domingo, setembro 19, 2010

Carta oceânica

Cara amiga,

Bem sabes que tenho doutorado nestes amores que consideramos abissais. Pois bem, sempre fui um tanto sensível a estes amores que chegam, destroem avenidas e partem: além oceano, no Cerrado, no Paraná. Dos platonismos que construímos, há sempre o sentimento bom do que aconteceu, ali na palma de nossas mãos. Eles são necessariamente intensos e especiais, com aqueles toques de literatura russa ou viagens espetaculares e, quando nos vemos ao final da noite, estamos completamente vendidos.

E, então, eles partem.

Na nossa sede, nesse deserto de pessoas que conseguem verdadeiramente nos ler, ficamos. Dedos tamborilando a esperar que os carteiros do Brasil entreguem nossas cartas com a doçura necessária, ocupando o vazio da nossa rotina de pequenas possibilidades brilhantes que seriam, que poderiam, na beleza do vir-a-ser.

Na vagareza dos correios, vamos preechendo as lacunas com nossas próprias palavras. Coisas que eles poderiam dizer, lugares que poderíamos ir e, daí, o amor se contrói do culto àquela imagem de Sebastião que voltará um dia, sabe lá quando, sabe lá como.

O platonismo é uma existência egoísta: pega-se o objeto amado e ele se ergue do nosso suor e sangue, das nossas fragilidades e expectativas. Ainda que seja um exercício bonito, ainda que eles nos acalentem nestas noites frias quase sem perspectiva nenhuma: é vazio, pois se inicia e termina em nós mesmos. Porque, em determinado ponto, temos tanto medo de perverter a sua memória que perdemos a atenção difusa com o mundo, a capacidade em se andar distraído pela rua. Cria-se um gold standart fantasioso e inatingível, nosso mecanismo mais ardiloso de auto-sabotagem. E daí, como ninguém consegue chegar a nossa porta, permanecemos enternecidos pelas lembranças, zonzos de amor não dado.

Confesso que só consegui ser feliz quando me desfiz desses platonismos, um a um. Optei por pisar no real, pelo pânico em se estar ou não se estar junto numa terça-feira nublada. Quando o último se foi, nas águas dos mares de janeiro, doloroso foi pensar que gastei tantas palavras bonitas, tantas insônias sinceras, tantos exercícios de possibilidades para que, ao final, tivesse se escorrido pelos dedos sem esforço. Que as coisas terminaram porque tinham que terminar, sem beijo no aeroporto ou promessas de Paris, cinco anos.

Mas, no dia seguinte, fui tomado pela leveza. Parecia que, despojado de tudo aquilo, andar pareceria mais fácil. Estaria pronto para recomeçar, sem comparações, sem expectativas. Descobri-me, no espelho dos outros, novamente bonito. Capaz de provocar coisas boas e bobas, ao alcance das mãos. E hoje, tanto tempo depois, achei acertada a decisão em sacrificar uma parte em favor do todo. É libertador.

Às vezes, precisamos recolher todas as garrafas que jogamos ao mar por piedade a nós mesmos. Deixar os escafandros de lado para que os diálogos se façam com mãos juntas, mesas postas, na calada da noite...

2 comentários:

thais saccardi disse...

Brilhante e querido. ao mesmo tempo me nutrindo para q consiga suportar a verdade de que o "amor cavalga a morte". em breve, no lugar desta fantasia, serei eu mesma, inteira e espelhada em você, um de meus amores mais amados.

itaerci disse...

Sempre leio teu blog, sempre fico encantada com a facilidade que tens de nos ler e sempre quero te dizer isso. Porque hoje e sabado, eu digo. Te acho maravilhoso.