quinta-feira, novembro 11, 2010

Para você que também sou eu

"It's hard to stay mad, when there's so much beauty in the world"

Todas as vezes que estou assim, digamos, "feeling sinister", sempre lembro daquela sacola de mercado voando no céu. Eu, você, talvez, tenhamos só um pouco mais de clareza do funcionamento das engrenagens. Não que isto signifique, necessariamente, que somos pessoas mais espertas. É daquela lucidez que nos é imposta em todas as noites que não dormimos, em todos os desapegos que somos obrigados a enfrentar cotidianamente. Da nossa imensa fragilidade e do milagre que é estar funcionando, com as baterias azeitadas, neste todo dia. Mesmo que estes cigarros que tragamos tão distraidamente são aquela bala a mais no tambor do revólver, nossas aventuras alcóolicas para liberar a mente também não são inócuas. Também sei que a felicidade é um intervalo entre duas tristezas, as pessoas tem a capacidade de serem cruéis e tudo mais poderia ser bem mais fácil.

Só não deixo que a beleza escape. Ainda que seja daquele exercício heroico em se bancar a Pollyanna quando se acorda. Ainda que não nos mereçam, ainda que o mal estar da civilização seja um convite pra se ficar dentro de casa bem acompanhado de tantos Buarques e Bethânias e Kunderas e Cortázares e tantos outros vivos & mortos que nos fazem tão bem e, mesmo quando machucam, tem seu carinho narcisista. Por exemplo, ainda que seja minha décima oitava hora acordado, não vou deixar de sorrir quando vejo aquela velhinha de vestido xadrez ou, rumando para aquele Iraque, lasco um "Honey Honey Honey" do ABBA só para me distrair deste trânsito maldito que nos engole.

Quero dizer que se há porque seguir seguindo e às vezes, só este fato, já deveria bastar. Se pudesse, colocaria-me na sacada, toalha na cabeça, enquanto você, surpresa, deixaria a máquina de escrever e olharia pela janela. Veria que eu tocaria violão, entretido com o ato e ali pela metade da música cantaria qualquer coisa assim: "there's such a lot of world to see, we're after the same rainbow's end". Mesmo que coisas assim não mudem o mundo nem façam girar os parafusos da existência, são destas pequenas alegrias proporcionadas que me guiam quando tudo ganha uns ares de estranhamento.

Não há como negar a vastidão do mundo, não há como não perceber sua beleza sutil. E, ao dizer tudo isso, percebo que digo com a pouca fé que tenho. Recuso-me a acreditar que nossos passos darão em destinos insolúveis. Por isso, só por isso, rendo-me ao meu otimismo diário e despropositado. E, em caso de emergência, até deixo você imaginar que sei tocar violão, tenho voz doce quando canto e respiro breve antes de engrenar o primeiro Moonriver da canção...

"And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can't feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life..."
(American Beauty)

Um comentário:

thais saccardi disse...

para você que eu amo.