quinta-feira, dezembro 29, 2011

Metade

Para ser lido enquanto se ouve Adriana Calcanhoto

"Que chuva, hein?"

Balanço a cabeça, concordando. Quase ensopado na verdade. O taxista sorri, pergunta para onde e eu hesito. Ao hesitar, solto o maço de cigarros roubado no bolso e levo a mão ao rosto, apertando os olhos.

"Segue para Santa Cecília, ali perto do Metrô"

Torço secretamente para os cigarros ainda estarem secos. Na rádio toca Chico, o taxista faz um movimento para trocar e eu digo: deixa, eu gosto. Santa Chuva, eu penso, mas não seria esta. Roubei os cigarros enquanto passava pela mesa, quando todos da firma estavam tão felizes dançando sertanejo, bebendo em exagero, conversando dos formulários e da ruindade do café. Foi dando agonia ali no meio, lenta. E aquela vontade de ter algo entre os dedos. E um só não faria mal. Só que dá vergonha em admitir, vejam bem, parei e agora é só um porque estou mal, festa da firma me faz mal, hoje vou dormir sozinho porque a partir de agora é assim que terá que ser. Preferi sair e resolvi sair. Achei um Free Light por entre os copos meio cheios, com marcas de batom. E sai.

Chequei os cigarros, milagrosamente secos e disse Amém. Você se materializa do meu lado e diz: fraco, seu fraco. E confesso que sempre fui: era eu quem chorava cântaros quando Elis cantava Atrás da Porta, mesmo quando eu estava bem, sem tormentos, quase limpo, leve. Nunca conseguimos ir muito longe de onde somos e já dizia aquela nossa amiga metida a psicologismos: sou do perfil da adição, lembra-se?

De Chico mudou para Tim Maia, meio alegre. A cidade estava vazia, nenhuma alma na rua para encharcar os ossos. Pensei até em falar ao taxista sobre as noites difíceis de trabalhar varando a noite, transportando desconhecidos para lá e para cá, mas achei o silêncio meio benção involuntária. Daí é o telefone que escorrega pelos dedos, penso que poderia colocar no redial e dizer, olha, sabe?

Eu chego no fim, cantarolo. Bato no outro bolso, só para checar que a chave está ali e não ficaria tiritando na chuva, dormindo no hall do prédio como em outras noites de muito álcool e frustrações suficientes para o resto do mês. A música certa chega por telepatia enquanto o carro entra pela Amaral Gurgel, sob a horrenda sombra do Minhocão. Domingo vezenquando corríamos sobre ele, naquela atmosfera quase apocalíptica que tanto concreto vazio consegue produzir. Pensava no amor assim: urbano e estéril, indesejado. Tinha seu quê de poético, na verdade. Brincávamos com os apartamentos empobrecidos que viámos à mesma altura, sem muita crítica em pensar que minha casa não seria muito diferente mesmo distante poucas quadras dali.

"Na próxima encarnação, quero um amor-Higienópolis". E ríamos os dois. E ri, sozinho, baixinho, enquanto o carro entrava em minha rua.

Onde será que você está agora?
Numa destas noites quentes, conversava com um grande amigo enquanto subíamos de Higienópolis para mãe Augusta. Falávamos do ano bom que frutifica, das pequenas conquistas lentas que a vida adulta nos impõe. Começamos a falar de um conhecido, que nestas reuniões de fim-de-ano reclamava da vida que levava: ele queria ser um médico de sucesso, ter muitos amigos, ter muito dinheiro, um namorado perfeito. Queria para ontem. Queria, pelo direito inato de felicidade que deveria ser concedido a todos pelo simples fato de existirmos e da vida ser cão, a faculdade ser longa e torturante, a família aquele poço de desejos subentendidos.

Disse meu amigo, num conselho que ele achou clichê, mas quem se importa: nunca devemos tirar a felicidade que buscamos de dentro da gente. A felicidade não é algo que se projeta para fora e devemos perseguir. É algo que se constrói, em pequenas revoluções. Às vezes na velocidade dos continentes, com um bocado de dor inclusa no pacote. Com estes desvios, desvãos, atalhos imprevistos. Até entendo este estado de imobilidade que eventualmente nos encontramos e desenhar um futuro brilhante é um dos poucos prazeres que se pode ter. Entendo, mas acho nocivo.

Quem se perde em devaneios, perde a capacidade de manter o foco e se reinventar. Gostaria de ter dito a ele: seja feliz hoje. Quebre os pratos, puxe a toalha da mesa. Dois reais para o superego comprar bala na esquina. Sem perder a noção de onde se quer ir, mas resignado que estes estágios intermediários da vida existem e, já que existem, então vamos viver?

domingo, dezembro 18, 2011

Ontem sonhei com você e acordei num sobressalto. E naqueles cinco segundos antes de recobrar a consciência, exaurido numa quarta-feira destas semanas que se arrastam por dezenove dias, sorri de leve e com vagar pois havia sido sonho bom. E quando digo sonho bom, é sonho leve, familiar, destes que te abraçam mesmo quando há um turbilhão a volta. Era um sonho com carros, acho que o meu quebrara, encontrávamos na oficina e conversamos sobre coisas sem tempo: carinho e afetos cristalinos, sem aparas, de colocar na palma da mão e apertar suave. Daquelas doçuras suas que eram tão típicas, das minhas que às vezes também transbordam. Não consigo aqui reproduzir duas frases, mas digo com certeza: nada perigoso ou com margem para qualquer outra coisa que não fosse aquilo.

O sobressalto do sonho bom, na verdade, foi em perceber que há certos afetos que eu preciso aprender a aceitar.

"E, ao amanhã, a gente não diz"

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Ontem encontrei com você, de sobressalto. Enquanto subia a Frei Caneca você se esbarrou, pediu isqueiro mesmo sabendo que há tanto parei de fumar. Jogou-me tantas coisas, como lhe é de habitual. Palpitou tanto, como de costume. Disse do trabalho, do cansaço, da sua vida, da correria, disse tantas coisas que foram batendo no vazio, pois lá no fundo havia a vontade em dizer que não me importava, tão simples: não me importo contigo, nem com tua vida nem com teu cigarro, nem teu trabalho tampouco teu sucesso, se eu estava fumando demais o problema era tão e somente do meu interesse, pois não venha com simpatias ou protocolos de boas intenções, agora já foi e não importa, agora quero você tão longe que não me alcance com seus julgamentos, as opiniões despreocupadas.

Nada disse, como de habitual. Fiquei ali, mastigando minhas agressividades, até o discurso acabar.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Digo bobagens, apelo nos clichês. Carrego nas tintas, inverto as ordens. Recorto as pontas, colo ao meio e outras barbaridades. Mas, juro, juro mesmo: meu amor é de uma honestidade simples.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Não custa lembrar: amigo também se demite. Ou termina, vai cada um para um canto encabulado, desgostoso, com o direito automático a um cadinho de mágoa que envenena, mas também salva.

Tem gente que tratamos com amor. Tem gente que tratamos. E tem gente que, sinto muito, já foi. Não se aborreça, às vezes também nem entre muito em detalhes para evitar maiores desapontamentos. Respeite a cerquinha branca, fique ali do seu lado do pasto que é melhor. Relevo, compreendo, até poderia: mas, para falar bem a verdade, tem seu quê de terapêutico dizer uns eu-não-me-importo neste mundo edulcorados de curtições, favoritos e outras superficialidades que não levam a lugar algum.