quinta-feira, dezembro 29, 2011

Numa destas noites quentes, conversava com um grande amigo enquanto subíamos de Higienópolis para mãe Augusta. Falávamos do ano bom que frutifica, das pequenas conquistas lentas que a vida adulta nos impõe. Começamos a falar de um conhecido, que nestas reuniões de fim-de-ano reclamava da vida que levava: ele queria ser um médico de sucesso, ter muitos amigos, ter muito dinheiro, um namorado perfeito. Queria para ontem. Queria, pelo direito inato de felicidade que deveria ser concedido a todos pelo simples fato de existirmos e da vida ser cão, a faculdade ser longa e torturante, a família aquele poço de desejos subentendidos.

Disse meu amigo, num conselho que ele achou clichê, mas quem se importa: nunca devemos tirar a felicidade que buscamos de dentro da gente. A felicidade não é algo que se projeta para fora e devemos perseguir. É algo que se constrói, em pequenas revoluções. Às vezes na velocidade dos continentes, com um bocado de dor inclusa no pacote. Com estes desvios, desvãos, atalhos imprevistos. Até entendo este estado de imobilidade que eventualmente nos encontramos e desenhar um futuro brilhante é um dos poucos prazeres que se pode ter. Entendo, mas acho nocivo.

Quem se perde em devaneios, perde a capacidade de manter o foco e se reinventar. Gostaria de ter dito a ele: seja feliz hoje. Quebre os pratos, puxe a toalha da mesa. Dois reais para o superego comprar bala na esquina. Sem perder a noção de onde se quer ir, mas resignado que estes estágios intermediários da vida existem e, já que existem, então vamos viver?

Nenhum comentário: