quinta-feira, junho 03, 2010

Uma outra estação, o último

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
O penúltimo
Ainda o penúltimo

Quando faltavam quinze minutos, chegamos finalmente à praia. Chovia leve, havia chovido desde o entardecer. Você, agora estava confortável. Via, de soslaio, enquanto se afastava da roda de boteco para sentar na areia e ficar ali, imerso com os próprios demônios. No último dia, o outro chegaria descendo a serra na insanidade de quem enfrenta o caos pela benção do encontro. E, neste dia, você pouco conversou. Percebia que seu celular escorria pelos dedos, bem longe da proposta da tarde leve e despreocupada.

Naquela bagunça de praia tão perto do Reveillon, todos experimentavam uma alegria desenfreada. Que a brisa estava gelada e a cerveja quente, ninguém via. Quanto a mim, o que faria? Eu contava dois anos e meio do primeiro encontro, quase dois anos exatos daquela vez que me desabalei até o Paraná em busca de um pouco de taquicardia. Passei o resto do tempo entre encontros ilusórios, quase migalhas, enquanto você se lembrava do quanto eu era bom, mas sem o exato movimento da aproximação necessária. Pelo amor ser esta malha de insistência, persistência e espera, sempre havia ficado naquele intervalo entre a devoção preocupada e uma ansiedade latente. Sua mudança para Sampa seria inevitável e, nos meus devaneios, o happy-ending-after também. E ali estávamos: eu, você, nós dois, o mar e um movimento de reinício. E do filme que roterizei, num cenário brega de pessoas todas de branco e cidra vagabunda, eu não estava. Seu olhar cúmplice não se encontrava com o meu.

Estouram os fogos, ligo para minha mãe e choro. Ninguém ali era meu amigo, ninguém ali entenderia. Não queria contar para ninguém a saga do ano passado e a expectativa insana por alguma forma de redenção. Do movimento lento, porém contínuo, rumo ao início do poço. Queria que o ano começasse sob o signo da leveza, da paz estabelecida. Eu queria de bandeja tudo o que disseram que eu sempre mereci. Eu queria que desse certo, na verdade, baby.

Todos se abraçam, votos de boa sorte. Quando chega a sua vez, o abraço é forte. Cheek-to-cheek, ainda me diz: queria que você soubesse que tenho um carinho muito grande por você.

Um comentário:

Ruy disse...

Gostei. Gostei muito. Principalmente essa contraste cenário X estado de espírito; cafona X sublime. Parabéns pelo texto.