sexta-feira, julho 30, 2010

Straight Flush

Os últimos dias tem sido particularmente confusos de uma maneira lá não muito óbvia. Acordava todo dia antes do sol nascer, sem conseguir dormir num horário decente para tal. A vida segue sem grandes atropelos: preciso ir ao banco, e o tempo? Pego o carro na oficina depois de um mês. Embanano-me na maratona dos três empregos, correndo de lá para cá ordinariamente e sem muita fosforilação. Tenho me apegado à rotina, insana, como forma de obstruir a visão do que se exibe a frente.

Como se estivesse à mesa, três cartas sob ela: rainha de copas, valete de copas, 10 de copas. Tenho na mão um rei de paus e um nove de ouros. E do meu lado, o adversário joga todas as fichas ao centro da mesa e diz: All in. É, com certeza, a mão do jogo. Faço as contas: qual a chance dele fechar o straight flush? Seria blefe? Quando a partida está ganha, ainda vale apostar alto?

No adiantado da hora, só consigo calcular todas as coisas que eu posso perder.

quarta-feira, julho 28, 2010

Tung Jên - Comunidade com os Homens



Duas pessoas estão exteriormente separadas, porém unidas em seus corações. Suas posições na vida as mantêm separadas. Erguem-se, entre elas, muitos obstáculos e impedimentos, causando-lhes tristezas. Mas elas não permitem que nada as separe e permanecem fiéis uma à outra. E ainda que a superação desses obstáculos exija grandes lutas, elas vencerão, e ao se reencontrarem suas tristezas se transformarão em alegria.

Confúcio comenta a respeito desta linha:

"A vida conduz o homem responsável por caminhos tortuosos e mutáveis.
Muitas vezes o curso é bloqueado, em outras segue desimpedido.
Ora pensamentos sublimes vertem-se livremente em palavras.
ora o pesado fardo da sabedoria deve fechar-se no silêncio.
Mas quando duas pessoas estão unidas no íntimo de seus corações
podem romper até mesmo a resistência do ferro e do bronze.
E quando duas pessoas se compreendem plenamente no íntimo de seus corações
suas palavras tornam-se doces e fortes como a fragrância das orquídeas"

terça-feira, julho 27, 2010

Historinha assim

Ela foi criada com modos franceses e ele era quase um príncipe dinamarquês. Conheceram-se pelos corredores, coisas de almoços corridos ou talvez até cafés extremamente doces. Ela até gostava de ter trocado o sol dos trópicos pelos dias gélidos paulistanos. Ele sempre achou que estes dias especialmente nublados eram o melhor espelho da sua personalidade.

E depois veio um sim, talvez, trocaram telefones. Tomaram vários cafés decentes, alguns croissants na porta de casa. Até faziam planos: cachorros, teriam dois. Ela gostava daquele jeito meio ranzinza, excessivamente cáustico dele. Ele descobria o que havia por trás daquela aparência frágil, daqueles modos levíssimos em se acordar diariamente bem-humorada rumo a escravidão branca.

Tanto se aproximaram que, de súbito, aconteceu. Porque, por mais que houvesse carinho e compreensão, vocês bem sabem que o inconsciente exige mais. Vieram logo as exigências do amor tranquilo, em decifrar toda a movimentação óbvia que se seguia num aproximar de mãos, numa promessa aparentemente simples que seria passaporte pra quele happy ending tão sonhado.

Pois bem, ele namorava - não com ela. Coisa meio que morando junto, casamento moderno, dividindo o carro e a máquina de lavar. Nunca ela exigiu - embora quisesse. Ficavam, assim, num jogo de sedução tênue sem arredar da posição inicial. Ninguém queria dar o passo. Ninguém oferecia a mão. Fingiam que o mundo era o mundo deles, na organização do bule de café da padaria, anestesiado nas conversas sobre Calvin e Haroldo e nas idiossincrasias alheias.

Quando não se aguentava mais tantas promessas não cumpridas, ele foi para longe. Coisa assim, delírios tropicais em algum lugar da linha do Equador. Voltou corado, repleto das lagostas e dos camarões que havia comido. Voltou pleno do amor estável que tinha, destas banalidades que só anos próximos conseguem. E ele não ligou mais.

Ela chorou. Seus modos europeus só a deixaram chorar um dia. Até daria uma chance, até venderia seu mundo sem garantias que algo fosse acontecer. O fato é que ele, dinamarquês, nunca conseguiu fugir de sua natureza soturna. Havia perdido aquele embalo para o movimento acontecer, desaprendendo a soltar as velas no vento favorável. E, dia a dia, foram-se esquecendo um do outro.

Veio a indiferença tensa, para depois a irritação corriqueira e, no final, somente um incômodo passageiro. Ele foi abandonado pela namorada. Ela procura apartamento novo e ainda quer ter um cachorro.

quinta-feira, julho 22, 2010

De Maria Anita

Roubado de minha grande companheira fugidoura, hoje psiquiatricamente lotada na Califórnia brasileira. Se o texto já tem seus bons 4 anos de idade, nunca se encaixou tanto num daqueles momentos em que se parece que há quase tudo nas mãos e, ao mesmo, há aquela coisa ausente que sempre atormenta.

Saudades de lê-la & vê-la é coisa que nem digo.

"Então, estou confusa esses dias. Bem confusa e um pouco insegura quanto ao rumo das coisas. Eu notei, de uma hora pra outra, que o mundo muda muito rápido e que tudo que você acha que é, que vai ser quando você crescer, pode mudar de uma hora pra outra.

As coisas que aconteceram esse nessas ultimas semana me magoaram de uma forma estranha e única. E não me sinto mais a mesma. Me sinto meio oca. Assim sem rumo. Principalmente a noite. Me sinto estranha a noite.

E me sinto sozinha. Mesmo acompanhada, mesmo rindo, mesmo no cinema. Parece que estou sozinha. E sei exatamente o que me falta: saber o que fazer. Simplesmente a falta de saber o que fazer está me deixando assim. A falta de saber qual o caminho certo.

Estou com um pouco de medo porque de repente notei que nada mais é seguro. Nada mais é certo. Os caminhos do mundo são muito amplos e me dói essa vastidão.

E percebo cada dia mais as pessoam que andam comigo e as que simplesmente andam na mesma direção que eu. Porque antes eu não entendia a grande diferença. E agora eu sei. Não foi muito fácil, mas eu sei agora.

Só não descobri ainda o que fazer com as coisas que descobri, nem como lidar com esses espaços em branco. Essas horas pós academia. Com os primeiros minutos antes de acordar.

Mas tenho certeza que o dia em que acordarei me sentindo simplesmente bem está próximo. E há de chegar ensolarado e menos frio. Quem sabe haja praia em algum lugar do meu inverno.

E haja certeza onde agora mora uma desesperança incomum e triste"

domingo, julho 18, 2010

Diário de bordo

Dia 1: Primeiros dias sempre são terríveis. Lugar novo, rotinas novas, o desconhecimento da papelada até a dinâmica do serviço. Como se não bastasse, dia horrível também: uma intubação num hepatopata sangrando até a alma, duas cardioversões num paciente estável, uma parada cardíaca numa paciente com gripe suína. Corre-se de lá para cá, como baratas tontas. Estou enferrujado, não piso numa UTI há ano e meio. Fico irritado, naquele sentimento de que não deveria estar ali.

Dia 2: A dispensa do Brasil e Holanda não rolou, para o meu deleite. O jeito foi assistir o jogo numa televisão chiada, praticamente sem som. Toda UTI é uma gaiola de Faraday perfeita: celular não pega, a TV não sintoniza. O sentimento de isolamento paira, afinal, todos ali são ilustres desconhecidos. Não tenho preguiça de trabalhar, mas quando se rói o osso com conhecidos pelo menos há um sentimento de cumplicidade. No intervalo, meu paciente convulsiona e dou adeus ao segundo tempo. De canto de olho, vou vendo o Brasil se descontrolar na televisão do paciente que foi cardiovertido no dia anterior. Comento com ele: melhor colocar na Record seu João, com esse joguinho é perigoso sua arritmia voltar de novo. Ele ri, eu rio.

Dia 3: O primeiro plantão noturno ganhou um toque dramático: vinha doutro plantão, aquele que paga as minhas contas. Com dois plantonistas a menos, a casa caiu e todos dormiram menos que uma hora na madrugada inteira. De olheiras bem fundas e passo trôpego, abuso da cafeína para me manter acordado. Contabilizo meu cansaço pela quantidade de cafeína que consumo no decorrer do dia: nas 24 horas seguintes, foram cinco coca-colas e quatro cafés espressos. O pensamento não encadeia e quando vejo, no meio da tarde, acordo deitado no balcão de prescrição com uma enfermeira carinhosa batendo no meu ombro: "Vem cá, vou te dar um chocolate". Noite difícil?, ela emenda.

Dia 5: Levanto novamente, antes do amanhecer. Da janela, Sampa parece até um pouco pós-apocalíptica com este céu todo avermelhado. Sempre fumo um cigarro no caminho, pego um metrô quase cheio, desço na doutor Arnaldo e até me lembro de Caio Fernando. As coisas tranquilizam e a conclusão que UTI é mais ou menos como pilotar avião: 95% de tédio, 5% de terror absoluro. A graça da semana é o residente chileno e seu embananamento com o português. Ele grita: você é destra ou surda? Ninguém entende. Perguntamos: canhota? A paciente, com máscara de oxigênio, balança afirmativamente a cabeça.

Dia 6: A Espanha vence e decido ir trabalhar de uniforme reserva da Fúria, aquele branco. Morro de medo da chefe taiwanesa, miúda e de sorriso fácil, fazer qualquer tipo de censura. Tecnicamente, não somos autorizados para almoçar fora da UTI. O que nos resta é almoçar a mesma dieta servida aos pacientes, em simpáticas bandejinhas de plástico. Óbvio que a comida é assódica, balanceada e invariavelmente sem graça. Meus colegas brincam que, para eles, é um mês de spa. Descubro o tráfico de trufas recheadas que acontece nos bastidores, comandada por uma auxiliar de enfermagem. Pelo menos, há algum prazer no intervalo das refeições. Fumar, tenho menos.

segunda-feira, julho 12, 2010

100%, Luiz Felipe Pondé

Atenção, pecadores e viciados em sexo, comida, bebida, dinheiro e poder: vocês estão ultrapassados. Há uma nova ganância no ar: a mania de qualidade de vida e saúde total. Esta ganância é o que o jornal "Le Monde Diplomatique" já chamava de "la grande santé" ("a grande saúde") nos anos 90. A mania de ter a saúde como fim último da vida.

Acho isso antes de tudo brega, mas há consequências mais sérias que um simples juízo estético para esta nova forma de ganância. Consequências morais, políticas e jurídicas: o controle científico da vida.

Agora esses fanáticos estão a ponto de demonizar o açúcar, a gordura e o sódio. Querem fotos de gente morrendo de diabetes no saco de açúcar ou de ataque cardíaco nas churrascarias. O clero fascista da saúde não para de botar para fora sua alma azeda.

Mas, como assim, ganância? Sim, esta ganância significa o seguinte: quero tirar do meu corpo o máximo que ele pode me dar. Inevitavelmente fico com cara de monstro narcisista quando dedico minha vida à saúde total. Sempre sinto um certo ar de ridículo nesses pais que obrigam seus filhos a comer apenas rúcula com pepinos e cenoura desde a infância.

Suspeito que os "purinhos", no fundo, se deliciam quando veem fumantes morrerem de câncer ou carnívoros morrerem do coração. Sentem-se protegidos da morte porque vivem como "pombinhos da saúde". São medrosos. A vida é desperdício, e ganancioso não gosta disso.

No caso da morte, probabilidade é como gravidade: 100% de certeza. Logo, a luta contra a morte é uma batalha perdida, nunca uma vitória definitiva.
Se você não morrer de acidentes (carro, avião, atropelamentos, assaltos, homicídios) ou de epidemias (tipo pestes) ou por endemias (tipo doença de chagas), ou de doença metabólica (tipo diabetes) ou de doenças cardiovasculares (tipo AVC ou acidente cardiovascular e ataque cardíaco), você sempre morrerá de câncer.

Claro, ainda temos contra (ou a favor) a tal herança genética. Você passa a vida comendo rúcula e morre de AVC porque suas "veias" não valem nada. Que pena, passou uma vida comendo comida sem graça e morreu na praia. E vai gastar dinheiro com hospital do mesmo jeito, ou, talvez, mais ainda. Sorry.

Logo, caro vegetariano, escapando de doenças cardiovasculares porque você evitou (religiosamente) gorduras supostamente desnecessárias, você pode simplesmente morrer de câncer porque deu azar com o pai que teve ou porque, no fim, tudo vira câncer, não sabia?

Um dia, esses maníacos da saúde total desejarão processar os pais por terem deixado que eles comessem coxinhas e brigadeiros quando eram crianças ou porque simplesmente tinham maus genes em seus gametas.

Sinceramente, não estou convencido de que viver anos demais seja muito vantajoso. Sem "abusar" da comida, da bebida, do tabaco, do sexo, das horas mal dormidas, não vale a pena viver muitos anos.

A menos que eu queira ser uma "freira feia sem Deus", o que nada tem a ver com freiras de verdade, uso aqui apenas a imagem estereotipada que temos das freiras como seres chatos, opressores e feios , ou seja, uma pessoa limpinha, azeda e repressora.
Como diz meu filho médico de 27 anos, "nunca houve uma geração tão sem graça como esta, obcecada por viver muito". Eu, pessoalmente, comparo esta geração de pessoas obcecadas pela saúde àqueles personagens de propaganda de pasta de dentes: com dentes branquinhos, cabelos bem penteados e com cara de bolha (ou "coxinha", como se diz por aí).

Dei muita risada quando soube que alguns cientistas estavam relacionando câncer de boca à prática frequente de sexo oral. Será que sexo oral dá cárie também? Terá a vida sentido sem sexo oral? Fazer ou não fazer, eis a questão!

Essa ciência horrorosa da saúde total deverá logo descobrir que sexo oral faz mal, e aí, meu caro "pombinho da saúde", como você vai fazer para viver sendo perseguido pela saúde pública? Talvez, ao final, não seja muito problema para você, porque quem é muito limpinho não deve gostar mesmo dessa sujeira que é trocar fluidos e gostos por aí.

(Folha de São Paulo, dia de hoje)

sábado, julho 10, 2010

Mas

Eu gosto de você, mas não sei se estou gostando de mim.

sexta-feira, julho 09, 2010

O Encanto

Vejam bem, está tudo bem. Tenho ido do trabalho para casa, vezenquando só uma escapulida para me afogar em álcool sem muita culpa. A vida tem se desenhado num cotidiano morno e confortável, do jeito que sempre pedi. Todos me ligam, surpresos com a tranquilidade: onde andará você? e digo: diz que fui por aí, não tenho feito nada mesmo.

E o mundo continua girando. E, numa esquina destas, sempre existe alguém que vale um sorriso cúmplice. Acerta as primeiras referências, cita Caio F sem saber dos perigos. Vai me exibindo uma nesga de mundo que poderia ser minha e me surpreendo sempre ao me encontrar no português irretocável alheio, nas músicas que você diz gostar e que desenham o meu próprio roteiro sentimental.

Surpreendo-me, pois. Havia achado que, dentro de toda paz que me encontro, essas pessoas interessantes desapareceriam, voltando aos seus planetas distantes. Esconderiam naqueles bares à meia luz cheirando carvalho, enquando o dry martini não fica pronto. Ou talvez eu seria acometido daquele tipo de miopia, incapaz de reconhecer a beleza quando aparecesse.

Eu não consigo perder a capacidade de me encantar. Agradeço, silencioso, a bênção proporcionada só com uma ponta de exasperação. Sempre bom descobrir que, dentro do mundo estreito que me encontro, lá fora ele continua vasto, tão lindo palpitando nos embalos daquelas nossas bandas escocesas...