terça-feira, agosto 03, 2010

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Quando a moça me deu a poltrona 1A, logo o que pensei foi: bem, se o avião cai de bico no chão, sou eu quem morre primeiro. E isto não é necessariamente ruim. Até brinco: se for para morrer, que fosse de acidente de avião ou de infarto fulminante. De infarto fulminante, até tenho talento familiar: meu avô e meu bisavô morreram assim, caindo durinhos no chão. Os dois logo pela manhã, sem muita margem para maiores xurumelas. De avião, no entanto, nem tenho andado muito. Quando lhe disse isso, você nem se abalou. As pessoas se abalam às vezes com o meu politicamente incorreto.

Veja bem, não quero ser desses carinhas do Greenpeace que só comem rúculas e só vão morrer aos oitenta anos, com o cérebro fritado por uma demência aleatória sem lembrar que se avisa quando se evacua na roupa. Não quero ir apagando aos poucos, percebendo que os joelhos não dão mais conta do serviço. Não quero ter dias e anos para refletir sobre todas as coisas que fiz, nos meus erros recorrentes, nos meus pequenos pecados de alma.

E quando morrer, quero ser cremado. Só toparia ser enterrado no cemitério da Consolação, mas imagino que ele deve estar cheio há mais ou menos um centenário. Imaginem: repouso eterno nestes cemitérios limpinhos e gramados, plaquinhas e aquele ambiente levemente bucólico de paz & vazio? Nem pensar. Quero ser cremado e que minhas cinzas repousem naquele mar tão verde de São Miguel dos Milagres.

Um comentário:

Rafael disse...

Minha única exigência é que os amigos bebam minha morte, só isso!

De resto, pode colocar o corpo onde quiser. Se for possível, pode doar até pra pesquisa.