terça-feira, outubro 26, 2010

#10 B&S If You're Feeling Sinister (idem)

He'll try in vain to take away the pain of being a hopeless unbeliever

E lá do alto daquele prédio imenso, dava para ver que as nuvens engolfavam os edifícios de Perdizes, descendo a Bela Vista, pras bandas do Parque do Ibirapuera. Quando sai, já era noite incipiente apesar do horário de verão. Gosto de voltar à pé, quando posso, porque gosto de andar em São Paulo ao fim do dia. E, assim, vim descendo a Doutor Arnaldo com a garoa gelada batendo na cara, fitando o cemitério do Araçá do outro lado. Penso em Caio F. sem querer, quando estaria ali, numa janelinha do Emílio Ribas, talvez com os dedos, a alma, tudo dolorido demais para escrever aquelas tão difíceis Cartas Para Além dos Muros. Logo passo a ponte por sobre uma Rebouças sufocada pelas luzes e gentes que vão e vem, ganho a alameda Santos e o convidativo clima que os Jardins tem desta coisa nem tão urbana assim. Aperto o passo, aperta a chuva, quebro na Haddock pensando nos textos que Guiu escrevia sobre apartamentos de janelas imensas, destes amores de comercial de margarina que nunca saberemos se chegará. Passam pessoas de terno, muitas, passam pessoas comuns, passam mendigos decrépitos. Peço um cigarro a um desconhecido, o meu acabou. Os dedos tamborilam nesta ansiedade de estar sem algo por entre eles, ainda mais nestas noites que principiam geladas. Ganho, com sorriso. Sorrio, grato e continuo. Ganho a Paulista naquele caos já anunciado da hora do rush e pelo Conjunto Nacional até poderia tomar um café, perder a hora fitando aquele dragão voador imenso preso no céu. Só que estou cansado, quero banho e cama, queria virar a chave quando chegar e, quando aproximasse para girá-la, ouvir o barulho da panela de pressão e encontrar a casa toda alinhada, talvez até um vaso de flores sobre a mesa. Já que não, agora vou mastigando para qual fast-food ligaria, quem sabe China in Box, já que hoje você não chegaria com um Big Mac de surpresa e o sorriso mais lindo no rosto. Agora escolho qual semáforo fechará para cruzar o outro lado e pela Frei Caneca me lembro daquele dia em que bateram no meu carro, de uma doçura difícil e inesperada. Porém, tem coisa melhor do que essas coisas que nos exasperam nestes dias de dificuldades inaparentes? Até penso que poderia ir à Mostra, o cansaço grita, mantenho o rumo. Passos decididos seguem pelo turbilhão de gentes, tantas, penso que poderia sorrir de novo. Gratuitamente, assim. Jogo o cigarro em brasa na sarjeta fazendo a matemática da semana: sextas, como poderia tê-las! Não tenho, não posso, resigno-me. A chuva, nesta hora, nem gela mais. Ao MASP desvio o caminho, passo por baixo, até o vão. Lembro-me daquele dia em que estive ali pensando que este vale poderia ser minha casa. E, ali, sorriria de novo. Inesperado, como destes primeiros ipês que se arrebentam colorindo os caminhos. Se pensasse muito, quem sabe, até uma Heineken se materializaria em minhas mãos nesta noite que principiava discretamente melancólica. Fechei os olhos, ela não veio. Mesmo assim, quando abri os olhos, ainda continuava sorrindo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Nosssssa rapaz! Acho q vamos cruzar um dia destes mesmo!! (só que acho q vc é não deve ser tão vespertino...) fico fazendo essas caminhadas paulista-pinheiros o tempo inteiro!! cineminha-casa-casa-cineminha, quando canso da passarela depois do Emilio, e por variar, as vezes pego do outro lado da drarnaldo, ali depois passando na frente do Sal (sempre recomendo), e de aqueles ferros coloridos, fico tentado pela Angelica (desço prum caribe qualquer no Fran's) e lembro daquele doidinho do Zé, depois gosto de passar por aquele tunelzinho por baixo da exreboucas (sentir q tou numa imaginaria galeria de decadentes vendedores de velharias sob o Sena) e ai já tou na frente do belasartes: dobrar a esquina e já me sinto na minha segunda casa: essa paulista que não me cansa, que não me cansa por mais que eu tento!!!
Hugs!