segunda-feira, agosto 30, 2010

(18)

Eu imaginei que tivesse controle. Desde os tenros tempos, tão educado nos brit-rocks que só aquela ilha pode oferecer, eu cantava: "I wanna a perfect body, I wanna a perfect soul". E quando digo controle, não é a habilidade do manipulador de marionetes, a precisão do enxadrista que antevê o movimento. Queria, simplesmente, coordenar o passo de fora com o passo de dentro, da paz em que se ganha coordenando o querer com o haver.

No alto de minha soberba conquistada naqueles dias longos, pensei que já sabia. Da precisão dos limites estabelecidos e da frugalidade em ver que os dias corriam pela janela, doces e indolores.

Enganei-me, obviamente. Dolorosamente. Foi vindo como aquela avenca que cresce lenta e quando se vê já estava derrubando telhados, paredes. Pus Cazuza para tocar no último volume, quase junto com o gás. Da desconstrução que vinha, nas noites insones, só conseguia fazer as contas do que poderia perder, mesmo sabendo que, naquela altura do campeonato, não havia algo além do que seguir.

Há quase duas semanas depois, numa Cumbica carinhosamente gélida me lembro: não, eu não sabia. Fiz as contas, guardei os retratos, rabisquei no papel de pão e guardei quase tudo que era doce aqui dentro. E decidi, então, abrir os braços num gesto pretensamente calculado, pés para fora. Confiar na corda que havia, na vagareza dos meus passos hesitantes. Daí gritar, gritar muito, gritar tanto, naqueles cinco segundos longos até quando a corda repuxasse ou eu me estourasse no chão.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Vento (Cecília Meirelles)

PASSARAM os ventos de Agosto, levando tudo.
As árvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no chão.
Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.
Passaram os ventos de Agosto, terríveis, por dentro da noite.
Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.
Mas, sobre a paisagem cansada da aventura excessiva --
sem forma e sem eco,
o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento
para soltarem papagaios de papel.

quarta-feira, agosto 25, 2010

(17)

Quando entrei no taxi, disse pausadamente: "ao aeroporto". Tentava esconder toda a exasperação na fala. Quinze minutos antes, um mail inesperado: compareça, venha, esteja aqui em dois dias. Daí veio pular na cama imensa do hotel, descer arfando pelas escadas, postar-se na sarjeta da Almirante Barroso com dedo em pé e dizer: "rápido, rápido".

E enquanto ele fazia o longo trajeto entre São Brás e o aeroporto, fui mastigando aquela cidade estranha pela penúltima vez. Bonita, ela, nunca tive muita dúvida. Por mais que houvesse tanto estranhamento, sabia que ela, agora, também fazia parte de um pouco de mim. Desde a claridade absurda logo pela manhã, os casarões portugueses abandonados, a conjugação verbal pela qual eu me apaixonei. Sei que, em breve, lembraria daqueles dias até com uma certa doçura apesar de todas as dificuldades.

O fato é que, naquele momento, só queria voltar. E, mesmo querendo voltar, ficava com o celular escorrendo pelos dedos. Até sabia o que fazer, só não sabia como.

sexta-feira, agosto 20, 2010

(16)

Quando quis me arrepender, já estava a quarenta metros do chão. Na verdade, quando quis ir só percebi que fui quando estava ali, sozinho, com o abismo todo aos meus pés.

Sempre quis ser a Kite perdida no céu, baby. Sempre acreditei na leveza, ainda que ela não nos permita enxergar direito o que se acontece lá embaixo. E lá estava eu, caminhando numa plataforma estreita, até onde ela desapareceria. A taquicardia só veio quando o instrutor, gentil, disse-me: veja, agora vou soltar a corda. Não estranhe o peso. E quando soltou, logo percebi que os pés pregaram no chão. Disse para caminhar devagar, colocar metade dos pés para fora e, só depois, saltar.

Noite fria, era. Daquelas quase sem estrelas, garoa bem leve sem ser necessariamente ferina. Lá em baixo, poucos pontos iluminados, todos pareciam uma massa só. Caminhei sem destreza enquanto pensava no desastre que seria se a única coisa que me prendia ali, a corda, arrebentasse.

Segui. E quando cheguei, aterrorizado, veio a vertigem. Não queria, não podia, quero voltar para trás posso? Mentiria. Talvez, só pedir para que ele viesse ali e me empurrasse. O difícil sempre foi esse primeiro passo no abismo, ainda que se saiba que há algo que me prendia.

Pensei novamente na leveza: quase sempre é insustentável. Por isso queria ser a Kite, ainda que o céu estivesse nublado, ainda que a brisa fosse fria. Queria ser daquelas que, mesmo revoltas, ainda possuem aquele minúsculo fio que as mantém presas ao chão.

Foi daí, após estes segundos de exasperação, que decidi: vou. Abri os braços num movimento lento, de quem se joga ao desconhecido mesmo sabendo da possibilidade do tombo. Gritei coisa qualquer, coisa banal. Fechei os olhos apertados e, então, o pé direito foi a frente, além da plataforma, rumo ao nada.

terça-feira, agosto 17, 2010

(15)

No Cosanostra, talvez o lugar mais legal de Belém, tocava Chico. Naquele pub amadeirado, um casal se levantou e começou a dançar, cheek-to-cheek: "Ah, se já perdemos a noção da hora, se juntos já jogamos tudo fora: agora diga como eu vou partir?".

Pensei: poderia ser comigo. Poderia ser eu. Poderíamos ser nós dois, como se não houvesse nada além. O tempo correria na velocidade dos continentes. Diria, enquanto entrelaçaria suas mãos nas minhas, só: vem.

segunda-feira, agosto 16, 2010

(14)

E eu te expulsaria do quarto, arfando. Só não seria ao gritos, pois bem, o que os vizinhos vão pensar? Mas, voltando, sim, expulsaria. E talvez até dissesse qualquer coisa débil: eu ainda acredito. Você me olharia estranho, você não me conhece, você nunca me viu. Você nem deve saber o que é bater lá no fundo do poço e voltar. Sim, eu ainda acredito - e a palavra amor até lamberia os lábios, num lapso consciente, mas eu voltaria atrás: no encanto. Acredito ainda naqueles três segundos mágicos entre o olhar e a consciência do que se vê. Do discurso que se encadeia sem perceber e, se tivesse acontecido, prolongaria-se por horas. O celular ficaria derretendo nos dedos, naquela ansiedade de ligo, talvez ligo, mas se ligasse o que você pensaria, talvez se você ligasse, talvez só um sms besta de madrugada dizendo coisas tolas em menos de 140 caracteres. E que viesse a sequência da segunda que passa rasteira, a terça que brota pulsando (e daí, talvez nos víssemos prum café, coisa assim), a quarta entraria se arrastando na curva desaguando na quinta, agora um chopp ao entardecer, para uma sexta feira longuíssima de aguardos e daí a folia de um sábado repleto até que o domingo chegasse, sempre ele, quando ficaríamos deitados na cama de mãos postas, suas mãos em meus cabelos e lá ao fundo talvez Bob Dylan, talvez só uma bossa bem leve, enquanto a tarde virasse na noite e ali, nos toques iniciais do Fantástico, pensaria sem medo: ah, amanhã bem que podia ser feriado.

O que vem à mente antes de bater a porta e nem ver você chafurdar nesta noite vasta é que não comprei os meus sonhos em qualquer mesa de bar.

domingo, agosto 15, 2010

(13)

Talvez eu esteja fumando demais. Tenho percebido isso quando chamo o Carlton, carinhosamente, de meu único amigo e me irrito por perceber que não há cinzeiros nos hotéis que me hospedo. Também, tenho bebido demais. Quase toda noite, naquela hora em que o calor tórrido se vai e sobra uma brisa morna, úmida, que se fosse no mar seriam os tais ventos alísios. Tenho dormido pouco, é verdade, e quando desisto de ficar lutando contra os lençóis abro a janela, acendo mais um cigarro, ligo o som e fico assim por horas e horas. Ser estrangeiro numa terra estranha te dá a capacidade de subverter a própria rotina e, tão distante de tudo, tentar acertar os passos. Tenho ligado muito para meus amigos, às vezes em horários indecentes para dizer indecências: me tira daqui, penso em falar, não digo. Só que as horas pingam num quarto de hotel artificialmente arrumado, com a mala já revirada do dia a dia e que, poxa, até queria ouvir Nara só que o que aparece é Maysa, rouca, nos acordes inicais: todos acham que eu falo demais.

sábado, agosto 14, 2010

(12)

Do socorro que vem à cavalo, diretamente da selva de pedra:

"Você tem amor, você é doce e também está aprendendo. Penso agora que você bem que podia acreditar em santo, mãe de santo, redenção. Mas você só acredita em Caio F, né, hermano. Eu também. Fico um cadinho preocupada com você nesse mundo imenso. Penso em macunaíma, nos barulhos da floresta, nas águas fortes daí e rezo pra que você volte salvo dessa gordura estranha do mundo.

Quero te dizer que tudo vai ficar bem"

(de Maria Fernanda, mi eterna Hermana)

sexta-feira, agosto 13, 2010

(11)

E daí, vem. Aliás, não vem. Quando vejo, já é a terceira noite que não consigo dormir. O ar condicionado está na temperatura polar. A cidade, levemente silenciosa. Tento me afogar na cama imensa do hotel novo, sem sucesso. Essa insônia não tem nada de poética: é desesperadora.

quinta-feira, agosto 12, 2010

(10)

Durmo muito mal por aqui. Todas as noites, mesmo exausto, fico rolando nos lençóis. E de nada adianta fumar um cigarro, tomar um banho gelado, talvez um copo de leite. Quando vejo, já passa da uma e estou ali, insone.

Daí vou para varanda e penso em todos que amo e estão longe. Todos, provavelmente dormindo. Penso na Vila Clementino e as saudades dos tchamos diários. Vagueio pelo Paraíso, naquela janela imensa, escutando as bossas. Daí, o pensamento fica naquela sala ampla da Capote Valente, depois lambe a Augusta e todos os punks, putas, indies, emos e congêneres que passeiam lépidos sob a noite fria. Depois, belisca as ruas desertas de Perdizes, as árvores frondosas de Higienópolis e vai seguindo além Anhanguera, cruzando Minas até a complicada e perfeitinha Brasília, terra de todos os poderes duvidosos. Todos amados, todos queridos, todos beijados.

E, enquanto me mantenho dentro dessa energia de bem-querer, os demônios nem vem tanto mordiscar os dedos.

quarta-feira, agosto 11, 2010

(9)

O lugar mais legal de Belém, talvez, são as docas. Construidas na época áurea da borracha e abandonadas com a crise subsequente, foram reformadas e, ali dentro, abriram vários bares e restaurantes. Pois estava ali tomando o quinto chopp, na beira do rio Amazonas, quando toca Blitz: "longe de casa, há mais de uma semana...". A noite é fresca, venta muito. E para quem começava a sofrer do banzo de se estar longe de tudo e todos que se ama, escutar Evandro Mesquita trouxe uma vontadinha de continuar indo, continuar ficando, enquanto o rio caudalosamente passa.

terça-feira, agosto 10, 2010

(8)

Tenho estranhado o tempo das coisas. Vejam, já tinha acostumado com o monstro urbano, a cidade cinza e a correria sem tempo de lá para cá. Por aqui, as coisas tem seu tempo próprio. Ali pelo meio-dia, quando fica impraticável se fazer qualquer coisa útil pelo calor, as pessoas almoçam. Assim, no sentido verdadeiro da palavra: sentam, conversam, pedem seu prato e ainda arriscam uma siesta até as três da tarde. Mal-acostumado com os hábitos cosmopolistas deixo-me desacelerar, percebendo que o distanciamento também tem seu efeito elucidativo...

segunda-feira, agosto 09, 2010

(7)

Gosto muito dos sotaques. Por aqui, usa-se muito o tu corretamente. Encanto-me quando me perguntam: tu vais? Onde tu estás? Pela forte influência portuguesa de outrora, o português é de uma correção espantosa: todas as palavras ali, todos os verbos. Cadenciado rapidamente, é verdade, mas sem aquela velocidade do Ceará. Tem um puxado que lembra o Rio, sem ser ostensivo. Às vezes, pego-me no ônibus só escutando as conversas alheias e sorrio.

Tu queres? Sim, quero. E nesta solidão de estrangeiro que invariavelmente me encontro, fico mastigando silenciosamente meus quereres...

domingo, agosto 08, 2010

(6)

Daí ficamos em silêncio. No jogo do siso, nos quinze segundos que me aguento antes de rir, ficamos naquela desculpa para a contemplação breve do rosto do outro, quase sempre de mãos bem dadas. Não se pode desviar o olhar - diz a regra - mas me deixo perceber a barba quase sempre mal feita, as linhas de expressão. Sempre sou eu quem baixa os olhos, rindo loucamente. Não me lembro do porque começamos a brincadeira. Acho que, o que aconteceu, é que em determinado momento o assunto acabou e acabamos ficando por ali: eu, a mesa, você, a cerveja gelada no fundo do copo e a confusão toda em volta. Foi o jeito que encontramos para desaguar todo nosso arrebatamento, já que verbalizá-lo parecia tolo naqueles dias.

Sempre perco, é fato. Mas, desconfio, que o intuito da brincadeira nem é a vitória. É se jogar, com vagar, enquanto a noite cai.

sábado, agosto 07, 2010

(5)

Não dói. Nada fere. Poderia, pensei, se fosse há um ano atrás. Se fosse, talvez o calor sufocasse e eu perdesse as noites na varanda, pensando em tudo o que poderia ter sido e não foi. Ficaria assim, insone, cantarolando: "e quando eu me apaixonei não passou de ilusão" sem que ninguém por aqui entendesse. Agora, não. Não há nada, mal lembro, parece que foi há tanto tempo que resolvemos nos desvencilhar da dor e dos nossos corpos.

E isto deveria consolar? Acalentar? Não necessariamente.

sexta-feira, agosto 06, 2010

(4)

Ao chegar no balcão da Surinam Air, quase comprei lugar no próximo voo. Eu largo três empregos, meu apartamento na Bela Vista, meus sentimentos de grandeza. Você largaria os medos pequeno-burgueses e o trânsito da hora do rush que enlouquece.

Vamos a Paramaribo, meu amor?

quinta-feira, agosto 05, 2010

(3)

Vejo um copo de branco leitoso, vagas cascas pretas de jabuticaba encimando só para dar aquele clima tropical. Talvez, um piano bar. Talvez tocasse naquele momento Sinatra, com alguém em voz de barítono começando um "my funny valentine...". Já seria tarde demais? A tarde já entrou na noite, com vagar preciso, de súbito. As mãos repousam naquela toalha verde musgo, ninguém parecia compreender direito o que se havia. Haveria, pergunto? Poderia levantar, como nos filmes e murmurar no ouvido do pianista: "Play it, Sam? Play it"? Talvez, nestes dias céleres e modernosos, me concederia esta última dança? Peito no peito, corpo no corpo. A respiração entrecortada quando abraço sua cintura e sinto quase todo o resto desfalecer. Meu queixo desce até a curva do seu ombro: barba na pele, você me abraça. Parece que esse bar já vai fechar poderia ser a próxima música. Vamos lentos, passo lá, passo cá.

Daí, acordo. Quando vejo pela janela, muito verde, muitos rios.

quarta-feira, agosto 04, 2010

(2)

E ali no saguão de embarque, ainda faltava uma hora. Até abri o livro: "eu deveria cantar", mas tão logo o sono veio. O bar da Devassa e, por que não, talvez tivesse whiskey. E, para mim, whiskey sempre teve um quê de especial.

Aprendi a bebê-lo como se deve: com respeito. Nunca assim, esquenta de formatura com muito gelo & energético. Sempre respeitei o fato de que o coitado fica lá, anos imerso num bom carvalho, para que pegue o gosto da madeira, a textura exata.

Aprendi a beber naquelas noites longuíssimas de faculdade com o Joey. Logo me ensinou: o segredo é que vá para o fundo da garganta que não amarga. E que seja devagar, gole a gole. Logo já escolhi meu predileto: o Dimple, predileto também de Sinatra. E aprendi, tão logo, a tomar cowboy - gostá-lo assim, amargo e flamejante, em seu estado inicial.

No aeroporto, eu merecia. Da última vez, havia sido na sacada do Sofitel com Copacabana toda aberta aos meus pés. Naquele dia, acabei trocando por um martini sofrível, molhado demais e me arrependi. E quando cheguei mais perto, namorando as garrafas que repousavam silenciosamente nas prateleiras de madeira, só Jack Daniels, Red Label. Não havia aquela sinuosa garrafa do Dimple que gosto tanto.

Decidi que havia de ser Dimple ou nada. Assim, embarquei só sonolento e sóbrio meia hora depois. O que não me impediu de cantarolar, do solo ao solo, coisinhas assim: "fly me to the moon..."

terça-feira, agosto 03, 2010

(1)

Quando a moça me deu a poltrona 1A, logo o que pensei foi: bem, se o avião cai de bico no chão, sou eu quem morre primeiro. E isto não é necessariamente ruim. Até brinco: se for para morrer, que fosse de acidente de avião ou de infarto fulminante. De infarto fulminante, até tenho talento familiar: meu avô e meu bisavô morreram assim, caindo durinhos no chão. Os dois logo pela manhã, sem muita margem para maiores xurumelas. De avião, no entanto, nem tenho andado muito. Quando lhe disse isso, você nem se abalou. As pessoas se abalam às vezes com o meu politicamente incorreto.

Veja bem, não quero ser desses carinhas do Greenpeace que só comem rúculas e só vão morrer aos oitenta anos, com o cérebro fritado por uma demência aleatória sem lembrar que se avisa quando se evacua na roupa. Não quero ir apagando aos poucos, percebendo que os joelhos não dão mais conta do serviço. Não quero ter dias e anos para refletir sobre todas as coisas que fiz, nos meus erros recorrentes, nos meus pequenos pecados de alma.

E quando morrer, quero ser cremado. Só toparia ser enterrado no cemitério da Consolação, mas imagino que ele deve estar cheio há mais ou menos um centenário. Imaginem: repouso eterno nestes cemitérios limpinhos e gramados, plaquinhas e aquele ambiente levemente bucólico de paz & vazio? Nem pensar. Quero ser cremado e que minhas cinzas repousem naquele mar tão verde de São Miguel dos Milagres.