quarta-feira, maio 12, 2010

Moralidade (2)


Não que tenham me metido um tiro na cabeça no dia do meu casamento, ou me trancafiado em um presídio para testar qualquer tipo de vírus mortal. Nem que valesse, assim, uma novela das oito ou um livro do Dumas. É uma historinha simples e banal, daqueles lapsos que contamos em cinco minutos de buteco.

E não que eu tenha feito disso uma vendetta pessoal ou tenha planejado isso pelos cantos. Só aconteceu. Vingancinha daquelas bem pequenas, pura dor de cotovelo de amor não dado. Eu quis você, você não me quis, não seria isto natural neste aquário imenso de pessoas? Daí o mundo gira muitas vezes e, meses depois, quem você queria está nos meus braços. Não só: estamos felizes.

E por mais que o ocorrido tenha se feito de um bocado de acasos, gosto do desenho que se fez. Você até ignora, um cumprimento protocolar enquanto estou sozinho. E eu sorrio de soslaio, sem dizer nada além de boa noite, abraço anormalmente fugaz. Nada mais se fala: só percebo seu olhar de soslaio, na curiosidade em se ver o que está sendo, por aqui.

Se vingança nunca é plena, pelo menos há este prazer imediato e involuntário. Não, não sou Madre Teresa, já falei. Nunca fui de puxar tapetes, até sempre tenho sido bem ético nas minhas movimentações. Só que quando cai de bandeja no colo, pra que negar? Daí acendo meu cigarro, faço um carinho ligeiro, fico de mãos bem juntas.

A felicidade que há aqui poderia ter sido sua, baby.

Um comentário:

Ruy disse...

Pro outro não significa nada mesmo, mas pra nós sempre é um marco.