domingo, julho 18, 2010

Diário de bordo

Dia 1: Primeiros dias sempre são terríveis. Lugar novo, rotinas novas, o desconhecimento da papelada até a dinâmica do serviço. Como se não bastasse, dia horrível também: uma intubação num hepatopata sangrando até a alma, duas cardioversões num paciente estável, uma parada cardíaca numa paciente com gripe suína. Corre-se de lá para cá, como baratas tontas. Estou enferrujado, não piso numa UTI há ano e meio. Fico irritado, naquele sentimento de que não deveria estar ali.

Dia 2: A dispensa do Brasil e Holanda não rolou, para o meu deleite. O jeito foi assistir o jogo numa televisão chiada, praticamente sem som. Toda UTI é uma gaiola de Faraday perfeita: celular não pega, a TV não sintoniza. O sentimento de isolamento paira, afinal, todos ali são ilustres desconhecidos. Não tenho preguiça de trabalhar, mas quando se rói o osso com conhecidos pelo menos há um sentimento de cumplicidade. No intervalo, meu paciente convulsiona e dou adeus ao segundo tempo. De canto de olho, vou vendo o Brasil se descontrolar na televisão do paciente que foi cardiovertido no dia anterior. Comento com ele: melhor colocar na Record seu João, com esse joguinho é perigoso sua arritmia voltar de novo. Ele ri, eu rio.

Dia 3: O primeiro plantão noturno ganhou um toque dramático: vinha doutro plantão, aquele que paga as minhas contas. Com dois plantonistas a menos, a casa caiu e todos dormiram menos que uma hora na madrugada inteira. De olheiras bem fundas e passo trôpego, abuso da cafeína para me manter acordado. Contabilizo meu cansaço pela quantidade de cafeína que consumo no decorrer do dia: nas 24 horas seguintes, foram cinco coca-colas e quatro cafés espressos. O pensamento não encadeia e quando vejo, no meio da tarde, acordo deitado no balcão de prescrição com uma enfermeira carinhosa batendo no meu ombro: "Vem cá, vou te dar um chocolate". Noite difícil?, ela emenda.

Dia 5: Levanto novamente, antes do amanhecer. Da janela, Sampa parece até um pouco pós-apocalíptica com este céu todo avermelhado. Sempre fumo um cigarro no caminho, pego um metrô quase cheio, desço na doutor Arnaldo e até me lembro de Caio Fernando. As coisas tranquilizam e a conclusão que UTI é mais ou menos como pilotar avião: 95% de tédio, 5% de terror absoluro. A graça da semana é o residente chileno e seu embananamento com o português. Ele grita: você é destra ou surda? Ninguém entende. Perguntamos: canhota? A paciente, com máscara de oxigênio, balança afirmativamente a cabeça.

Dia 6: A Espanha vence e decido ir trabalhar de uniforme reserva da Fúria, aquele branco. Morro de medo da chefe taiwanesa, miúda e de sorriso fácil, fazer qualquer tipo de censura. Tecnicamente, não somos autorizados para almoçar fora da UTI. O que nos resta é almoçar a mesma dieta servida aos pacientes, em simpáticas bandejinhas de plástico. Óbvio que a comida é assódica, balanceada e invariavelmente sem graça. Meus colegas brincam que, para eles, é um mês de spa. Descubro o tráfico de trufas recheadas que acontece nos bastidores, comandada por uma auxiliar de enfermagem. Pelo menos, há algum prazer no intervalo das refeições. Fumar, tenho menos.

2 comentários:

Marcos disse...

Olá, estive por aqui por indicação. E gostei muito de tudo que li.

Parabéns, seus textos são ótimos,dignos de um pisciano.

Não gosto de definições, mas voltarei certamente mais vezes.

Abrazos disse...

Cheguei no seu blog hj, na verdade, no geral achei o tom meio tristonho, kind of glad to be sad, mas negocios como o do residente chileno me pagaram a leitura!
Abrazos.