terça-feira, julho 27, 2010

Historinha assim

Ela foi criada com modos franceses e ele era quase um príncipe dinamarquês. Conheceram-se pelos corredores, coisas de almoços corridos ou talvez até cafés extremamente doces. Ela até gostava de ter trocado o sol dos trópicos pelos dias gélidos paulistanos. Ele sempre achou que estes dias especialmente nublados eram o melhor espelho da sua personalidade.

E depois veio um sim, talvez, trocaram telefones. Tomaram vários cafés decentes, alguns croissants na porta de casa. Até faziam planos: cachorros, teriam dois. Ela gostava daquele jeito meio ranzinza, excessivamente cáustico dele. Ele descobria o que havia por trás daquela aparência frágil, daqueles modos levíssimos em se acordar diariamente bem-humorada rumo a escravidão branca.

Tanto se aproximaram que, de súbito, aconteceu. Porque, por mais que houvesse carinho e compreensão, vocês bem sabem que o inconsciente exige mais. Vieram logo as exigências do amor tranquilo, em decifrar toda a movimentação óbvia que se seguia num aproximar de mãos, numa promessa aparentemente simples que seria passaporte pra quele happy ending tão sonhado.

Pois bem, ele namorava - não com ela. Coisa meio que morando junto, casamento moderno, dividindo o carro e a máquina de lavar. Nunca ela exigiu - embora quisesse. Ficavam, assim, num jogo de sedução tênue sem arredar da posição inicial. Ninguém queria dar o passo. Ninguém oferecia a mão. Fingiam que o mundo era o mundo deles, na organização do bule de café da padaria, anestesiado nas conversas sobre Calvin e Haroldo e nas idiossincrasias alheias.

Quando não se aguentava mais tantas promessas não cumpridas, ele foi para longe. Coisa assim, delírios tropicais em algum lugar da linha do Equador. Voltou corado, repleto das lagostas e dos camarões que havia comido. Voltou pleno do amor estável que tinha, destas banalidades que só anos próximos conseguem. E ele não ligou mais.

Ela chorou. Seus modos europeus só a deixaram chorar um dia. Até daria uma chance, até venderia seu mundo sem garantias que algo fosse acontecer. O fato é que ele, dinamarquês, nunca conseguiu fugir de sua natureza soturna. Havia perdido aquele embalo para o movimento acontecer, desaprendendo a soltar as velas no vento favorável. E, dia a dia, foram-se esquecendo um do outro.

Veio a indiferença tensa, para depois a irritação corriqueira e, no final, somente um incômodo passageiro. Ele foi abandonado pela namorada. Ela procura apartamento novo e ainda quer ter um cachorro.

Um comentário:

Anônimo disse...

Foi como soco na boca do estômago.