terça-feira, novembro 30, 2010

Aprendi com a madrugada

(para Maria Anita Silva Leite)

Também aprendi com a madrugada. Acho que tudo de útil que aprendi foi na calada da noite, enquanto quase todos dormiam. Aprendi, nestas noites e noites que se repetiam, como meus passos podem soar torpes ao bater do elevador, entre o movimento de escolher o andar correto e o tilintar das chaves que saem do bolso.

Aprendi a beber ferozmente, mesmo que o dia seguinte fosse de escravidão branca. Aprendi a me sentir seguro, sob as luzes estroboscópicas, com minha solitária cerveja na mão. Aprendi o gesto lento de se acender o cigarro na janela e tragar fundo, soprando a fumaça para longe enquanto ali embaixo ninguém passaria. Aprendi a alimentar meus vícios e virtudes.

Aprendi com a madrugada sobre as solidões e os encontros. Construi vários universos por referências pontuais que apareciam, para ruir logo quando a manhã chegasse. Aprendi sobre a fugacidade das coisas, a capacidade de se ferir tocando, a fé de se insistir mesmo sem ter esperança alguma. Descobri a clareza em prosseguir sem caminho algum, só mesmo para manter os pés se guiando para algum lugar.

Aprendi a respeitar o tempo, ainda que ele flua na velocidade dos continentes. Respeitá-lo: os fatalismos, os descaminhos, as vertigens. Como cada segundo pesa quando a insônia chega mordendo os calcanhares. Aprendi a ficar palpitando na sarjeta na expectativa do algo vir. Também, a alegria do inesperado quando se queria tão somente destas coisas rasas e diminutas. A taquicardia de querer que os ponteiros corressem com vagar, sabendo que a madrugada tem dessas coisas vampirescas de sumirem com a luz do dia.

Aprendi um jeito de ser patético, mesmo sem querer. Aprendi o jeito de perder, mesmo sem pedir. E também aprendi sobre salvação, da alegria involuntária que se compartilha e sobe, meio balão, meio que brilha, meio que nos livrando destas nossas preocupações mundanas de empregos ou livros de ponto. Aprendi com a madrugada uma porção de coisas que se esvaem quando durmo e sei que permanecem por aqui, inconscientente, fazendo-me melhor. Aprendi com a madrugada a regular os passos, acertar a voz, encontrar tudo aquilo que mereço para seguir pelos dias e noites com a sobriedade necessária.

Aprendi com a madrugada coisas doces, duras, simples. Aprendi a conhecer meus demônios e a exata maneira de colocá-los de volta ao armário...

2 comentários:

rafael roncato disse...

epifania! Sem mais.

Milady Oliveira disse...

Quem é você?