domingo, março 28, 2010

Para Anita,

Por aqui, tá indo tudo muito bem. Trabalhando daquele jeito, muito. Mas na perspectiva de um ano que vem mais leve, já consegui ter os sábados e domingos para mim e já acho isso uma baita vitória. Tá batendo medinho do "ano que vem acaba". Tenho caminhos, mas ainda não vi nada muito concreto. Deixo para o segundo semestre, quero aproveitar esse tempinho de calmaria para botar a vida em ordem, organizar aqui dentro e aqui fora, devagar.

O apê vai indo. Estou com as chaves, falta o piso. O MASP fica lindo lá de cima. Esta semana fecho tudo e, creio que, em duas ou três semanas eu mudo. Na Semana Santa chega a mudança e daí acho que a vida começa a tomar cara. Aviso quando estiver tudo pronto, gostaria de você aqui para ver, ajudar a montar, escolher a cortina, sei lá.

E de resto, rola uma imobilidade imensa. Maturidade é isso? Não deixar o barco ir com qualquer vento, aprender a dizer nãos. Nada acontece e está tudo bem. Parece que tudo corre na medida exata do meu conforto e fico meio receoso de colocar outras variáveis e a coisa desaprumar. Até tenho saído menos, ao cinema tenho ido bem pouco, jantar fora é coisa que mais estou gostando. Parece que está tudo se preparando para quando chegar, mas ainda não quero dar as chaves para ninguém. Não é descrença, é auto-proteção. Faz parte, né?

quarta-feira, março 24, 2010

Caçando borboletas

Gosto do jeito que nos desentendemos - eu nunca fui muito conhecedor destas ciladas de relacionamento. Quando desagradado, nem hesito em exibir minha cara mais contrariada, no mais absoluto silêncio. Mas daí é que você desarma meu drama também tão silenciosamente que me envergonho, tamborilando os dedos por entre meus cachos e dizendo um ou outro elogio esparso, sabiamente longe do ponto inicial de nossa discussão. Acabo sorrindo alegre. E fica tudo bem.

sábado, março 20, 2010

Felicidade simples (2)

Daqueles sábado em que se abre mão da vulgaridade simples daquela ciranda noturna e se dorme,simplesmente. E o corpo, tão estranho dessas coisas de oito horas de sono, até levanta logo cedo sem muitas reclamações.

E daí? Quando se está em Sampa, naqueles bairros cheios de árvores tipo Aclimação ou Pinheiros, até vale a preguiça de calçar os chinelos, descer os andares e sair. Quando há sol, tanta gente passeando com os cachorros, as velhinhas indo à missa. Vale um pulo na padaria: croissants, pães de queijo, Coca-cola cheia de calorias porque não estamos nessas de dietas malucas. Também comprar o jornal, talvez a Carta Capital da semana, cumprimentar os vizinhos que também compartilham da magia de um domingo de manhã ensolarado.

E ao chegar em casa, tirar as roupas, estender a toalha milimetricamente, colocar qualquer bossa (mas, confesso, nunca fujo da doçura de Nara) e assim, nada fazer. Arriscamos cafunés, divisão do jornal: sempre começo com Imóveis, ninguém quer muito. Ficamos ali, sonhando: imagina aquele apartamento imenso, nosso? Duas plantas, um cachorro, espaço grande pra receber as visitas num almoço longo... E pensar que domingo é bom, há sempre o cinema para ir, há sempre um almoço gostoso para dividir.

Domingos assim são meus dias prediletos da semana, da vida.

domingo, março 14, 2010

Uma outra estação, quase.

No penúltimo dia, acordei logo quando amanheceu. Todos na casa ainda estavam desmaiados da noite anterior, vítimas daquela ciranda habitual de muito álcool e muita alegria acumulada. Abri as janelas e estava um sol daqueles, senegaleses. Tão desperdício ficar na cama quando existe praia, quando existe o mar.

Fui, sozinho.

Abri a primeira cerveja enquanto um bom amigo paulistano, descendo a serra, não chegava. E quando chegou, contei-lhe toda história: quase três anos de desencontros, malogros, silêncios pontuados. Quase três anos de ilusões baratas e agora, e agora quando tudo poderia acontecer...

E daí meu bom amigo, interrompendo minhas divagações fúteis, levantou-se e me deu três tapas na cara. Choque de realidade, baby. As palavras precisas foram que: quem gosta traz para perto. E ali, todo tempo, nunca havia um aperto de mãos mais longo, nunca houve qualquer tentativa de sincronia de movimento.

Só havia o encontro, a vaidade talvez de receber minha atenção preocupada, nada além.

Daí, ali, eu quis chorar. Só não sabia como.

sábado, março 06, 2010

Felicidade simples

Meu momento de felicidade mais simples foi quando desci do elevador, depois de um dia daqueles de trabalho. E naquele movimento breve de atravessar o breve corredor e sacar as chaves do bolso, perceber que havia algo de inesperado acontecendo. Saquei a chave e bem de frente à porta, hesitar. Havia um cheiro diferente, bom, saindo por debaixo da soleira da porta. Eu, que há tanto morava sozinho, já havia desacostumado com movimentos que não fossem os meus acontecendo dentro do meu espaço. E, ao me aproximar bem lento, percebi o vago som da panela de pressão chiando, compassado, que acontecia ali dentro.