quinta-feira, outubro 28, 2010

#11 B&S Lazy Line Painter Jane (idem)

You are sleeping at bus stops
Wondering how you got your name
And what you're going to do about it


Amarelo, uma vez você me disse. Discutíamos sobre cores e humores: estava azul, segundo eu. Azul desses marinhos, profundos e marítimos, naquela placidez que existe entre as tempestades. Você sorriu, jogou os cabelos castanho-claros para trás e discordou, educadamente. Eu seria amarelo, pelo contrário. Amarelo tranquilo-energia, que vibra, brilhando sem precisar forçar. Conversávamos sobre isso e quase todas as coisas do mundo. Falávamos sobre praia & sol e te trouxe dos trópicos um daqueles cacos de vidro que ficam rolando na areia e, por isso, não ferem quando se aperta forte. Escrevíamos muito, cartas e crônicas, telegrafias dos nossos cotidianos enfadonhos num momento que minha vida tendia a uma imobilidade constrangedora.

Esquivava, sempre. Media palavras, tergiversava intenções. Desviava o olhar quando percebia seu olhar sedento, o convite para se sentar mais perto. O fato que perto de você eu brilhava leve, sentindo-me bonito. Havíamos nos beijado no primeiro encontro, para eu desaparecer logo em seguida. Você me encontrou, me seguiu, leu meus escritos, nunca se importou com minha natureza pretensamente melancólica e evasiva. Paciente, tentou me prender numa teia lenta de compreensão e cuidado.

Linda, como você era linda. Vinícius te cantaria no Samba da Benção: havia qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora. Havia a presença de uma mulher decidida, que sabia a doçura de se colocar eventualmente frágil. Iluminada, até pelo nome.

Pelo cansaço, você foi vencida. Eu não me movia, não ia, não poderia. Já sabia de antemão que não poderia dar toda felicidade que merecia. E hoje, enquanto fazia o caminho de casa, veio aquele estranhamento em pensar que poderíamos ser noivos, nossos filhos seriam lindos e altos, talvez loiros. Teríamos bossas e noites altas para curtir até o fim dos tempos. E não que isto seja uma frustração: as coisas são como são e este exercício de possibilidades, confesso, não tem a intenção de chegar a lugar nenhum a não ser contemplar uma beleza que existia.

Você foi a única e a última mulher que amei.

terça-feira, outubro 26, 2010

#10 B&S If You're Feeling Sinister (idem)

He'll try in vain to take away the pain of being a hopeless unbeliever

E lá do alto daquele prédio imenso, dava para ver que as nuvens engolfavam os edifícios de Perdizes, descendo a Bela Vista, pras bandas do Parque do Ibirapuera. Quando sai, já era noite incipiente apesar do horário de verão. Gosto de voltar à pé, quando posso, porque gosto de andar em São Paulo ao fim do dia. E, assim, vim descendo a Doutor Arnaldo com a garoa gelada batendo na cara, fitando o cemitério do Araçá do outro lado. Penso em Caio F. sem querer, quando estaria ali, numa janelinha do Emílio Ribas, talvez com os dedos, a alma, tudo dolorido demais para escrever aquelas tão difíceis Cartas Para Além dos Muros. Logo passo a ponte por sobre uma Rebouças sufocada pelas luzes e gentes que vão e vem, ganho a alameda Santos e o convidativo clima que os Jardins tem desta coisa nem tão urbana assim. Aperto o passo, aperta a chuva, quebro na Haddock pensando nos textos que Guiu escrevia sobre apartamentos de janelas imensas, destes amores de comercial de margarina que nunca saberemos se chegará. Passam pessoas de terno, muitas, passam pessoas comuns, passam mendigos decrépitos. Peço um cigarro a um desconhecido, o meu acabou. Os dedos tamborilam nesta ansiedade de estar sem algo por entre eles, ainda mais nestas noites que principiam geladas. Ganho, com sorriso. Sorrio, grato e continuo. Ganho a Paulista naquele caos já anunciado da hora do rush e pelo Conjunto Nacional até poderia tomar um café, perder a hora fitando aquele dragão voador imenso preso no céu. Só que estou cansado, quero banho e cama, queria virar a chave quando chegar e, quando aproximasse para girá-la, ouvir o barulho da panela de pressão e encontrar a casa toda alinhada, talvez até um vaso de flores sobre a mesa. Já que não, agora vou mastigando para qual fast-food ligaria, quem sabe China in Box, já que hoje você não chegaria com um Big Mac de surpresa e o sorriso mais lindo no rosto. Agora escolho qual semáforo fechará para cruzar o outro lado e pela Frei Caneca me lembro daquele dia em que bateram no meu carro, de uma doçura difícil e inesperada. Porém, tem coisa melhor do que essas coisas que nos exasperam nestes dias de dificuldades inaparentes? Até penso que poderia ir à Mostra, o cansaço grita, mantenho o rumo. Passos decididos seguem pelo turbilhão de gentes, tantas, penso que poderia sorrir de novo. Gratuitamente, assim. Jogo o cigarro em brasa na sarjeta fazendo a matemática da semana: sextas, como poderia tê-las! Não tenho, não posso, resigno-me. A chuva, nesta hora, nem gela mais. Ao MASP desvio o caminho, passo por baixo, até o vão. Lembro-me daquele dia em que estive ali pensando que este vale poderia ser minha casa. E, ali, sorriria de novo. Inesperado, como destes primeiros ipês que se arrebentam colorindo os caminhos. Se pensasse muito, quem sabe, até uma Heineken se materializaria em minhas mãos nesta noite que principiava discretamente melancólica. Fechei os olhos, ela não veio. Mesmo assim, quando abri os olhos, ainda continuava sorrindo.

sexta-feira, outubro 22, 2010

#9 B&S The Wrong Girl (Fold Your Hands Child...)

I'm not what I could be, I need a true love
I went looking and I found one


E tive a sorte do amor tranquilo, depois de tanto pedir. De tanto rezar, quase prece íntima, naquele desejo pequeno-burgês de se querer algo por pura necessidade de algo mais para balizar os dias. Lembro-me: era bom. Gostava destes dias e noites sem atropelos, da paz estabelecida por um acordo silencioso que criamos. Nada havia ali além de um carinho imenso, seu carro na minha garagem, nossas vidas emboladas. Depois de uma centena de dias nesta atmosfera boa de bem-querer, algo desandou. E desandou também silenciosamente, pelas frestas, pelos artigos não contemplados em nossos papéis.

Já quis tanta coisa melhor com tanta gente pior, sabia? Já amei sem me merecerem, já me apaixonei pelo reflexo que vi nos meus espelhos, alimentados por estas madrugadas altas que costumo me enfiar. De você, só tive o melhor. Nunca irresponsabilidades, nunca egoísmos, nunca nada além de uma atenção preocupada e a vontade em ocupar todos os espaços, cada pedaço desta coisa confusa que navego diariamente.

Direi isso na lógica simplista de quem sabe que o amor não é matemática: não era. E o que não é, não é. E ter clareza não signifique que não doa. Doeu, não dói mais. Entendo a necessidade do movimento e da queda vertinosa diária que precisamos para manter os dedos dados. Em determinado momento, não havia mais - sem que houvesse aquela cena para ser refeita e tresfeita, para se ficar mastigando-a pelo resto dos dias. E, talvez, este seja o fato mais triste: dessas coisas que foram se solapando sem perceber e, quando se viu, só havia sobrado aquele sentimento constrangedor de ser tão amado, mesmo que não merecesse.

terça-feira, outubro 19, 2010

#8 B&S I'm a Cuckoo (Dear Catastrophe Waitress)

But I'm a little lost sheep
I need my Bo peep
I know I need my shepherd here tonight


Nunca tive muitos problemas com a minha distimia crônica. Até acho que as minhas melancolias pregressas tiveram seu que de impulso para algum lugar melhor, seja lá quão estranho isto possa parecer. O fato é que sempre achei a felicidade muito mais constrangedora. Daquelas que descabelam, daquelas que são plenas, daquelas que te deixam com um sorriso imenso no rosto sem motivo. Principalmente quando vem em sobressalto, arrebatam só com uma nota e me deixam ali, carregado de toda uma coisa que não sei direito como dividir.

Quando tomado por uma grande alegria, tento me moderar. Falar baixo, baixinho, pensar qualquer coisa burocrática e deixá-la em algum lugar perto e morno, distante do frenesi cotidiano. Gosto de me enamorar com ela, assim, devagar, acariciando com a ponta dos dedos até a madrugada alta.

segunda-feira, outubro 18, 2010

#7 B&S The Boy With The Arab Strap (Idem)

Colour my life with the chaos of trouble

Foi ali, foi assim que decidi abrir meus braços e, tão simples, me entregar.

quarta-feira, outubro 13, 2010

#6 B&S Is It Wicked Not To Care (The Boy With The Arab Strap)

I know the truth awaits me
But still I hesitate because of fear?


Por mais que sempre tenha acreditado muito em Cazuza, principalmente quando ele canta que "mentiras sinceras me interessam", é a Verdade que me encanta. Talvez isso seja o resquício de minha parca educação católica nos meus seis anos de idade, na crença que ela nos libertaria, independente da dimensão do pecado.

Quando falo em pecado, não que seja daqueles capitais bem óbvios. Digo, sim, do descompasso que havia em se viver algo por comodidade, mesmo sabendo que queria se estar em outro lugar, de outra forma. Na velocidade dos continentes, fui percebendo que não havia muita escolha além. O certo exige certos atos, certas pirotecnias. Exigiria um desapego em colocar em risco todo o conforto daquela rotina que se leva por levar, para colocá-la numa rota estranha sem precisar o que viria.

Nada aconteceu de súbito. Nada se resolveu com um discurso bonito e bem intencionado. Lembro-me das pequenas ações, encadeando pequenos desvios de curso. As mudanças aconteceram lentas e sem muita violência. Quando os rojões estouraram, consegui fingir uma pretensa segurança nos atos, alegando a irreversibilidade dos fatos. Toda a dor foi vindo homeopaticamente, sem provocar necessidades de gás de madrugada ou quedas do décimo primeiro andar dos edifícios.

Hoje, quando vejo que está tudo bem e desenvolvendo em velocidade de cruzeiro, pouco me lembro daqueles dias de dificuldades difusas em se decidir pelo duvidoso, por não aceitar a vida que me cabiam. Hesitava, sim, porque eu tinha medo.

Agora, não tenho mais. Aliás, tenho. E quando tenho, sem muitas hesitações, sempre sei da benção que há em ter agido em benefício próprio, respeitando os próprios limites. Sei, sim, a verdade liberta. Ainda que pese, ainda que nos obrigue a certos atropelos. Mesmo assim, ah sim, liberta.

segunda-feira, outubro 11, 2010

#5 B&S Jonathan David (Jonathan David)

Visions of love recollected
Have we ever been true?


Como se houvesse entrado no jogo para perder. Vejam bem: quando digo entrar no jogo, não que tenha sido um ato consciente. Foi desses atos inconscientes, movido pela energia de quem vê a Beleza e, ah, a Beleza é irresistível. E daí, mesmo que seja para ficar sangrando pelas sarjetas tão tonto de amor não dado, sabia a validade do movimento. Pela taquicardia que é provocada, pela energia que flui dentro da esfera dos planos mais puros e bem-intencionados. Quando assumi que gostava de você, mesmo jogando contra todas as estatísticas, veio também toda fragilidade provocada pelo ato de gostar de você e, também, reinventar todos os meus cenários para que eu me tornasse novamente bonito mesmo dentro de toda a confusão instalada. Desta vez, apresentar-me mesmo que ainda um tanto inconstante e problemático, ainda um tanto confuso por toda bagagem que carregava. Por você, medrosamente joguei o I Ching procurando uma resposta afirmativa, como se encarregasse aos céus os descaminhos dos nossos passos. Sabia, como sabia, iria perder. Ficaria com o buraquinho do quarto, como se estivéssemos naquele clip de "I'll follow you into the dark" e, depois que a história encaminhasse para o destino já estabelecido, lidasse com o estalo de algo que acende o pavio e, depois, tivesse que assistir o movimento da chama que desabaria todas as estruturas e me deixaria com o benefício duvidoso do quarto todo aceso e preenchido de ausências. Adiantaria te dizer quanto esperei por algo assim? Adiantaria desenhar a sua condição ímpar e a minha sede por cantar um verso e ser compreendido, tão só? Pois então, mesmo assim, ainda que: insistiria, sem fé alguma.

quinta-feira, outubro 07, 2010

#4 B&S Big John Shaft (Storytelling)

"I need to talk to someone
I've been living someone else's life"


No sobrado imenso que alugamos na minha primeira (e única) república, haviam cinco quartos: duas suítes no andar de cima (capazes de abrigar um exército), um quarto todo encarpetado, um quarto no andar de baixo e o último, meio que de empregada, no quintal. Éramos, inicialmente, em cinco. E na partilha, por escolha própria, acabei ficando com o quarto dos fundos.

Gostava do meu quarto nos fundos pelo seu aparente isolamento. Era a primeira vez que tinha um espaço para chamar, por assim dizer, de meu. Gostava de poder escutar música alta sem incomodar ninguém, de passar até tarde da noite lendo sem que me perguntassem o que era, poder dormir a hora que quisesse independente do que acontecia dentro de casa.

Não que desgostasse da bagunça ou das companhias, não é isso. Precisava desse exercício inicial de testar os meus passos, pois havia uma sede imensa de trilhar um caminho que ninguém teria escolhido para mim. Naquele quarto meio mofado, comecei o aprendizado de conviver comigo mesmo, minhas alegrias ridículas, soltar os demônios particulares para passear.

Gostava de escutar o Storytelling - talvez, o cd menos escutado do Belle - mesmo que fosse só para deixar os instrumentais rolando, enquanto em qualquer lugar da casa Jorge & Mateus ocupava o ambiente. E naqueles sábados quando todos viajavam, ou namoravam, ou tomavam drogas, ou seja lá o que faziam: não sobrava ninguém para ver "Senhora do Destino", ou Ratinho, dessas coisas assim. Daí pegava meu cobertor, ocupava a sala de tv e ficava solitariamente vendo Saturday Night Live até o sono chegar. E, poxa, como adorava a sensação que isso me provocava.

quarta-feira, outubro 06, 2010

#3 B&S Piazza, New York Catcher (Dear Catastrophe Waitress)

"How many nights of talking in hotel rooms can you take?
How many nights of limping round on pagan holidays?
Oh, elope with me in private and we'll set something ablaze
A trail for the devil to erase"


Meu gostar de Belle and Sebastian sempre teve um quê de obscuro. Digo isso quando percebi, ali pela quinta vez, que ao me perguntarem qual era minha banda predileta e eu dizia Belle and Sebastian só recebia um humm de resposta. Quase sempre, em seguida, aquelas série de perguntas do tipo toca o que, toca na rádio, porque diabos você escuta uma banda que ninguém conhece?

Daí, nem dizia mais. Quando perguntavam, respondia Radiohead, Coldplay, Oasis, qualquer coisa assim mais palatável. Minha banda predileta tornou-se, de certa forma, clandestina.

Quando soube que em Juno haviam DUAS músicas do B&S, meu sorriso foi automático. Lógico que também gostei do filme em si, afinal de contas, Juno é arrebatador. Mas, vejam bem, gostaria do filme mesmo se não tivesse visto. Gostaria porque sabia que alguém ali também dividia o mesmo segredo, na mesma cumplicidade.

Meu gostar sempre foi referenciado. Minha primeira impressão sobre alguém sempre gira nas bandas favoritas, nos filmes que marcaram, nos livros que moram na cabeceira. Se Belle aparece na primeira conversa, não há como não passar ileso. Se também você foi tocado pelo dilema de Céline & Jesse, também ama Nara Leão, se Caio Fernando atravessa os dias soturnos, as doçuras agridoces de Manuel Bandeira: não há como não sorrir e, quem sabe, permanecer ali na esfera boa de bem querer quase que automática.

Meus melhores amigos fiz assim: assoviando "Don't worry be happy" nos corredores gelados da anatomia, discutindo Drummond num estado lastimável debaixo da pia, revendo Miguel Torga numa noite alta, bilhetinho de top 10 filmes num guardanapo de boteco. Acredito que seu reflexo é aquilo que lê, que escuta, que assiste. Se a forma que você se apresenta me atrai, trago para dentro da minha vida, abro as janelas, as portas, deixo a chave na portaria e mando pegar uma cerveja na geladeira.

Não que esse meu modus operandi não leve a descaminhos, bote-me em confusões. Quase nunca me arrependo, pois sempre vale a fagulha de beleza. Se você me diz que gosta de Belle, na facilidade de um primeiro encontro, ah... É impossível não se entregar.

terça-feira, outubro 05, 2010

#2 B&S - Electronic Renaissance (Tigermilk)

"If you work for much very longer
You'll be known as the boy who's always working
If you dance for much very longer
You'll be known as the boy who's always dancing"


Perdida como faixa 5 do Tigermilk, Electronic Renaissance provoca debates acalorados entre fãs do Belle and Sebastian. Numa pegada anos 80 experimental, destoa completamente do resto do disco, que é meio folk-fofo-tristinho. É uma música de ame ou odeie.

Passei várias noites ébrias com @leobarba discutindo o mérito dela. Pois bem, se ela fosse aquela última faixa, se fosse um bônus ou se até integrasse um EP, tudo bem. Mas ela está ali, bem no meio, que obriga a quem desagrada a trocar de faixa conscientemente.

Gosto dela, como gostam da blueberry pie: talvez goste, justamente, pelo fato dela ser preterida por quase todos. Mesmo ali, toda estranha dentro da proposta do disco. Mesmo com os vocais estranhos e uma pegada diferente de todo o contexto. Gosto dela, só pelo fato que não deveria. Ainda que ela não valha um clip e que ninguém a peça no show que virá.

Por ser única, ainda que pelas vias tortas, sempre me arranca um sorriso ao escutá-la.

segunda-feira, outubro 04, 2010

#1 B&S - My Wandering Days Are Over (Tigermilk)

"You know my wandering days are over
Does that mean that I'm getting boring?
You tell me"


O que sobra, então, é a necessidade de pisar no real. Não que eu não me permita, eventualmente, ter meus delírios pessoais quando chego, ali às seis da tarde, com o corpo implorando por um pouco de doçura. Não rifei todas minhas ilusões sem deixar as mais ternas e caras no bolso.

A diferença é que, quando escutava esta música nos primórdios da década passada, parecia que as coisas haviam evoluido prum esgotamento irreversível. Havíamos tentado tanto, batido tanto, prometeram-nos mundos e fundos para que nos finalmente ficássemos só arfando pela lufada que nunca viria.

Inbetween days, aqueles. De cartas imensas e esperançosas pelo o que havia por vir. Não vinha, nunca vinha. Não daquela forma. Nunca aquela epifania redentora que nos içaria do morno & banal para aquilo que nem tinha cara nem rosto, era só um conceito de talvez melhor e pleno.

O que descobriríamos é que a salvação não se persegue. Ela viria, sorrateira, ao nosso encalço. Morderia os calcanhares, botaria-nos loucos pela madrugada adentro até quando, vejam, estivéssemos pagando nossas contas, tocando nossas vidas num desassossego ligeiramente saudável.

Não que aqueles dias errantes tenham terminado. Só desejamos uma cerveja no conforto do sofá, onde antes havia aquele ímpeto em comprar a primeira passagem ao Taiti.

domingo, outubro 03, 2010

Heineken

Desço na Paulista, estranhamente deserta e gelada. E se a Dilma não levou de primeira, se o ano se arrasta sem final: quem liga? O que me fascina é destas conclusões da madrugada alta: melhor que Heineken, sem dúvida alguma.

Pois é

Naquele movimento lento de, lá do alto, abrir os braços até a linha do ombro e, para então, deixar que os dedos se abrissem deixando que todo o vento escapassem por eles, eu sabia e não havia notado: não há impunidade no ato. Ainda que fosse sem premeditação, ainda que fosse o correto, mesmo que hoje não me arrependa de uma fagulha sequer. Quando as mãos espalmadas e frouxas subiram, também houve o movimento de se deixar escorregar por ali. E, ao cair daquela altura, perder-se algo bonito na vastidão da noite, ao sabor do vento dos quarenta metros de altura.

E ao coração que teima em bater, avisa que é de se entregar o viver. Avisa que é de se entregar o viver.