terça-feira, agosto 23, 2011

#1 - Quando nosso bar fecha as portas

Lembro-me bem da primeira vez que entrei, portas grandes e meia luz. Era quinta-feira, já havia bebido um tanto. Ao entrar, primeiro pensei em Nova York. Depois, senti o forte cheiro de carvalho que vinha do balcão, misturado com os destilados que ali se faziam e se derramavam pela superfície. Era pequeno: pouco mais de uma dezena de mesas, quase sempre casais sendo um destes caras de meia-idade, camisa de botão e cabelo para trás, às vezes escondendo, às vezes sublinhando os primeiros fios grisalhos, acompanhados por destas ninfetinhas jovens, vinte e poucos, decotes daqueles que insinuavam sem necessariamente se mostrar. Típico bar de coroa pra comer menininha, só que com classe. Por isso, talvez, predominasse a meia luz.

Daquela primeira vez, fui levado por minha hermana querida, esta cara que me pegava pelos dedos e me levava para as profundezas da cidade. Sentamos no balcão, eu e ela, para que eu visse o processo. Dry Martini, pedimos. Diziam que era a especialidade do bar. Depois fui descobrir que era o melhor da cidade e, por vezes, eleito o melhor drink da cidade dentre Cosmopolitans, Gin Tônicas e todos os outros coquetéis servidos nesta selva. Foi ali que entendi o segredo do bom Dry Martini: seco e gelado. A arte em se misturar o gelo com o gim e vermute, alterando a temperatura da bebida sem deixar que o gelo derretesse. Tão seco que, ao tomar o primeiro gole, o segundo gesto instintivo deveria ser procurar o primeiro gole d'água.

Não fui ao Dry mais que uma dezena de vezes: para ir, era necessária que a situação fosse deveras especial. Um dry martini já bastava para fazer que a noite se abrisse em uma aventura, num mergulho fundo, num tamborilar de dedos. Taquicardias. Sonhos refeitos. Contemplações lentas observando as circuvoluções translúcidas e lentas de dois líquidos com densidades diferentes, insistindo em se misturar. Coragens insensatas, proximamento de almas. Libertação, pura e simples.

terça-feira, agosto 09, 2011

Sempre fui de intensidades. Sempre me equilibrei entre minhas instabilidades, carregando a mão para o lado que estivesse perdendo. Destes que correm por algo, longe, descabelado, mesmo sem saber qual seria o benefício da linha cruzada. Sempre fui por ali, ainda que ninguém apontasse. Parece estranho o agora, esse devagar. Em desacelerar o passo e poder ir fundo, bem fundo, entendendo que aqui é confortável. Vejo coisas que nunca. Fecho os olhos e espero, neste lento aprendizado que é abrir os dedos e deixar que o vento chegue e todo, o resto, frutifique.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Perdoem-me. Acho que matei a poesia.