quinta-feira, maio 06, 2010

Growing up

E daí que a vida dá uma guinada. O apartamento desenrola e se transforma numa das melhores experiências que se pode ter na vida: a qualquer hora, todas as luzes paulistanas iluminando a escuridão, coisa que não se paga. Vejo-me agora paquerando micro-ondas e me questiono: inox? Deveria ele combinar com a máquina de lavar, tão branca? Me pego lavando as roupas, organizando as caixas de uma forma lógica e um esforço sobre-humano para manter cada coisa em seu lugar. Me pego fitando os azulejos, querendo-os de outra cor com armários, um balcão de madeira e zás: calma, Gabriel - alguém me diz. As pendências ainda enrolam e quero que chegue logo o dia em que eu acorde sem um check-list de dez coisas para fazer.

O terceiro emprego aparece e até penso em aceitar. Trabalhar às sextas é coisa que tem cansado, a residência se arrasta por horas intermináveis, mesmo que paradoxalmente o ano esteja quase batendo a metade. No caos e no atropelo, sem voltar para casa e sem muita margem para maiores movimentos, tudo corre bem e controlado. Parece que tudo está onde deveria estar. Abro as portas de casa, recebo abraços longos e carinhos atentos. Existencialismos, aquelas crises pequeno-burguesas habituais nem reverberam.

Na metade da ponte dos vinte anos, tudo adquire um ar de seriedade transitória. Mesmo assim, desliza fácil. Sinto-me capaz de imprimir ao meu mundo a cadência do movimento e tudo o que me cabe é suficiente. É estranho estar tão satisfeito nesta calmaria, mas tenho me esforçado em pensar que calmarias não são só períodos entre tempestades.

2 comentários:

Guilherme disse...

Não vejo a hora de os existencialismos pequeno-burgueses pararem de reverberar. Ou melhor: quero logo vibrar na freqüência deles.

Ruy disse...

Na metade da ponte dos vinte anos, tudo adquire um ar de seriedade transitória.