segunda-feira, agosto 16, 2010

(14)

E eu te expulsaria do quarto, arfando. Só não seria ao gritos, pois bem, o que os vizinhos vão pensar? Mas, voltando, sim, expulsaria. E talvez até dissesse qualquer coisa débil: eu ainda acredito. Você me olharia estranho, você não me conhece, você nunca me viu. Você nem deve saber o que é bater lá no fundo do poço e voltar. Sim, eu ainda acredito - e a palavra amor até lamberia os lábios, num lapso consciente, mas eu voltaria atrás: no encanto. Acredito ainda naqueles três segundos mágicos entre o olhar e a consciência do que se vê. Do discurso que se encadeia sem perceber e, se tivesse acontecido, prolongaria-se por horas. O celular ficaria derretendo nos dedos, naquela ansiedade de ligo, talvez ligo, mas se ligasse o que você pensaria, talvez se você ligasse, talvez só um sms besta de madrugada dizendo coisas tolas em menos de 140 caracteres. E que viesse a sequência da segunda que passa rasteira, a terça que brota pulsando (e daí, talvez nos víssemos prum café, coisa assim), a quarta entraria se arrastando na curva desaguando na quinta, agora um chopp ao entardecer, para uma sexta feira longuíssima de aguardos e daí a folia de um sábado repleto até que o domingo chegasse, sempre ele, quando ficaríamos deitados na cama de mãos postas, suas mãos em meus cabelos e lá ao fundo talvez Bob Dylan, talvez só uma bossa bem leve, enquanto a tarde virasse na noite e ali, nos toques iniciais do Fantástico, pensaria sem medo: ah, amanhã bem que podia ser feriado.

O que vem à mente antes de bater a porta e nem ver você chafurdar nesta noite vasta é que não comprei os meus sonhos em qualquer mesa de bar.

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