sexta-feira, agosto 20, 2010

(16)

Quando quis me arrepender, já estava a quarenta metros do chão. Na verdade, quando quis ir só percebi que fui quando estava ali, sozinho, com o abismo todo aos meus pés.

Sempre quis ser a Kite perdida no céu, baby. Sempre acreditei na leveza, ainda que ela não nos permita enxergar direito o que se acontece lá embaixo. E lá estava eu, caminhando numa plataforma estreita, até onde ela desapareceria. A taquicardia só veio quando o instrutor, gentil, disse-me: veja, agora vou soltar a corda. Não estranhe o peso. E quando soltou, logo percebi que os pés pregaram no chão. Disse para caminhar devagar, colocar metade dos pés para fora e, só depois, saltar.

Noite fria, era. Daquelas quase sem estrelas, garoa bem leve sem ser necessariamente ferina. Lá em baixo, poucos pontos iluminados, todos pareciam uma massa só. Caminhei sem destreza enquanto pensava no desastre que seria se a única coisa que me prendia ali, a corda, arrebentasse.

Segui. E quando cheguei, aterrorizado, veio a vertigem. Não queria, não podia, quero voltar para trás posso? Mentiria. Talvez, só pedir para que ele viesse ali e me empurrasse. O difícil sempre foi esse primeiro passo no abismo, ainda que se saiba que há algo que me prendia.

Pensei novamente na leveza: quase sempre é insustentável. Por isso queria ser a Kite, ainda que o céu estivesse nublado, ainda que a brisa fosse fria. Queria ser daquelas que, mesmo revoltas, ainda possuem aquele minúsculo fio que as mantém presas ao chão.

Foi daí, após estes segundos de exasperação, que decidi: vou. Abri os braços num movimento lento, de quem se joga ao desconhecido mesmo sabendo da possibilidade do tombo. Gritei coisa qualquer, coisa banal. Fechei os olhos apertados e, então, o pé direito foi a frente, além da plataforma, rumo ao nada.

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu gostava mais de vc quando vc gozava de uma tristeza promíscua....
Sofia Fresca

Yaskara disse...

Lindo! :)