segunda-feira, janeiro 31, 2011

Adeus

Para você, que conheci primeiro nestes becos da vida - dezoito anos, imberbe e desconhecendo os perigos que haveriam. E depois, reecontrá-lo em tantas outras noites regadas com bom violão e boa cerveja, aprendendo o gesto lento em se pensar, tão silenciosamente, enquanto o resto fica a escorrer mundo afora.

Para você que me seguiu noutras madrugadas, destas solidões compartilhadas que insistentemente eu me obrigava a tentar. Na raridade dos nossos encontros, sentir aquele desfalecimento fugaz de poucos segundos, inundando as sinapses, que quase sempre me obrigada a encostar no muro procurando abrigo.

Por tantas vezes, meu único companheiro. Paciente, romantizado - tão belo quando ali, nos primeiros segundos, via queimar em brasa. Depois, pouco tempo, fumaça espessa para o alto em pequenas revoluções. Aprendi o jeito de se fumar sozinho, por vezes desesperado, outras vezes escapista e, por último, aquele por pura cafajestagem old-fashionable.

Consolou-me nas piores insônias, fez companhia naqueles minutos insonsos enquanto esperava um filme, seguindo um café, embalando tantas boemias selvagens que eu viria a descobrir depois. Deu-me a cara politicamente incorreta que me é tão peculiar. Conheceu meus amores, meus pecados, minhas idiossincrasias e embalou histórias tão boas.

Portanto, meu caro, te abandonar me deixa num luto imenso - e às vezes, quase todo dia, penso que sim. Como daqueles amores loucos que terminam, por assim, terminar e te jogam naquele ciclo da sede imensa. É assim que me vejo: um pobre louco apaixonado na sarjeta. Mas sei, e como sei: meu caro, não deveria ter me tirado todo o ar.

terça-feira, janeiro 11, 2011

O que é

Uma certa hermana pediu-me, em seguida, o contraponto para "O que não é". Com quase ano, tentarei deixar a dívida paga. Naquela época, estava preocupado em me afastar daquilo que não me cabia, sem me preocupar com o resto. As negativas são as primeiras coisas que aprendemos, desde a primeira infância. Mas, nada que dura é baseado tão somente em negativas. Da mesma forma que felicidade não é a ausência de sofrimento, as escolhas não se fazem só por eliminação.

O que é não tem fórmula, não tem descrição. A sutileza da primeira citação acertada, dos mundos subsequentes que são complementares, dos pensamentos que são adivinhados pela madrugada, os acordos estabelecidos tão silenciosamente, a paz em se estar tão simplesmente só, ali, pode ser terça-feira com o pior programa do mundo na tv, pode ser no bar mais soturno da Augusta, nos nossos vícios compartilhados, os pés dados quando nada está a acontecer.

E daí os dias fluem, as horas escorrem, quando vemos já é madrugada alta e a rotina morde os calcanhares, quem se importa? Afundo-me no seu corpo, perco-me nos teus dedos, vagueio compromissos protocolares para te rever numa escapolida e quando o voo atrasa fico pensando como é triste essa noite que perco sem vigiar o seu sono, coisa que companhia aérea nenhuma conseguirá pagar. A rotina cristaliza e me pego surpreendentemente tranquilo, vou pensando que em janeiro de 2012 deveria tirar férias e te levar prum paraíso tropical qualquer e que talvez trabalhar mais um pouco para comprar um apartamento maior e daí, como agora, por exemplo, o shuffle me joga "Eu te amo" do Chico, sempre Chico e me perco nestas coisas boas e bobas, pequenas epifanias, de todas as rosas que ainda vou te dar.

Porque não basta só gostar de Chico, é preciso ter a mesma pontuação quando escreve, sem nunca ter lido nada que já escrevi. Porque não basta só fumar, é preciso se arrebentar de alegria ao acendê-lo com um Zippo. Porque não basta só a inteligência, também saber se divertir com a cultura rasa, as manchetes que espirram sangue do nosso pasquim favorito. Não vale tão somente o humor, é preciso saber criar a fábula da máfia siciliana que executa lavagem de dinheiro em algum lugar do Paraíso ou dos nossos planos de Bonnie e Clyde de assaltar um cassino em Punta del Leste enquanto atravessamos o Brasil num veículo conversível. E essa capacidade de tirar coelhos da cartola, de ordenar o caos numa forma palatável, na segurança em se estar, de me roubar um sorriso quando o mundo está desabando e de satisfazer todas minhas histerias pequeno-burgesas com um quase nada além dos olhos postos, adulando-me com um cafuné ou uma Heineken, reconhecendo todas minhas inflexões vocais.

E de tanto negar, tanto fugir e tanto adivinhar o próximo passo, agora veio: é. Sem receita, sem postulado lógico: é. Sem precisar apelar para o indivisível, sem qualquer tipo de omissão para se parecer algo melhor do que se verdadeiramente é. Do que ocupa sem derrubar paredes, do que invade batendo na porta e pedindo licença, do que se tem e agora, sem remédio, não concebo existir sem.

Não há explicação nem jeito: o que é, é.

terça-feira, janeiro 04, 2011

Pois é

Sim, eu entendo. E também não te culpo, quer dizer, tenho a clareza em não dividir a história em mocinhos e bandidos. Passei da fase do maniqueísmo gratuito, sabe? No final das contas, cada um agiu movido tão somente pelo caminho que considerava menos indolor para si mesmo e que o resto se encaixasse depois. Fica cada um em seu canto, com seus sonhos, as suas idiossincrasias e trazendo para bem perto aquilo que vale a pena. Ficamos com o gosto amargo na boca que nunca admitiremos que existe: diremos nos bares, cada um no seu, com uma soberba característica - dos desvãos, dos desvios, as incapacidades. Diremos e repetiremos a mesma história distorcida para nos fazermos de heróis neste mundo cão cheio de gentes que não se importam e não tem sensibilidade para com o próximo. Até que a história nem doa mais, nossa história nem vibre mais, fiquemos por aí daquele jeito que poderia ser tanto e não foi por inabilidade sua, minha, dos outros.

Por hoje, te dou a benção da mágoa sem te culpar por isso. Eu, permaneço firme com a felicidade que escolhi para mim.