quinta-feira, dezembro 29, 2011

Metade

Para ser lido enquanto se ouve Adriana Calcanhoto

"Que chuva, hein?"

Balanço a cabeça, concordando. Quase ensopado na verdade. O taxista sorri, pergunta para onde e eu hesito. Ao hesitar, solto o maço de cigarros roubado no bolso e levo a mão ao rosto, apertando os olhos.

"Segue para Santa Cecília, ali perto do Metrô"

Torço secretamente para os cigarros ainda estarem secos. Na rádio toca Chico, o taxista faz um movimento para trocar e eu digo: deixa, eu gosto. Santa Chuva, eu penso, mas não seria esta. Roubei os cigarros enquanto passava pela mesa, quando todos da firma estavam tão felizes dançando sertanejo, bebendo em exagero, conversando dos formulários e da ruindade do café. Foi dando agonia ali no meio, lenta. E aquela vontade de ter algo entre os dedos. E um só não faria mal. Só que dá vergonha em admitir, vejam bem, parei e agora é só um porque estou mal, festa da firma me faz mal, hoje vou dormir sozinho porque a partir de agora é assim que terá que ser. Preferi sair e resolvi sair. Achei um Free Light por entre os copos meio cheios, com marcas de batom. E sai.

Chequei os cigarros, milagrosamente secos e disse Amém. Você se materializa do meu lado e diz: fraco, seu fraco. E confesso que sempre fui: era eu quem chorava cântaros quando Elis cantava Atrás da Porta, mesmo quando eu estava bem, sem tormentos, quase limpo, leve. Nunca conseguimos ir muito longe de onde somos e já dizia aquela nossa amiga metida a psicologismos: sou do perfil da adição, lembra-se?

De Chico mudou para Tim Maia, meio alegre. A cidade estava vazia, nenhuma alma na rua para encharcar os ossos. Pensei até em falar ao taxista sobre as noites difíceis de trabalhar varando a noite, transportando desconhecidos para lá e para cá, mas achei o silêncio meio benção involuntária. Daí é o telefone que escorrega pelos dedos, penso que poderia colocar no redial e dizer, olha, sabe?

Eu chego no fim, cantarolo. Bato no outro bolso, só para checar que a chave está ali e não ficaria tiritando na chuva, dormindo no hall do prédio como em outras noites de muito álcool e frustrações suficientes para o resto do mês. A música certa chega por telepatia enquanto o carro entra pela Amaral Gurgel, sob a horrenda sombra do Minhocão. Domingo vezenquando corríamos sobre ele, naquela atmosfera quase apocalíptica que tanto concreto vazio consegue produzir. Pensava no amor assim: urbano e estéril, indesejado. Tinha seu quê de poético, na verdade. Brincávamos com os apartamentos empobrecidos que viámos à mesma altura, sem muita crítica em pensar que minha casa não seria muito diferente mesmo distante poucas quadras dali.

"Na próxima encarnação, quero um amor-Higienópolis". E ríamos os dois. E ri, sozinho, baixinho, enquanto o carro entrava em minha rua.

Onde será que você está agora?
Numa destas noites quentes, conversava com um grande amigo enquanto subíamos de Higienópolis para mãe Augusta. Falávamos do ano bom que frutifica, das pequenas conquistas lentas que a vida adulta nos impõe. Começamos a falar de um conhecido, que nestas reuniões de fim-de-ano reclamava da vida que levava: ele queria ser um médico de sucesso, ter muitos amigos, ter muito dinheiro, um namorado perfeito. Queria para ontem. Queria, pelo direito inato de felicidade que deveria ser concedido a todos pelo simples fato de existirmos e da vida ser cão, a faculdade ser longa e torturante, a família aquele poço de desejos subentendidos.

Disse meu amigo, num conselho que ele achou clichê, mas quem se importa: nunca devemos tirar a felicidade que buscamos de dentro da gente. A felicidade não é algo que se projeta para fora e devemos perseguir. É algo que se constrói, em pequenas revoluções. Às vezes na velocidade dos continentes, com um bocado de dor inclusa no pacote. Com estes desvios, desvãos, atalhos imprevistos. Até entendo este estado de imobilidade que eventualmente nos encontramos e desenhar um futuro brilhante é um dos poucos prazeres que se pode ter. Entendo, mas acho nocivo.

Quem se perde em devaneios, perde a capacidade de manter o foco e se reinventar. Gostaria de ter dito a ele: seja feliz hoje. Quebre os pratos, puxe a toalha da mesa. Dois reais para o superego comprar bala na esquina. Sem perder a noção de onde se quer ir, mas resignado que estes estágios intermediários da vida existem e, já que existem, então vamos viver?

domingo, dezembro 18, 2011

Ontem sonhei com você e acordei num sobressalto. E naqueles cinco segundos antes de recobrar a consciência, exaurido numa quarta-feira destas semanas que se arrastam por dezenove dias, sorri de leve e com vagar pois havia sido sonho bom. E quando digo sonho bom, é sonho leve, familiar, destes que te abraçam mesmo quando há um turbilhão a volta. Era um sonho com carros, acho que o meu quebrara, encontrávamos na oficina e conversamos sobre coisas sem tempo: carinho e afetos cristalinos, sem aparas, de colocar na palma da mão e apertar suave. Daquelas doçuras suas que eram tão típicas, das minhas que às vezes também transbordam. Não consigo aqui reproduzir duas frases, mas digo com certeza: nada perigoso ou com margem para qualquer outra coisa que não fosse aquilo.

O sobressalto do sonho bom, na verdade, foi em perceber que há certos afetos que eu preciso aprender a aceitar.

"E, ao amanhã, a gente não diz"

*******

Ontem encontrei com você, de sobressalto. Enquanto subia a Frei Caneca você se esbarrou, pediu isqueiro mesmo sabendo que há tanto parei de fumar. Jogou-me tantas coisas, como lhe é de habitual. Palpitou tanto, como de costume. Disse do trabalho, do cansaço, da sua vida, da correria, disse tantas coisas que foram batendo no vazio, pois lá no fundo havia a vontade em dizer que não me importava, tão simples: não me importo contigo, nem com tua vida nem com teu cigarro, nem teu trabalho tampouco teu sucesso, se eu estava fumando demais o problema era tão e somente do meu interesse, pois não venha com simpatias ou protocolos de boas intenções, agora já foi e não importa, agora quero você tão longe que não me alcance com seus julgamentos, as opiniões despreocupadas.

Nada disse, como de habitual. Fiquei ali, mastigando minhas agressividades, até o discurso acabar.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Digo bobagens, apelo nos clichês. Carrego nas tintas, inverto as ordens. Recorto as pontas, colo ao meio e outras barbaridades. Mas, juro, juro mesmo: meu amor é de uma honestidade simples.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Não custa lembrar: amigo também se demite. Ou termina, vai cada um para um canto encabulado, desgostoso, com o direito automático a um cadinho de mágoa que envenena, mas também salva.

Tem gente que tratamos com amor. Tem gente que tratamos. E tem gente que, sinto muito, já foi. Não se aborreça, às vezes também nem entre muito em detalhes para evitar maiores desapontamentos. Respeite a cerquinha branca, fique ali do seu lado do pasto que é melhor. Relevo, compreendo, até poderia: mas, para falar bem a verdade, tem seu quê de terapêutico dizer uns eu-não-me-importo neste mundo edulcorados de curtições, favoritos e outras superficialidades que não levam a lugar algum.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Criei juízo e finquei meus dois pés no chão. Não consigo pensar noutras coisas que não sejam desejos imediatos e rasos. A beleza do dia-a-dia é diferente: sem muitos fios soltos para se ficar madrugada alheia puxando, amarrando, brincando com os dedos. Gosto da proposta de comercial de margarida. Gosto de pensar no cachorro que ainda quero ter. Clichê, piegas, novela-das-seis, sim. Talvez até pequeno-burguês, confesso. Tem sido assim.

sábado, outubro 22, 2011

Quando virei Caio F, sem querer

"A impressão que tenho é que nunca vai passar.
Que a cicatriz não fecha.
Que só de esbarrar, sangra.
Ainda me perco e só reencontro os velhos caminhos.
Mas (ou E), não vou. Nunca vou. Nem irei.

Porque o maior erro foi não sucumbir àquilo que considerava meu maior defeito..."

(março/2006)

Há alguns textos, mesmo aqueles bem antigos, que lembro bem como, onde e por que vieram. Este, acima, vinha encimado e arrematado por dois trechos de "Sem Ana Blues" do padrinho Caio F. Havia há pouco lido "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso" e fiquei com este conto na cabeça, acompanhando-me por um bom tempo.

Como agravante, naquela época, também havia um baita pé-na-bundismo por conta daqueles típicos amores que não foram e nem eram, mas, enfim, provocaram um grande arrebatamento. Aquele sentimento de imobilidade que se espalha quando tínhamos um bocado de boas intenções e elas tornaram-se inúteis antes de serem colocadas em prática.

Não é dos meus favoritos. Nunca foi. Não voltaria a ele se não fosse por um pequeno acaso que aconteceu: sua disseminação pelo mundo. Pois, vejam, em algum momento da história, ele passou a ser creditado a Caio Fernando Abreu. E, daí, repetido milhares de vezes sem a checagem da autoria, internet adentro. Se vocês buscarem o primeiro verso, "A impressão que tenho é que nunca vai passar", encontrarão quase 40 mil resultados (incluindo um ou dois vídeos no YouTube!).

Se por um lado é algo que me lisonjeia, incomoda-me ver algo que é meu assim, por aí, repetido mil-vezes sem crédito. Esse processo público que é escrever e inventar teve sua valia: mas, hoje, tenho questionado o valor em manter estes oito anos de arquivo para esta multidão de surrupiadores em potencial.

Tenho pensado seriamente em passar a tranca por aqui e jogar a chave fora.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Tenho escolhido as palavras para não cair na falsa ilusão da maturidade. Não vanglorio a calmaria como prêmio por tanto desencontro prévio, nem acho que este agora seja um tempo que outro não existirá. Estamos ainda em movimento e ainda se há tanto por trilhar. Não direi que venham porque este é o caminho correto; prefiro: venham, porque aqui há carinho e sinceridade. Venham, porque andar conosco é bom.

segunda-feira, setembro 26, 2011

Por tanto tempo cantei pelos cantos, quase em oração se acreditasse em deus: "eu quero a sorte do amor tranquilo". Achei. No entanto, só veio a paz quando o "sabor de fruta mordida" encheu a boca, correu pelas veias e tomou-me de assalto como nunca havia acontecido.

Acendo uma vela, caro Cazuza, pela graça alcançada.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Às vezes me pego contando histórias de mim para mim mesmo, e penso: que parece que foram há tanto, mas tanto, que só me pertencem porque consigo identificar um pouco delas no que sou de hoje.

Neste pouco, grande parte é um alívio em perceber que se não é mais. Outro pouco deste pouco, um orgulho em perceber: o mundo é vasto e as pernas são longas.

terça-feira, agosto 23, 2011

#1 - Quando nosso bar fecha as portas

Lembro-me bem da primeira vez que entrei, portas grandes e meia luz. Era quinta-feira, já havia bebido um tanto. Ao entrar, primeiro pensei em Nova York. Depois, senti o forte cheiro de carvalho que vinha do balcão, misturado com os destilados que ali se faziam e se derramavam pela superfície. Era pequeno: pouco mais de uma dezena de mesas, quase sempre casais sendo um destes caras de meia-idade, camisa de botão e cabelo para trás, às vezes escondendo, às vezes sublinhando os primeiros fios grisalhos, acompanhados por destas ninfetinhas jovens, vinte e poucos, decotes daqueles que insinuavam sem necessariamente se mostrar. Típico bar de coroa pra comer menininha, só que com classe. Por isso, talvez, predominasse a meia luz.

Daquela primeira vez, fui levado por minha hermana querida, esta cara que me pegava pelos dedos e me levava para as profundezas da cidade. Sentamos no balcão, eu e ela, para que eu visse o processo. Dry Martini, pedimos. Diziam que era a especialidade do bar. Depois fui descobrir que era o melhor da cidade e, por vezes, eleito o melhor drink da cidade dentre Cosmopolitans, Gin Tônicas e todos os outros coquetéis servidos nesta selva. Foi ali que entendi o segredo do bom Dry Martini: seco e gelado. A arte em se misturar o gelo com o gim e vermute, alterando a temperatura da bebida sem deixar que o gelo derretesse. Tão seco que, ao tomar o primeiro gole, o segundo gesto instintivo deveria ser procurar o primeiro gole d'água.

Não fui ao Dry mais que uma dezena de vezes: para ir, era necessária que a situação fosse deveras especial. Um dry martini já bastava para fazer que a noite se abrisse em uma aventura, num mergulho fundo, num tamborilar de dedos. Taquicardias. Sonhos refeitos. Contemplações lentas observando as circuvoluções translúcidas e lentas de dois líquidos com densidades diferentes, insistindo em se misturar. Coragens insensatas, proximamento de almas. Libertação, pura e simples.

terça-feira, agosto 09, 2011

Sempre fui de intensidades. Sempre me equilibrei entre minhas instabilidades, carregando a mão para o lado que estivesse perdendo. Destes que correm por algo, longe, descabelado, mesmo sem saber qual seria o benefício da linha cruzada. Sempre fui por ali, ainda que ninguém apontasse. Parece estranho o agora, esse devagar. Em desacelerar o passo e poder ir fundo, bem fundo, entendendo que aqui é confortável. Vejo coisas que nunca. Fecho os olhos e espero, neste lento aprendizado que é abrir os dedos e deixar que o vento chegue e todo, o resto, frutifique.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Perdoem-me. Acho que matei a poesia.

terça-feira, julho 19, 2011

Há certos dias que me lembro com tanta clareza. Este primeiro, por exemplo: lembro da insistência em permanecer invisível. E por isso, falava. Pelos cotovelos, baixarias, incertezas. Às vezes saia para fumar e ali, na solidão passageira, percebia o coração sobressaltado.

***

Ao voltar para casa cruzando uma Paulista deserta nestas madrugadas de segunda-feira, lembro-me da tristeza imensa em perceber que abria os dedos e deixava escorrer para longe, cantarolando qualquer coisa parecida com "Jonathan David" do Belle and Sebastian...

segunda-feira, junho 13, 2011

Para você que rifou o mundo por uma história de amor, não sei preocupe. Eu mesmo me apaixonei por três frases e sai fugido com o circo, cantando velhas cantigas de amor.

quarta-feira, junho 01, 2011

E a inspiração levantou-se e foi comprar cigarro, só que neste intervalo parei de fumar. Quase seis meses, faço as contas. Faço outras contas e percebo que o tempo, sim, anda célere e, ao mesmo tempo, escorre pelos dedos. O fato de hoje ser junho assusta, mas também parece tanto com um fevereiro já quase distante. Daí vou descobrindo estas coisas míudas: sonhos se constroem, muito embora quisera tanto que ele caisse, tipo Mega Sena acumulada, no colo. Fico naquelas, não quero pensar, e se não acontecer?

quinta-feira, abril 28, 2011

Passam-se os dias e tenho cada vez mais dificuldade em lidar com minha realidade inventada...

quarta-feira, abril 13, 2011

Contracorrente



Dessas coisas que acabam e ainda mantemos flutuando. Flanando. Gerando revoluções fúteis. Desdobrando em desejos hipotéticos. Alimentando comportamentos egoístas e histriônicos. Reforçando as histerias pessoais.

Insistindo e persistindo n'algo que não irá, não dará, não fará nada além de prorrogar este longo caminho que é a superação de uma grande dor.

Filme dolorido, tão dolorido, quanto há muito não via.

segunda-feira, março 28, 2011

Não é necessariamente uma desistência, pelo contrário. Acho que isso aqui ficaria no campo na insistência, ainda que sem fé.

segunda-feira, março 21, 2011

Chega o outono, suplantando aquele clima quase saárico que tornou nossa selva de pedra numa Benghazi, numa Dacca, numa Zanzibar qualquer. Percebo enquanto desço a nova rua, enquanto saio do novo emprego neste impróprio horário do depois-que-anoitece pensando que mereceria uma cerveja já que cigarro não fumo mais. A inspiração falta, mas a desinspiração é necessária: percebo que todos esses autores que gostamos todos são solitários e egoístas, reciclando frustrações e esmerilhando sentimentos pungentes para que nós, quase vampiros, deleitemos. Não, não quero ser assim: quero casa na praia & família de comercial de margarina. Quero só chegar em casa, tirar os sapatos, ser recebido por um daqueles cachorros bem lambentos. Quero que os abismos fiquem aqui a quatro portas. Quero ser feliz, assim, só.

segunda-feira, março 07, 2011

Queria ter a capacidade em dividir toda a felicidade do mundo com vocês. Só que penso, repenso, acho que fica ridículo e quieto-me. Com o melhor sorriso no rosto.

terça-feira, março 01, 2011

Rasteira

Gosto de pensar que chegamos ao ponto de dividir, telepaticamente, até um dia ruim.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Conjecturas

E daí vou te encontrar dia desses, talvez num outono, talvez naquele breve intervalo de tempo perto do entardecer que é quando a luz muda, certamente por acaso pois já nos desvencilhamos há tantos tempos, talvez sem rancor e sem alívio para talvez te dizer já que talvez os anos me deram este ar excessivamente mordaz: nosso amor não valeu nem a emenda de um soneto.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Deixar seguir

Deixar seguir, deixar fluir - nada há além de esperar que: o emprego encaixe, a vida siga, a rotina venha. Pela primeira vez, não há aquele objetivo divisado. Não há a faixa no final da Paulista para se atravessar depois de ter subido toda a Brigadeiro.
São essas coisas obtusas de feliz-para-sempre, intelectualmente desafiado, horários decentes, sem gastar tanta vida sufocado nas vias arteriais da cidade ou nos becos escuros. Quero bons amigos sempre perto, quero você todo dia para dividir os lençóis, a escala de quem levará o cachorro para passear, aquele último pensamento bom todo dia antes de afundar no sono.

Na ausência de prazos, na ansiedade em querer tudo para ontem, na incerteza em talvez saber que nem tudo o que se quer pode ser alcançado: tenho medo, mas nem falo. Nem tenho falado muito, tanto, só umas coisinhas banais e desimportantes...

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Piranhas

A felicidade é como uma gota de orvalho numa pétala de flor? Sim, Vininha, como não concordar? Também, direi: felicidade é como uma gota de sangue num tanque cheio de piranhas. Não foi uma nem duas vezes em que percebi, de soslaio, enquanto voltava àquele quadrado num dia tão ensolarado - daquelas coisas tão habituais de interior em se saber o que está se ocorrendo mesmo sem querer dividir. Quero dizer que aqui estou feliz, sim, não é preciso cartazes e manchetes, não preciso do uivo das multidões nem adentrar nestes concursos do mais brilhante ou, quem sabe, do que é mais certo, ou também, nem quero estabelecer contato com quem não sabe conjugar nossos verbos. Só queria tomar minha cerveja, aqui, como era antes, sem esse inquérito quase opressivo de dedos leves.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Adeus

Para você, que conheci primeiro nestes becos da vida - dezoito anos, imberbe e desconhecendo os perigos que haveriam. E depois, reecontrá-lo em tantas outras noites regadas com bom violão e boa cerveja, aprendendo o gesto lento em se pensar, tão silenciosamente, enquanto o resto fica a escorrer mundo afora.

Para você que me seguiu noutras madrugadas, destas solidões compartilhadas que insistentemente eu me obrigava a tentar. Na raridade dos nossos encontros, sentir aquele desfalecimento fugaz de poucos segundos, inundando as sinapses, que quase sempre me obrigada a encostar no muro procurando abrigo.

Por tantas vezes, meu único companheiro. Paciente, romantizado - tão belo quando ali, nos primeiros segundos, via queimar em brasa. Depois, pouco tempo, fumaça espessa para o alto em pequenas revoluções. Aprendi o jeito de se fumar sozinho, por vezes desesperado, outras vezes escapista e, por último, aquele por pura cafajestagem old-fashionable.

Consolou-me nas piores insônias, fez companhia naqueles minutos insonsos enquanto esperava um filme, seguindo um café, embalando tantas boemias selvagens que eu viria a descobrir depois. Deu-me a cara politicamente incorreta que me é tão peculiar. Conheceu meus amores, meus pecados, minhas idiossincrasias e embalou histórias tão boas.

Portanto, meu caro, te abandonar me deixa num luto imenso - e às vezes, quase todo dia, penso que sim. Como daqueles amores loucos que terminam, por assim, terminar e te jogam naquele ciclo da sede imensa. É assim que me vejo: um pobre louco apaixonado na sarjeta. Mas sei, e como sei: meu caro, não deveria ter me tirado todo o ar.

terça-feira, janeiro 11, 2011

O que é

Uma certa hermana pediu-me, em seguida, o contraponto para "O que não é". Com quase ano, tentarei deixar a dívida paga. Naquela época, estava preocupado em me afastar daquilo que não me cabia, sem me preocupar com o resto. As negativas são as primeiras coisas que aprendemos, desde a primeira infância. Mas, nada que dura é baseado tão somente em negativas. Da mesma forma que felicidade não é a ausência de sofrimento, as escolhas não se fazem só por eliminação.

O que é não tem fórmula, não tem descrição. A sutileza da primeira citação acertada, dos mundos subsequentes que são complementares, dos pensamentos que são adivinhados pela madrugada, os acordos estabelecidos tão silenciosamente, a paz em se estar tão simplesmente só, ali, pode ser terça-feira com o pior programa do mundo na tv, pode ser no bar mais soturno da Augusta, nos nossos vícios compartilhados, os pés dados quando nada está a acontecer.

E daí os dias fluem, as horas escorrem, quando vemos já é madrugada alta e a rotina morde os calcanhares, quem se importa? Afundo-me no seu corpo, perco-me nos teus dedos, vagueio compromissos protocolares para te rever numa escapolida e quando o voo atrasa fico pensando como é triste essa noite que perco sem vigiar o seu sono, coisa que companhia aérea nenhuma conseguirá pagar. A rotina cristaliza e me pego surpreendentemente tranquilo, vou pensando que em janeiro de 2012 deveria tirar férias e te levar prum paraíso tropical qualquer e que talvez trabalhar mais um pouco para comprar um apartamento maior e daí, como agora, por exemplo, o shuffle me joga "Eu te amo" do Chico, sempre Chico e me perco nestas coisas boas e bobas, pequenas epifanias, de todas as rosas que ainda vou te dar.

Porque não basta só gostar de Chico, é preciso ter a mesma pontuação quando escreve, sem nunca ter lido nada que já escrevi. Porque não basta só fumar, é preciso se arrebentar de alegria ao acendê-lo com um Zippo. Porque não basta só a inteligência, também saber se divertir com a cultura rasa, as manchetes que espirram sangue do nosso pasquim favorito. Não vale tão somente o humor, é preciso saber criar a fábula da máfia siciliana que executa lavagem de dinheiro em algum lugar do Paraíso ou dos nossos planos de Bonnie e Clyde de assaltar um cassino em Punta del Leste enquanto atravessamos o Brasil num veículo conversível. E essa capacidade de tirar coelhos da cartola, de ordenar o caos numa forma palatável, na segurança em se estar, de me roubar um sorriso quando o mundo está desabando e de satisfazer todas minhas histerias pequeno-burgesas com um quase nada além dos olhos postos, adulando-me com um cafuné ou uma Heineken, reconhecendo todas minhas inflexões vocais.

E de tanto negar, tanto fugir e tanto adivinhar o próximo passo, agora veio: é. Sem receita, sem postulado lógico: é. Sem precisar apelar para o indivisível, sem qualquer tipo de omissão para se parecer algo melhor do que se verdadeiramente é. Do que ocupa sem derrubar paredes, do que invade batendo na porta e pedindo licença, do que se tem e agora, sem remédio, não concebo existir sem.

Não há explicação nem jeito: o que é, é.

terça-feira, janeiro 04, 2011

Pois é

Sim, eu entendo. E também não te culpo, quer dizer, tenho a clareza em não dividir a história em mocinhos e bandidos. Passei da fase do maniqueísmo gratuito, sabe? No final das contas, cada um agiu movido tão somente pelo caminho que considerava menos indolor para si mesmo e que o resto se encaixasse depois. Fica cada um em seu canto, com seus sonhos, as suas idiossincrasias e trazendo para bem perto aquilo que vale a pena. Ficamos com o gosto amargo na boca que nunca admitiremos que existe: diremos nos bares, cada um no seu, com uma soberba característica - dos desvãos, dos desvios, as incapacidades. Diremos e repetiremos a mesma história distorcida para nos fazermos de heróis neste mundo cão cheio de gentes que não se importam e não tem sensibilidade para com o próximo. Até que a história nem doa mais, nossa história nem vibre mais, fiquemos por aí daquele jeito que poderia ser tanto e não foi por inabilidade sua, minha, dos outros.

Por hoje, te dou a benção da mágoa sem te culpar por isso. Eu, permaneço firme com a felicidade que escolhi para mim.