segunda-feira, agosto 30, 2010

(18)

Eu imaginei que tivesse controle. Desde os tenros tempos, tão educado nos brit-rocks que só aquela ilha pode oferecer, eu cantava: "I wanna a perfect body, I wanna a perfect soul". E quando digo controle, não é a habilidade do manipulador de marionetes, a precisão do enxadrista que antevê o movimento. Queria, simplesmente, coordenar o passo de fora com o passo de dentro, da paz em que se ganha coordenando o querer com o haver.

No alto de minha soberba conquistada naqueles dias longos, pensei que já sabia. Da precisão dos limites estabelecidos e da frugalidade em ver que os dias corriam pela janela, doces e indolores.

Enganei-me, obviamente. Dolorosamente. Foi vindo como aquela avenca que cresce lenta e quando se vê já estava derrubando telhados, paredes. Pus Cazuza para tocar no último volume, quase junto com o gás. Da desconstrução que vinha, nas noites insones, só conseguia fazer as contas do que poderia perder, mesmo sabendo que, naquela altura do campeonato, não havia algo além do que seguir.

Há quase duas semanas depois, numa Cumbica carinhosamente gélida me lembro: não, eu não sabia. Fiz as contas, guardei os retratos, rabisquei no papel de pão e guardei quase tudo que era doce aqui dentro. E decidi, então, abrir os braços num gesto pretensamente calculado, pés para fora. Confiar na corda que havia, na vagareza dos meus passos hesitantes. Daí gritar, gritar muito, gritar tanto, naqueles cinco segundos longos até quando a corda repuxasse ou eu me estourasse no chão.

Um comentário:

abrazos disse...

You float like a feather
In a beautiful world