terça-feira, junho 22, 2010

Uma outra estação, o epílogo

Aquela outra estação terminou quando se ligou o carro, serra acima. Durou pouco mais de três meses - quase, de fato, uma estação - entre os cinco minutos daquele jantar japonês e o segundo dia deste ano. Quase tudo é real, muito embora mastigado, repensado e revisto com vagar.

Nada, aparentemente, mudou. Ninguém entrou, ninguém saiu, não plantei uma árvore nem escrevi um livro. Foram dias leves e desapegados, num hedonismo quase sem culpa e bem direcionado. E, vejam, não que aqueles dias tivessem um objetivo maior. Construído dentro do caos de quem não tem um rumo definido, fui-me indo, fui-me levando, até que se desaguassem no sossego de um esgotamento simples.

Não aconteceu porque não deveria acontecer: seja porque não consegui transmitir segurança sem ter os dois pés fincados no chão, seja porque o coração não suporta tantos mil quilômetros de distância, seja porque três é demais, ou também porque cães velhos não aprendem truques novos ou, simplesmente, porque estava tonto de carência e ilusão. E, apesar de tantas negativas, cada qual deixou a medida exata do carinho e da confiança. Da exasperação em frente ao espelho antes do encontro, da taquicardia pavloviana quando o celular vibrava num momento em que não poderia atender. E, mesmo que errados, trouxeram uma confiança no passo e no caminho, sem a soturnidade do discurso de quem se fecha na mágoa do amor rompido ou na mesquinhez de quem foi sabotado e busca revanche.

Não acho que o amor seja aprendizado. Não acho que as pessoas mais sábias são aquelas que muito sofreram e estão cheias de conselhos recalcados para distribuir. O que há de maior é a capacidade do encanto, ainda que sejam naturalmente fugazes. Gosto de relembrar daquele domingo ouvindo rádio num colchão inflável, na forma que você ralhava comigo por tomar Coca-Cola depois de ter escovado os dentes, naquele último cigarro silencioso que dividimos, de correr fugindo de uma tromba de verão. Isto, só, deveria bastar. E basta, apesar dos desencontros.

***

Naquele dia primeiro, tanto choveu que ficamos ilhados num chalé (clichê? lógico!). Tão ilhados, água no joelho e nada mais para se fazer além de conversar, ouvir música e esperar que o céu fechasse. E ali, com toda oportunidade de contemplar o amor que não me foi dado, outra coisa aconteceu. Sutilezas inesperadas: sentar do lado, deitar no colo e, conforme a noite avançava, um leve cafuné nos meus ou nos seus cachos revoltos. E, o melhor, de maneira espontânea. Não houve jogos ou troca de olhares. Nada além da beleza de duas pessoas que se aproximam, se tocam e gostam da proximidade. Pois é, estava acontecendo de novo. Sempre acontece de novo. E, quando o temporal passou e finalmente conseguimos sair de casa, decidi que o mundo já poderia ser desbravado sem medo.

E assim tem sido.

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