segunda-feira, abril 26, 2010

O que não é

A ciência não explica. Pegue várias características aleatórias e coloque num pote. Cá estamos: um português irretocável, um sarcasmo inerente, sotaque pernambucano, dotes culinários. Talvez olhos verdes, quase reflexos dos mares do mais norte. Talvez, a impressão de já ter lido tudo o que já li, entenda tudo o que me significa. Entenda um cigarro ou a solidão da madrugada. Tenha bons amigos, tarde aprazível num apê que seria meu sonho de consumo. Ame os animais e até me deixe em dúvida dos meus comportamentos egoístas-destrutivos. Saiba beber gim, saiba o prazer do tilintar do gelo quando termina a bebida. Me espere com uma Heineken ou às duas da madrugada. Sexo, pode ser de qualquer jeito: aquele suado e ofegante, aquele lento e tenro, o atrapalhado e até aquele em que desde a primeira vez cada coisa pareça que está ali, como se houvesse um manual. Trazendo um quase-nada de expectativas, esbarrão na noite ou a tenacidade de quem esteve na busca, esperando pelo momento favorável.

Sempre é confortável. Sempre é bom, na esfera do carinho que se cria, no reconhecimento de que estar junto é bom, ali, naquela terça-feira depois da eliminação do Big Brother. E daí?

E daí que não é. Daquela coisa ausente, tão Camille Claudel, que atormenta. Tudo está ali à mesa, tudo ali aberto e sincero. E falta. Talvez uma colocação, talvez um pedaço de sonho que gostaria e não estava. O inconsciente e a busca pela auto-sabotagem. Só sei que ali, pela segunda semana, o telefone toca e atendo, protocolaridades. Falta aquele quê da felicidade que bagunça os cabelos, move as montanhas, sacrifica todas as promessas sedutoras que bons amigos e a noite aberta oferecem. Já conheço tão bem meus roteiros, minhas idiossincrasias. Luz amarela acende, questiono. Do questionamento, logo após, puxo o freio de mão. Tergiverso, esquivo. Às vezes até sumo, esfumaço, pois sei que não há salvação. O arrebatador não tem receita: simplesmente, vem. E ocupa, sem sufoco, nem amedrontamentos.

O fato, o grande fato, é que: o que não é, não é.

segunda-feira, abril 19, 2010

Daí...

... acontece. Rápido, raso e rasteiro. Do jeito que as coisas sempre deveriam ser.

segunda-feira, abril 12, 2010

O poder do Grande (Ta Chuang)


E daí que está tudo bem. E quando está tudo bem, esta alma pouco acostumada com mares de tranquilidade assusta.

Daí, apelo para o imponderável. No Mapa Astral, sua Lua com minha Lua, dois graus somente de diferença. Jogo I Ching, para ter como resposta:

"Este hexagrama indica uma época em que os valores internos ascendem vigorosamente e alcançam o poder. Mas a força já ultrapassou a linha mediana e por isso se corre o perigo de confiar inteiramente no seu próprio poder sem se preocupar com o que é correto. Há também o risco de se por em movimento sem esperar o movimento adequado. Por isso, acrescenta-se a frase 'a perseverança é favorável'. Pois o poder verdadeiramente grande não degenera em mera violência, mas permanece inteiramente ligado aos princípios do bem e da justiça. Quando se compreende que a grandeza e a justiça devem estar inseparavelmente unidas, então se poderá compreender o verdadeiro sentido de tudo o que ocorre no céu e na terra.

(...)

A premissa aqui é de que as portas do sucesso começam a se abrir. A resistência começa a ceder e há um avanço poderoso, Este é o ponto em que facilmente pode surgir uma excessiva e arrogante auto-confiança. Por isso o oráculo diz que a perseverança - isto é, a perseverança no equilíbrio interno, sem o uso excessivo do poder - traz boa fortuna"


O que dizer depois? Só resta se entregar...

domingo, abril 04, 2010

O último voo

Desci, coração aos pulos, como se fosse perdê-lo. Sempre acho que vou perder a hora, o embarque. Sou daqueles que sempre chegam duas horas antes, com medo dos infortúnios quase sempre acontecíveis. Tolice, pois, naquele dia, o aeroporto era a último destino de todos. Era um primeiro de janeiro, no Rio de Janeiro.

O saguão, deserto. Quase um episódio de "Twilight Zone", pensei. Todos estavam preocupados demais com alegrias, lascividades, destas coisas que só um reveillon consegue oferecer. Quem voltaria para Sampa, tão cinzenta e carente destes sentimentos tropicais? Pois é, eu voltava.

As moças do guichê estavam visivelmente entediadas. Quase nada funcionando, quase tudo protocolar. Bati um pouco as areias que o último banho não havia retirado. Sempre havia um ou outro grão salgado perdido por entre as frestas, os dedões. Não havia trazido nada para ler, a estadia seria curta. Afinal, com tanto a se pensar...

O dia havia sido curto e quente. Ao encarar o ônibus que nos levaria de Copacabana ao Leblon, não pude deixar de pensar na insanidade de trabalhar sob este sol estatalado, quase indecente. Trazia comigo um García Marquez, para passar o tempo. Duas boas amigas me acompanhavam, contando alegremente sobre os fogos e a virada, nada muito devasso - emendavam. Até que, naquela hora, eu sorria. Não contei da minha fuga de Ipanema, da noite longa até o Arpoador, daquela última conversa que havíamos tido sobre dangerizações, sobre os finalmentes.

O mar estava gelado, nem entrei. Tentei ler o jornal, displicente, não consegui. Mentalizava Chico cantando "quem sabe então o Rio será alguma cidade submersa", pouco efeito. Até pensei no polvo do jantar anterior, na noite regada por Stellas estupidamente geladas e grátis numa festa de entramos sem pagar. Só havia o sufocamento, aquela impressão incômoda do algo que se escorrega pelos dedos. Nunca fui de suportar sozinho os fantamas que me assombram. Levantei e segui.

Caminhei longamente descalço pela orla, enquanto o mar se arrebentava aos meus pés. Lígia, eu repetia agora. Longos passos entre Leblon e Ipanema, até os arredores do Posto Oito. Você tomava, displicente, uma água de coco. Olá, oi. Quase quinze minutos, à beira do insuportável. Conversávamos de nós como se nada houvesse, como dois estranhos que se esbarraram por aí, pela areia do mar. Já havíamos conversado tanto. Queria o último embate, a última tentativa cega de quem tenta acordar alguém de um sono ruim. Seu amigo francês chegou, se derramando na narrativa monotônica dos perigos e prazeres da noite carioca, delírios tropicais. Cansei.

Despedi-me, beijo no rosto. Entardecia. Seguiria para Sampa em três horas, na segunda trabalhava naquele horário inglório das sete da madrugada. Parti, descalço ainda, pelo calçadão. Nem olhei para trás. Na verdade, não queria olhar. Queria que houvesse um chamado, meu nome. Qualquer pauta sobre arrependimentos, qualquer coisa tipo volta para mim, qualquer sinal de bandeira branca volta que te espero. Nada houve e segui: até o Leblon, até Copacabana, até o Santos Dumont.

Naquele salão de embarque deserto, estávamos todos um pouco sisudos dentro de tudo que deixávamos para trás. A TV já tocava os acordes do Fantástico. Quando chamaram o voo, até me deixei ficar por último, na esperança em perceber que nada aquilo havia acontecido. Talvez surgisse um monstro, talvez fôssemos todos sugados para uma realidade paralela qualquer. Mas, o que sobrara daquele resto de Reveillon era um Santos Dumont vazio, meu fracasso e todas as sortes de solidão possíveis.

quinta-feira, abril 01, 2010

Escrito nas Estrelas

- Qual seu signo?
- Peixes, e o seu?
- Virgem.
- Engraçado, meu ascendente é em Virgem.
- E o meu é em Peixes...

E daí as luzes abaixam, qualquer música toca. Derramo todo meu olhar cúmplice, transpirando reciprocidade. Se fosse história, até poderia ser dessas, tipo novela das seis.