terça-feira, setembro 28, 2010

Porque não voto em Marina Silva.

Nesta semana, sem votação ou consulta aos moradores, foi instituido que a coleta seletiva de lixo obrigatória no meu condomínio. Bom para o planeta, bom para o universo, não? Pois é, não gostei. Quer dizer: reciclagem de lixo é uma coisa conceiualmente legal e louvável, concordo. O grande problema é a imposição do fato e suas eventuais consequências.

Gosto bastante quando o Luiz Felipe Pondé fala sobre o fascismo verde, a ditadura do politicamente correto. E quando falo de fascismo, não penso na livre associação com Mussolini e Hitler. Digo, sim, no controle impositivo do Estado sobre a população, no 1984 de George Orwell. Das coisas que se impõem pelo propagado ideal de bem-comum.

Vejamos: reciclar o lixo é coletivamente bom, poupa recursos, fornece renda. Eu racionalmente sei que é uma coisa legal. Pensando bem, é justo que me obriguem a realizar algo que, talvez, não faria de forma espontânea. E daí, vamos reciclando o lixo. E, suponhamos, o governo proiba gordura trans. Vejam bem, eu gosto de gordura trans. Mas, pensando bem, gordura trans entope minhas artérias e, desta forma, aumenta meu risco cardiovascular. Morrendo mais cedo, causo prejuízo ao Estado pois sou parte da população economicamente ativa que irá precocemente ao óbito. Desta forma, parece justo que me obriguem a comer alfaces e rúculas, proibam-me de fumar, coloquem-me numa esteira como um hamster por duas horas por dia. Vivendo mais, produzo mais e, assim, é melhor para todos.

Pensando em políticas de saúde pública, é comprovado que a transmissão do HIV é várias vezes aumentada quando o paciente não está em tratamento e com carga viral elevada. E já temos estudos de modelagem matemática que mostram que, se tratássemos toda a população infectada, a longo prazo conseguiríamos erradicar a epidemia. Desta forma, pelo bem coletivo, porque não obrigar a testagem de toda população, impondo que cada paciente seja obrigado a se tratar, talvez até naquele esquema de tratamento supervisionado para garantir a aderência? Assim, erradicando a epidemia, é o melhor para todo mundo...

Não que eu esteja propondo um regime anárquico, onde cada um faz o que quiser. Viver em sociedade exige normas - o que acho válido na discussão é até que ponto estamos sacrificando escolhas individuais como hábitos de vida, sobre nosso livre arbítrio, em troca do politicamente correto. Tenho direito de não reciclar meu lixo? Tenho direito de infartar aos 45 anos em troca de prazeres mundanos? Tenho o direito de ter HIV e não tratar?

Por isso, sempre que vejo um ambientalista ferrenho, esses vegans doutrinadores, esse papinho de crescimento sustentável, acende a luz: está aí um fascista em potencial. Que até pode ter um discurso correto e bem-intencionado dentro do contexto do planeta, de Gaia e todos os seres vivos, mas quase sempre intransigente: pois não há argumentos contra o bem-coletivo. Diga que talvez você não queira reciclar seu lixo e desperte a ira alheia pelo seu individualismo, de fazer parte dessa sociedade em que não se perceba o próximo e mimimi. Se brincar, até bate na sua porta um cara do Greenpeace naqueles barcos que caçam caçadores de baleias.

Desta forma, quando vejo a Marina naquele discurso doce com a Terra Azul rodando atrás, não há como não pensar, ali: fascista. Mas, veja, é bem-intencionada a moça. Só que o fascismo do século XXI é diferente: vão proibir nosso sal, nossos carbohidratos, nosso direito ao sedentarismo. Não que ela faça isso em seu governo, obviamente. Só que coloque um deles no poder e veremos turbas pelas ruas gritando: rúculas, rúculas, rúculas! Já já, esses controles loucos podem até correr o risco de fazer sentido...

Portanto, queridos: não voto na Marina, não reciclo meu lixo e ainda não estou pronto para abrir mão dos meus caprichos auto-destrutivos, ok?

segunda-feira, setembro 27, 2010

Imperfeição

...não me deixa fazer a barba, nem me deixa cortar o cabelo. Sorri do meu eventual desapego ao sacerdócio, essa capa bonita que nos colocaram antes que nos perguntasse: pode? Diverte-se com minhas negligências estratégicas, meus pequenos desvios de caráter. Não me pede para cortar as unhas, nem reclama do caos da sala ou do barulho de molas do sofá-cama. Elogia a preguiça e a procrastinação. Nestes domingos ensolarados e claros, nem se move dos edredons e travesseiros. Dorme na madrugada alta, muito embora acorde antes que eu. Obriga-me a tomar cerveja depois de um dia difícil, rouba-me um beijo improvável no meio da Augusta e nem se abala com minha procissão de imperfeições.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Esquadros

Sigo por aí desatando nós, divertindo gente, falando ao telefone. A rotina desce mordendo os calcanhares e me vejo de lá a cá, nos trilhos da CPTM, perdido em mil obrigações fúteis. As relações de trabalho oprimem e me subverter novamente a servilidade do rapaz de recados dói bem mais que as noites que não durmo, os almoços que negligencio. Os amigos brilham em volta e até mandam notícias madrugada adentro, para dizer: você poderia estar aqui. Estarei, em breve, agora que setembro finda só nos resta este mergulho vertiginoso até 2011 e a esperança recorrente de que, sim, vai melhorar. Não sei onde será o Reveillon, não sei onde trabalharei no ano que vem, muito menos para quem venderei minha alma por um preço de liquidação. Às vezes tenho entrado no elevador e esquecido para qual andar vou, tenho tomado mil cafés quando fagocitado por uma companhia macia e me arrasto pela semana esperando quando você voltará para rotina. Finjo uma pretensa segurança enquanto escovo os dentes, procrastino a faxina enquanto o caos se instala pelo apartamento e, na espera da sua chegada, vou trocando isqueiros na maior cara de pau - laranjas, sempre peço. Guardo as tampas de Heineken, até tenho visto Topa Tudo por Dinheiro e ali, quando tudo é silêncio, relembro que viver é bom.

domingo, setembro 19, 2010

Carta oceânica

Cara amiga,

Bem sabes que tenho doutorado nestes amores que consideramos abissais. Pois bem, sempre fui um tanto sensível a estes amores que chegam, destroem avenidas e partem: além oceano, no Cerrado, no Paraná. Dos platonismos que construímos, há sempre o sentimento bom do que aconteceu, ali na palma de nossas mãos. Eles são necessariamente intensos e especiais, com aqueles toques de literatura russa ou viagens espetaculares e, quando nos vemos ao final da noite, estamos completamente vendidos.

E, então, eles partem.

Na nossa sede, nesse deserto de pessoas que conseguem verdadeiramente nos ler, ficamos. Dedos tamborilando a esperar que os carteiros do Brasil entreguem nossas cartas com a doçura necessária, ocupando o vazio da nossa rotina de pequenas possibilidades brilhantes que seriam, que poderiam, na beleza do vir-a-ser.

Na vagareza dos correios, vamos preechendo as lacunas com nossas próprias palavras. Coisas que eles poderiam dizer, lugares que poderíamos ir e, daí, o amor se contrói do culto àquela imagem de Sebastião que voltará um dia, sabe lá quando, sabe lá como.

O platonismo é uma existência egoísta: pega-se o objeto amado e ele se ergue do nosso suor e sangue, das nossas fragilidades e expectativas. Ainda que seja um exercício bonito, ainda que eles nos acalentem nestas noites frias quase sem perspectiva nenhuma: é vazio, pois se inicia e termina em nós mesmos. Porque, em determinado ponto, temos tanto medo de perverter a sua memória que perdemos a atenção difusa com o mundo, a capacidade em se andar distraído pela rua. Cria-se um gold standart fantasioso e inatingível, nosso mecanismo mais ardiloso de auto-sabotagem. E daí, como ninguém consegue chegar a nossa porta, permanecemos enternecidos pelas lembranças, zonzos de amor não dado.

Confesso que só consegui ser feliz quando me desfiz desses platonismos, um a um. Optei por pisar no real, pelo pânico em se estar ou não se estar junto numa terça-feira nublada. Quando o último se foi, nas águas dos mares de janeiro, doloroso foi pensar que gastei tantas palavras bonitas, tantas insônias sinceras, tantos exercícios de possibilidades para que, ao final, tivesse se escorrido pelos dedos sem esforço. Que as coisas terminaram porque tinham que terminar, sem beijo no aeroporto ou promessas de Paris, cinco anos.

Mas, no dia seguinte, fui tomado pela leveza. Parecia que, despojado de tudo aquilo, andar pareceria mais fácil. Estaria pronto para recomeçar, sem comparações, sem expectativas. Descobri-me, no espelho dos outros, novamente bonito. Capaz de provocar coisas boas e bobas, ao alcance das mãos. E hoje, tanto tempo depois, achei acertada a decisão em sacrificar uma parte em favor do todo. É libertador.

Às vezes, precisamos recolher todas as garrafas que jogamos ao mar por piedade a nós mesmos. Deixar os escafandros de lado para que os diálogos se façam com mãos juntas, mesas postas, na calada da noite...

segunda-feira, setembro 13, 2010

Insônias

Fumando seu último Malboro vermelho, penso que poderia ser você aqui entre meus dedos.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Pequena morte

‎"Pequena morte, chamam na França, a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce"
(Eduardo Galeano)

quarta-feira, setembro 08, 2010

Ausência

"Paper clips and crayons in my bed
Everybody thinks that I'm sad
I'll take a ride in melodies and bees and birds"


Se a presença domina e preenche, é a ausência que acaba por pontuar. E o bom quando não vira aquela ausência-inércia, aquela que sufoca sem permitir se movimentar. Pois bem, movimentar é o que tenho feito, até bem, nestes dias de ócio até produtivo. Tenho tomado cafés e visto filmes, tenho encarado as noites e bebido como se não houvesse amanhã - e, assim, ali pelo meio da noite o que vem a mente é: poxa, você entenderia como é raro Radiohead numa pista de dança. Você saberia o achado que é uma Stella Artois a R$ 1,79 no Pão de Açúcar ou, também, na falta que é não ter quem brincar do jogo do sério quando o assunto acaba no meio do bar. Quando chego, invariavelmente bêbado e sem cigarros bem depois que amanhece, ainda perco meia hora cantarolando um "eu ando sempre pra sentir vontade", olhando para o relógio e os calendários.

Dentro dos longos espaços que tenho tido, brotam coisas bonitas e simples, quase todas esqueço logo quando acordo. Vezenquando até penso em escrevê-las, mas, sei lá, tenho preferido dormir sorrindo e acordar, completamente desfeito, como só tivesse tido sonhos bons.

segunda-feira, setembro 06, 2010

As chaves, as portas.



"Katya: Sometimes, even if you have the keys those doors still can't be opened. Can they?
Jeremy: Even if the door is open, the person you're looking for may not be there"

(My Blueberry Nights)

sábado, setembro 04, 2010

Setembro

Veio-se o tempo, então, de cuidar das gérberas, das begôneas, encher a casa de rosas brancas e braçadas de lírios tenros. Abrir as cortinas e colocar os panos de sol na janela. Lá vem setembro devassando os caminhos. Vem chegando a primavera.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Ipês Amarelos (Rubem Alves)

Uma professora me contou esta coisa deliciosa. Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou à criançada: "E quem é Rubem Alves?". Um menininho respondeu: "O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos...". A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que elas amam.

Mas o menininho não sabia que sou um homem de muitos amores... Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso. Gosto também de banho de cachoeira (no verão...), da sensação do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magnólias, de música clássica, de canto gregoriano, do som metálico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme "Moça com Brinco de Pérola"), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais góticas, de jardins, da comida mineira, de conversar à volta da lareira.

Diz Alberto Caeiro que o mundo é para ser visto, e não para pensarmos nele. Nos poemas bíblicos da criação está relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.

Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro, um milagre. Uma cebola é um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: "Rosa de água com escamas de cristal...".

Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver.

Uma das minhas alegrias são os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de apenas três páginas. O que escrevo são como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contêm todo um universo.

Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que dá prazer é degustado vagarosamente. São esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.

Sei que não me resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui... Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos...