segunda-feira, fevereiro 15, 2010

La Vie en Rose

Para Gui Bracco e João Paulo Machado Porto,


Por volta das quatro e meia da manhã, minha mãe me liga: “Gabriel, sua tia está indo para São Paulo. Ela conseguiu um rim”. Desligo, sobressaltado. Dois anos em hemodiálise, nem quarenta anos de idade. Minha tia sempre foi linda, bem-humorada, solteira e cheia de vida. Abriu uma crise hipertensiva e zás: insuficiência renal terminal.


No screening familiar para doadores vivos, uma surpresa: hematúria familiar. Havia algo de errado nos rins de toda família: primeiro, minha mãe. Depois, minha outra tia saudável. Por último, eu. Na biópsia, o diagnóstico de glomerulonefrite por IgA, conhecida por nefropatia de Berger. Dos idos do quarto ano, lembro: normalmente é benigno, com evolução para doença renal terminal de 10 a 25%. O que pesa é que não há tratamento efetivo, não há o que fazer para retardar uma possível evolução. Não há como diferenciar em quem a doença terá um curso maligno. Existem probabilidades, alguns fatores de pior prognóstico. E só.


O raciocínio é diferente quando é sua mãe, sua tia, é você. Você quer se apegar, a todo custo, no desfecho mais provável, no desfecho melhor. Ninguém vai te recriminar por um pouco de otimismo, não? Mas, neste dilema dos 10% versus os 90%, é onde reside uma das grandes questões do “ser” médico.



Tratar é fácil. Veja bem, com um diagnóstico na cabeça e um Google na mão, você resolve quase todos os problemas da humanidade. Quase tudo está comprovado, tem consenso. Existem várias opções terapêuticas, linhas de pesquisa. Vezenquando não dá certo, mas daí também há respaldo em dizer: a ciência não é exata, a ciência não é perfeita. O difícil é prognosticar.


Olho no olho, ali, vai dizer que dará errado? Que cirurgião plástico dirá que a lipoaspiração não dará certo? Que obstetra argumentará com a mãe que o filho pode nascer morto? Nós, seres humanos, só queremos ouvir boas notícias. Queremos ser adulados, bajulados. Você pode cumprir as expectativas e ser só o portador das boas notícias. Você pode ser o pessimista, o corvo, só apegando no que pode dar errado. São os dois caminhos e ninguém ensinará por qual se deve seguir.



Admita, de início, que a vida é injusta. Admita, depois, que não há lógica nos caminhos. É preciso, antes de tudo, se libertar da culpinha católica em que qualquer coisa de errado que nos aconteça é punição pelo que fizemos. O resto é caos, é jogo de dados. Eu, por exemplo, tenho Berger e um histórico familiar para infartar. Nada pode acontecer, posso morrer num acidente de trânsito enquanto volto para São Paulo ou posso, na idade da minha tia, ter que escolher entre hemodiálise ou diálise peritonial.


Tenho consciência do que pode estar a minha espera. E posso negar, posso fingir que nada vai acontecer, posso torcer que dará tudo certo me apegando naqueles 90%. Ninguém me recriminaria por isso. É a escolha mais fácil, é aquela que me permitiria dormir em paz, todos os dias.



O médico tem que enxergar dois passos além, é para isso que você é formado. A experiência à beira leito serve para compreender essas variáveis. Com o tempo, você entende os turning-points, tanto os bons, quanto os ruins. Na maior parte dos casos, dá tudo certo: com, sem, apesar de você. Como um piloto de avião, o médico realmente faz a diferença quando o caldo começa a desandar. De nada adianta ser um ótimo jogador de confetes ao alto ou beijador de velhinhas se, na hora que realmente precisa, as coisas escapam pelos dedos. E elas escapam. Por isso, tem que ter a capacidade inata de anteceder o passo errado.



Esqueça o que você aprendeu na psicologia médica ou qualquer coisa do tipo, lágrimas empáticas são sinais de fraqueza. Sentimentalismos tolos nunca salvaram vidas. Faça o que quiser, fale o que bem entender, nunca perca o controle. Você é a linha de frente, a tábua de salvação. A arte está em carregar as tintas quando precisa, vacilando entre a crítica, o desapego e a compaixão. Se você, que tem o controle nas mãos entre os pontos, o que será do paciente?



É o seu papel me dar dois tapas na cara e me dizer: olha os 10%, rapaz. Essa é a verdade. E a verdade pode magoar, pode doer, você até pode não conseguir lidar com ela: mas, sim, precisa ser dita. São as letras pequenas do pacote, também é preciso que o outro saiba carregar o fardo. O Fantástico fala sobre célula-tronco como se fosse tomar dipirona em casa. Estamos todos tão crentes que a humanidade chegou num determinado ponto em que tudo é infalível. Sorrateiramente, as bactérias vêm dominando o mundo. Câncer, esse apagar de incêndios, ninguém quase fala. Que Medicina, segundo Osler, é a arte das probabilidades, ninguém ensina.

E quando se diz que câncer de pâncreas mata em seis meses não é crueldade: é fato. Quando se levanta um prognóstico sombrio não é sadismo: é tentativa de iluminação. Se você não está preparado, é outro capítulo. Cobre-me se estiver te iludindo pois, se você esperar o pior e isto não acontecer, é a maior benção do mundo. Se, ao contrário, eu te prometi o happy-ending e veio a desgraça, isso sim que é pecado.



O diário é cor de rosa porque a vida é branca e preta. Longe das torres brancas da Academia ou do conforto dos braços de seus preceptores, o mundo é cão, as pessoas são ingratas, a ciência é limitada e o destino é traiçoeiro. As mãos são tão inábeis e existe o reconhecimento diário do longo caminho a se trilhar. Cada qual encontra sua forma: uns tomam ópio, outros fluoxetina. Eu, fico aqui, amarrando as pontas e mastigando os fatos. Há quem goste, há quem se veja nas epifanias. O mundo cor de rosa é pintado em tons pastéis para não violentar. O mundo real tem crianças cuspindo fungos pelas ventas, massas cerebrais inoperáveis, ingerências, desvalias. Gosto do sentimento, um pouco da melancolia das madrugadas que nos fiamos madrugada adentro. Nada aqui deveria machucar, afinal, histerias adolescentes nunca fizeram mal...



Logo após o transplante da minha tia, a família estava em festa pela benção alcançada. A recuperação foi lenta e franca, até que com uma semana de internação já teve alta. E enquanto todos se perdiam nas alegrias, apontei: calma, minha gente. Só é o início de outra série de problemas. Existem os imunossupressões, existe a rejeição., existem mil infecções no meio do caminho. Existe vida útil para o órgão, dez anos em média.


Na terceira semana, a primeira internação pós-transplante: citomegalovirus. À beira leito, mãos bem dadas, minha tia sorriu: bem que você disse... Eu, retruquei: eu sei. Mas, de agora em diante, vai tudo dar certo.

2 comentários:

Andreia disse...

Só descobri o blog agora.
Fui visitando posts antigos e tenho que dizer: seus textos são lindos!

Angela disse...

"la vie en close"