terça-feira, janeiro 11, 2011

O que é

Uma certa hermana pediu-me, em seguida, o contraponto para "O que não é". Com quase ano, tentarei deixar a dívida paga. Naquela época, estava preocupado em me afastar daquilo que não me cabia, sem me preocupar com o resto. As negativas são as primeiras coisas que aprendemos, desde a primeira infância. Mas, nada que dura é baseado tão somente em negativas. Da mesma forma que felicidade não é a ausência de sofrimento, as escolhas não se fazem só por eliminação.

O que é não tem fórmula, não tem descrição. A sutileza da primeira citação acertada, dos mundos subsequentes que são complementares, dos pensamentos que são adivinhados pela madrugada, os acordos estabelecidos tão silenciosamente, a paz em se estar tão simplesmente só, ali, pode ser terça-feira com o pior programa do mundo na tv, pode ser no bar mais soturno da Augusta, nos nossos vícios compartilhados, os pés dados quando nada está a acontecer.

E daí os dias fluem, as horas escorrem, quando vemos já é madrugada alta e a rotina morde os calcanhares, quem se importa? Afundo-me no seu corpo, perco-me nos teus dedos, vagueio compromissos protocolares para te rever numa escapolida e quando o voo atrasa fico pensando como é triste essa noite que perco sem vigiar o seu sono, coisa que companhia aérea nenhuma conseguirá pagar. A rotina cristaliza e me pego surpreendentemente tranquilo, vou pensando que em janeiro de 2012 deveria tirar férias e te levar prum paraíso tropical qualquer e que talvez trabalhar mais um pouco para comprar um apartamento maior e daí, como agora, por exemplo, o shuffle me joga "Eu te amo" do Chico, sempre Chico e me perco nestas coisas boas e bobas, pequenas epifanias, de todas as rosas que ainda vou te dar.

Porque não basta só gostar de Chico, é preciso ter a mesma pontuação quando escreve, sem nunca ter lido nada que já escrevi. Porque não basta só fumar, é preciso se arrebentar de alegria ao acendê-lo com um Zippo. Porque não basta só a inteligência, também saber se divertir com a cultura rasa, as manchetes que espirram sangue do nosso pasquim favorito. Não vale tão somente o humor, é preciso saber criar a fábula da máfia siciliana que executa lavagem de dinheiro em algum lugar do Paraíso ou dos nossos planos de Bonnie e Clyde de assaltar um cassino em Punta del Leste enquanto atravessamos o Brasil num veículo conversível. E essa capacidade de tirar coelhos da cartola, de ordenar o caos numa forma palatável, na segurança em se estar, de me roubar um sorriso quando o mundo está desabando e de satisfazer todas minhas histerias pequeno-burgesas com um quase nada além dos olhos postos, adulando-me com um cafuné ou uma Heineken, reconhecendo todas minhas inflexões vocais.

E de tanto negar, tanto fugir e tanto adivinhar o próximo passo, agora veio: é. Sem receita, sem postulado lógico: é. Sem precisar apelar para o indivisível, sem qualquer tipo de omissão para se parecer algo melhor do que se verdadeiramente é. Do que ocupa sem derrubar paredes, do que invade batendo na porta e pedindo licença, do que se tem e agora, sem remédio, não concebo existir sem.

Não há explicação nem jeito: o que é, é.

2 comentários:

Claudia Ka disse...

Oi, vc escreve bastante neste blog, palavras extensas, legal
Estava passeando pela net e vi seu blog... Tenho um blog musical, bastante eclético. A proposta é a divisão musical segundo temperos e cores auditivas. Se possível dê uma passadinha por lá, ok ? www.temperomusical.blogspot.com ;-) Abraço,
Claudia.

Eu não sei, você sabe? disse...

Menino, porque ir pra vinte e muitos Eh menino, vc escreve bem.
E admiro mais qdo vejo a qualidade em médicos, q talvez seja seu caso.
Espero q ao chegar em trinta em muitos, como eu, Nao tenha apenas um blog frustro q vai a óbito lentamente.
Continue, sem cigarro e com algumas heinekens.