento realmente especial.

Reler o blog me reforça a ideia de que a vida é feita de vários pequenos momentos bonitos e que tendemos a esquecê-los com o passar do tempo: uma música que marcou durante uma viagem, uma melancolia específica durante uma terça-feira chuvosa de julho ou a solidão de um telefonema que não aconteceu. Guardá-los e compartilhá-los é um imenso prazer. E toda vez que penso que talvez não tenha mais idade ou assunto para trazer aqui, lembro que várias vezes deixei aqui coisas desimportantes que resgatei sorrindo, brilhantes.

Devo falar mais sobre os processos no decorrer deste ano. De mais a mais estou bem, feliz, só com uns dilemas pequeno-burgueses tipo queria trabalhar menos, ganhar mais dinheiro e uma casa no campo.

Vamos seguindo, até alcançar a próxima década :)

sexta-feira, março 16, 2012

Futuros Amantes

Por muito tempo, adotei “Futuros Amantes” do Chico Buarque como ode de consolo aos tortuosos amores que muito quis que dessem certo e, por todas as razões do Universo, não deram. Era uma época em que acreditava que o amor deveria conquistar, superar distâncias, elevar espíritos e atravessar os obstáculos: portanto, se não era agora, em algum momento ele sairia de daquela silenciosa prateleira alta para nos redimir, retornar, remoçar e mostrar o caminho mais curto para o “happy ending after”.

Colecionei tantos amores mal-resolvidos quantos couberam nestas parcas linhas telegráficas. Todos eles sabotados pela inexperiência, pela carência, pela inabilidade e, acima de tudo, pela aridez de uma época em que havia muito medo e pouca ação (talvez o motivo principal fosse que eles não haveriam mesmo de ser – o que por si só já renderia um tratado).

Pois enfim: veio tempo, várias alegrias, algumas tristezas e a sensação de finalmente estar pisando o real. Os tortuosos amores subsequentes ganharam outro destino: ao invés do edulcorado espaço no fundo do armário, foram se encaixando naqueles lugares que não doem mais, não ocupam mais, talvez só um espaço de agenda por questões temporais. Veio a consciência que amor bom é o amor de agora, aquele se leva ao cinema e suporta toda a exaustão de uma quarta-feira paulistana quando chove, ri do comportamento mais habitual que passaria desapercebido em olhares menos atentos.

Foi assim, agora, que reencontrei Chico: ele, garboso como sempre num show irrepreensível. No bis, vieram os primeiros acordes de “Futuros Amantes” e fiquei sorrindo ali quatro minutos e meio, nostálgico. Havia percebido que tinha encalacrado com os primeiros versos: “não se afobe, não / Que nada é pra já / O amor não tem pressa...” e deixado de prestar atenção no resto da música. Ele contaria a fábula do Rio inundado e esse amor submarino, inerte, aguardando estranhos escafandristas encontra-lo tal qual aquele robozinho do Inteligência Artificial.

Quem na verdade sorveria do amor ali repousado seriam os Futuros Amantes que, quiçá, se amariam sem saber com amor que fora ali deixado.

Daí pensei em tantas coisas: pensei nas canções do Tom, naquelas de Nara, nos contos de Caio, nos poemas de Bandeira, nas gravuras do Keith – todas meio amores assim jogados ao mar, sem entendermos as razões pelas quais foram escritas / compostas / desenhadas e vagam por aí, chegando até nós e iluminam nossos dias.

Somos também Futuros Amantes quiçá amando, sem saber, com o amor alheio

E sorri com a beleza do fato.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Existe amor em SP

Lógico que existe amor em SP. Sempre houve. Sempre haverá para quem achar que amor não se encontra por decreto. Amor não chega após publicação no Diário Oficial e mil-protocolos de boas intenções. Não bate à porta do apartamento que vive trancada, nem se materializa por invocação ou encantamento.

Amor existe para quem abre as janelas, as portas, desce as ruas e sobe aos edifícios, mesmo estes condenados pela especulação imobiliária. Existe em cada estação de metrô, em todo ponto de ônibus. Existe para quem se vende pelo preço que verdadeiramente é e sabe dar desconto quando necessário, tem a capacidade de mudar de rumo, trocar de balada, às vezes beber num bar bem sujo e se permitir comer aquela coxinha meio verde que sobra às quatro da manhã.

Mesmo para quem já se viu chorando na sarjeta mais suja enquanto amanhecia, mesmo para quem já teve os sonhos triturados algumas vezes por quem não soube fazer o que deveria com eles. SP tem destes descaminhos, ladeiras e becos, estas armadilhas das quais até o mais capaz vezenquando cai. Importante lembrar que SP não é Gotham City e por baixo deste skyline de prédios espelhados e rios tão poluídos cortando esta terra impermeabilizada, também existem garotos que soltam pipas na Aclimação.

SP transborda amor. Às vezes é preciso apertar os olhos e fingir que as avenidas não tem nome dos barões da ditadura. Mas, tudo bem, mesmo assim, não tenho dúvidas: há tanto, tanto, que por isso é preciso sorrir todo dia.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Velha e Louca

"Nem vem tirar
Meu riso frouxo com algum conselho
Que hoje eu passei batom vermelho,
Eu tenho tido a alegria como dom"

(Velha e Louca - Mallu Magalhães)

A vida tem sido tal qual essa música gostosa da Mallu Magalhães. Você nem dá nada por ela. Talvez nunca tivesse dado nada por muita coisa. Mas se encanta na melodia, no disparate. No jeito cadenciado e desimportante que se constroi. No estou nem aí. No climinha do topo do prédio no centro, meio decadente, meio moderninho. Meio compassado.

Só conhece o quanto é libertário esta política do foda-se quem já se vendeu muito para parecer simples, ou acima do que se queria, ou caminhando de lado para se esquivar da atenção de todos. Dá vontade de cantar junto: sobre a perna bamba e cambaleante. Sobre o ato lento do batom vermelho. Sobre a estrada.

Velho e louco, isso sim. Agora sim.

E pode falar que eu, definitivamente, não ligo.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Delicada Atração



Vocês acreditam que um único momento pode definir o resto da sua vida inteira?

São poucos, eu sei. Neste, em específico, faz mais de dez anos atrás. Eu estava na locadora com um grande amigo, brincando na sessão de filmes cults. Devia ter quinze anos, talvez dezesseis. Quem vai querer assistir esse filme, "A maçã"? Pegávamos a fita, líamos a sinopse, talvez até fizéssemos algum teatro fingindo que éramos intelectuais. Entendam que esta prateleira ficava ali no fundo da locadora, num lugar onde jovens de quinze anos dificilmente frequentariam por vontade própria.

Até que numa dessas, puxamos um filme inglês. Na capa, um baita arco-íris e dois rapazes bonitos. A sinopse dizia rapazes, subúrbio de Londres, primeiro amor. Emudecemos. Eu e ele já havíamos conversado sobre isso: os meninos nos interessavam, as meninas não. Só que naquela época não havia a onisciência da Internet. Não haviam redes sociais. Não havia literatura, discussão, nada além de umas revistas pornográficas na locadora e um bocado de minhocas na cabeça. Tudo tinha que ser meio que adivinhado às escuras e havia um medo tremendo.

Devolvi o filme à prateleira, decorando muito bem a sua localização. Esperei uma viagem dos meus pais, a primeira que eu ficaria sozinho em casa depois de toda sorte de chantagem emocional e voltei à locadora. De pernas bambas, de mãos suadas, como se estivesse fazendo a coisa mais indecorosa do mundo: afinal, para bom entendedor, aquele baita arco-íris da capa servia perfeitamente como condenação. Mas, foda-se, vamos lá?

Vi o filme quatro vezes no final de semana. Até decorei as falas das cenas mais importantes, como aquela da massagem de menta. Virei um fã ardoroso de The Mama and the Papas e Jamie Gangel foi meu nick no ICQ por um bom tempo. A paixão de Jamie e Stu foi, por um bom tempo, o meu referencial de amor-perfeito. Por conta deste filme que eu conclui: sim, eu sou gay e talvez ser gay até seja possível, para ser assim, feliz para sempre.

Revi-o diversas vezes desde então, sempre com um sorriso no rosto. "Delicada Atração", para mim, está na minha lista de "romances de formação". Se não o tivesse visto, talvez os caminhos tivessem sido mais tortuosos do que já foram. Lógico que acreditar nesta fábula edulcorada também me rendeu um bocado de auto-sabotagens, mas enfim: isto fica para outro momento.

E para todo mundo que está nesta fase inicial de dúvidas ou até pessimista com a vida, eu o recomendo. Assista, sorria, acredite.

E, na última cena, não esqueça de tirar alguém para dançar.