quarta-feira, junho 30, 2010

Heart in a Cage

"Well I don't feel better
When I'm fucking around
And I don't rise better
When I'm stuck in the ground
So don't teach me a lesson
Cause I've already learned
Yeah the sun will be shining
And my children will burn

Oh the heart beats in its cage"
(The Strokes)

Burn out

O amor tranquilo finalmente chegou, o suor & o sangue rendem bem mais que deveriam, a vista do apartamento é algo embasbacante, lá em casa nem é mais tão Iraque emocional. Então, feliz para sempre?

Pois é. Tenho resistido a um impulso imenso de me deixar afogar nos edredons, quase todos os dias dessas manhãs geladas. Encontro-me irritadiço, quase sem paciência. Se embarco diariamente na rotina louca de três empregos é puramente pela necessidade de movimento. É o carro batido que o seguro não resolve, o box errado que a empresa não troca. O cansaço de todas as sextas perdidas, "salvando vidas" de pessoas que te ameaçam. Quero parar de fumar, mas o pequeno prazer que a nicotina proporciona nas pausas é algo que não queria abrir mão.

Vai passar, é só momento. Repito e repetem isso para mim, quase mantra. Não há muito como escapar. Penso isso quando o despertador toca, quando bate aquele desejo de alegar insanidade e fugir para o Taiti. O que me resta, tão somente, é usar e abusar da negligência estratégica. E quando o esgotamento bate nervoso, só penso em Caio: murmuro que seja doce, sete vezes.

terça-feira, junho 22, 2010

Uma outra estação, o epílogo

Aquela outra estação terminou quando se ligou o carro, serra acima. Durou pouco mais de três meses - quase, de fato, uma estação - entre os cinco minutos daquele jantar japonês e o segundo dia deste ano. Quase tudo é real, muito embora mastigado, repensado e revisto com vagar.

Nada, aparentemente, mudou. Ninguém entrou, ninguém saiu, não plantei uma árvore nem escrevi um livro. Foram dias leves e desapegados, num hedonismo quase sem culpa e bem direcionado. E, vejam, não que aqueles dias tivessem um objetivo maior. Construído dentro do caos de quem não tem um rumo definido, fui-me indo, fui-me levando, até que se desaguassem no sossego de um esgotamento simples.

Não aconteceu porque não deveria acontecer: seja porque não consegui transmitir segurança sem ter os dois pés fincados no chão, seja porque o coração não suporta tantos mil quilômetros de distância, seja porque três é demais, ou também porque cães velhos não aprendem truques novos ou, simplesmente, porque estava tonto de carência e ilusão. E, apesar de tantas negativas, cada qual deixou a medida exata do carinho e da confiança. Da exasperação em frente ao espelho antes do encontro, da taquicardia pavloviana quando o celular vibrava num momento em que não poderia atender. E, mesmo que errados, trouxeram uma confiança no passo e no caminho, sem a soturnidade do discurso de quem se fecha na mágoa do amor rompido ou na mesquinhez de quem foi sabotado e busca revanche.

Não acho que o amor seja aprendizado. Não acho que as pessoas mais sábias são aquelas que muito sofreram e estão cheias de conselhos recalcados para distribuir. O que há de maior é a capacidade do encanto, ainda que sejam naturalmente fugazes. Gosto de relembrar daquele domingo ouvindo rádio num colchão inflável, na forma que você ralhava comigo por tomar Coca-Cola depois de ter escovado os dentes, naquele último cigarro silencioso que dividimos, de correr fugindo de uma tromba de verão. Isto, só, deveria bastar. E basta, apesar dos desencontros.

***

Naquele dia primeiro, tanto choveu que ficamos ilhados num chalé (clichê? lógico!). Tão ilhados, água no joelho e nada mais para se fazer além de conversar, ouvir música e esperar que o céu fechasse. E ali, com toda oportunidade de contemplar o amor que não me foi dado, outra coisa aconteceu. Sutilezas inesperadas: sentar do lado, deitar no colo e, conforme a noite avançava, um leve cafuné nos meus ou nos seus cachos revoltos. E, o melhor, de maneira espontânea. Não houve jogos ou troca de olhares. Nada além da beleza de duas pessoas que se aproximam, se tocam e gostam da proximidade. Pois é, estava acontecendo de novo. Sempre acontece de novo. E, quando o temporal passou e finalmente conseguimos sair de casa, decidi que o mundo já poderia ser desbravado sem medo.

E assim tem sido.

sábado, junho 19, 2010

A cilada

Existe um gostar mais? Quer dizer, quem gosta mais é quem respira, tropeça e se enfurna completamente no outro? E quando não há este tipo de reciprocidade, pois, sei lá, você por acaso descobriu que seu mundo gira de outras formas: o que fazer?

quarta-feira, junho 16, 2010

Segundo mês

Pois é, nada acontece. E nada acontecer é bom. Quer dizer: para quem sempre esteve acostumado com toda sorte de chantagem e percalços, esta paz costumeira até preenche. Há tranquilidade, falta histeria. Falta aquele sufocamento característico da falta de confiança e do jogo habitual do não-mostrar, da tenacidade em moldar o outro a sua semelhança. Não, não há nada disso.

O que há vale uma história. É o que eu sempre imaginei querer. E, palmas, nem ando me auto-sabotando tanto. Como se do passado não houvesse nada, só aquela aridez característica das coisas que não deram certo. E, na tentativa da inveja do gramado alheio, a impressão é que nada, nada me tira deste conforto que criei.

A benção do amor em paz é algo indescritível.

quinta-feira, junho 03, 2010

Uma outra estação, o último

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
O penúltimo
Ainda o penúltimo

Quando faltavam quinze minutos, chegamos finalmente à praia. Chovia leve, havia chovido desde o entardecer. Você, agora estava confortável. Via, de soslaio, enquanto se afastava da roda de boteco para sentar na areia e ficar ali, imerso com os próprios demônios. No último dia, o outro chegaria descendo a serra na insanidade de quem enfrenta o caos pela benção do encontro. E, neste dia, você pouco conversou. Percebia que seu celular escorria pelos dedos, bem longe da proposta da tarde leve e despreocupada.

Naquela bagunça de praia tão perto do Reveillon, todos experimentavam uma alegria desenfreada. Que a brisa estava gelada e a cerveja quente, ninguém via. Quanto a mim, o que faria? Eu contava dois anos e meio do primeiro encontro, quase dois anos exatos daquela vez que me desabalei até o Paraná em busca de um pouco de taquicardia. Passei o resto do tempo entre encontros ilusórios, quase migalhas, enquanto você se lembrava do quanto eu era bom, mas sem o exato movimento da aproximação necessária. Pelo amor ser esta malha de insistência, persistência e espera, sempre havia ficado naquele intervalo entre a devoção preocupada e uma ansiedade latente. Sua mudança para Sampa seria inevitável e, nos meus devaneios, o happy-ending-after também. E ali estávamos: eu, você, nós dois, o mar e um movimento de reinício. E do filme que roterizei, num cenário brega de pessoas todas de branco e cidra vagabunda, eu não estava. Seu olhar cúmplice não se encontrava com o meu.

Estouram os fogos, ligo para minha mãe e choro. Ninguém ali era meu amigo, ninguém ali entenderia. Não queria contar para ninguém a saga do ano passado e a expectativa insana por alguma forma de redenção. Do movimento lento, porém contínuo, rumo ao início do poço. Queria que o ano começasse sob o signo da leveza, da paz estabelecida. Eu queria de bandeja tudo o que disseram que eu sempre mereci. Eu queria que desse certo, na verdade, baby.

Todos se abraçam, votos de boa sorte. Quando chega a sua vez, o abraço é forte. Cheek-to-cheek, ainda me diz: queria que você soubesse que tenho um carinho muito grande por você.