domingo, abril 04, 2010

O último voo

Desci, coração aos pulos, como se fosse perdê-lo. Sempre acho que vou perder a hora, o embarque. Sou daqueles que sempre chegam duas horas antes, com medo dos infortúnios quase sempre acontecíveis. Tolice, pois, naquele dia, o aeroporto era a último destino de todos. Era um primeiro de janeiro, no Rio de Janeiro.

O saguão, deserto. Quase um episódio de "Twilight Zone", pensei. Todos estavam preocupados demais com alegrias, lascividades, destas coisas que só um reveillon consegue oferecer. Quem voltaria para Sampa, tão cinzenta e carente destes sentimentos tropicais? Pois é, eu voltava.

As moças do guichê estavam visivelmente entediadas. Quase nada funcionando, quase tudo protocolar. Bati um pouco as areias que o último banho não havia retirado. Sempre havia um ou outro grão salgado perdido por entre as frestas, os dedões. Não havia trazido nada para ler, a estadia seria curta. Afinal, com tanto a se pensar...

O dia havia sido curto e quente. Ao encarar o ônibus que nos levaria de Copacabana ao Leblon, não pude deixar de pensar na insanidade de trabalhar sob este sol estatalado, quase indecente. Trazia comigo um García Marquez, para passar o tempo. Duas boas amigas me acompanhavam, contando alegremente sobre os fogos e a virada, nada muito devasso - emendavam. Até que, naquela hora, eu sorria. Não contei da minha fuga de Ipanema, da noite longa até o Arpoador, daquela última conversa que havíamos tido sobre dangerizações, sobre os finalmentes.

O mar estava gelado, nem entrei. Tentei ler o jornal, displicente, não consegui. Mentalizava Chico cantando "quem sabe então o Rio será alguma cidade submersa", pouco efeito. Até pensei no polvo do jantar anterior, na noite regada por Stellas estupidamente geladas e grátis numa festa de entramos sem pagar. Só havia o sufocamento, aquela impressão incômoda do algo que se escorrega pelos dedos. Nunca fui de suportar sozinho os fantamas que me assombram. Levantei e segui.

Caminhei longamente descalço pela orla, enquanto o mar se arrebentava aos meus pés. Lígia, eu repetia agora. Longos passos entre Leblon e Ipanema, até os arredores do Posto Oito. Você tomava, displicente, uma água de coco. Olá, oi. Quase quinze minutos, à beira do insuportável. Conversávamos de nós como se nada houvesse, como dois estranhos que se esbarraram por aí, pela areia do mar. Já havíamos conversado tanto. Queria o último embate, a última tentativa cega de quem tenta acordar alguém de um sono ruim. Seu amigo francês chegou, se derramando na narrativa monotônica dos perigos e prazeres da noite carioca, delírios tropicais. Cansei.

Despedi-me, beijo no rosto. Entardecia. Seguiria para Sampa em três horas, na segunda trabalhava naquele horário inglório das sete da madrugada. Parti, descalço ainda, pelo calçadão. Nem olhei para trás. Na verdade, não queria olhar. Queria que houvesse um chamado, meu nome. Qualquer pauta sobre arrependimentos, qualquer coisa tipo volta para mim, qualquer sinal de bandeira branca volta que te espero. Nada houve e segui: até o Leblon, até Copacabana, até o Santos Dumont.

Naquele salão de embarque deserto, estávamos todos um pouco sisudos dentro de tudo que deixávamos para trás. A TV já tocava os acordes do Fantástico. Quando chamaram o voo, até me deixei ficar por último, na esperança em perceber que nada aquilo havia acontecido. Talvez surgisse um monstro, talvez fôssemos todos sugados para uma realidade paralela qualquer. Mas, o que sobrara daquele resto de Reveillon era um Santos Dumont vazio, meu fracasso e todas as sortes de solidão possíveis.

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