domingo, fevereiro 28, 2010

Hermanidades

"Talvez esteja próxima a felicidade. Talvez ainda esteja tateando no escuro. E talvez esse seja o caminho sempre certo, sempre lá. Olhando, reconhecendo, palpitando junto. Não vivo mais tempos de Grandes Amores. Esmoreci. Quero estar perto e junto, e inteira. O resto é bobagem, um conto que nunca me contei"
(Maria Fernanda Neves)

O que há, hermana, são paradoxos. São nossas complicações. Perdemos horas deliciosas a fio, entre cigarros e cervejas, discutindo nossos becos, nossos descaminhos. Redescobrindo, a cada encontro, o quinhão de beleza e o quinhão de dificuldade. Admitimos a vastidão do mundo e sempre deixamos a porta entreaberta ao dormir, enquanto secretamente sabemos que nada há de mais triste que deixar todo o quarto alinhado para ninguém entrar. Abrimos o peito nestas noites ébrias, pulamos sem ver o abismo abaixo e, mesmo assim, ainda somos refens de nossos delicados mecanismos de auto-sabotagem, das mentiras que contamos sem perceber.

Não somos descrentes, mas não temos rezado muito para sorte do amor tranquilo. Lemos Caio, mas não temos lá muita paciência para os morangos mofados. Desenhamos nossos encontros idílicos nas tintas berrantes da pop-art, mas nos frustramos na ciranda do telefone que nunca toca, de quem nos entrega a chave da porta com um simples adeus. A bossa que canta suave sempre embala nossos sonhos, mas temos tido tantas manhãs em que queríamos tão somente uma relação protocolar sem perigos.

Na beleza das coisas que já escrevi e te vi chorando, ali, um pouco patéticos numa madrugada de terça, às vezes penso que não dou mais conta. Chegamos ao limite. Sinto falta daquela inocência que transborda, na esperança do carnaval imediato quando disséssemos sim e fosse assim, isso, tão-somente. Não queria encontrar este mundo tão dangerizado, essa vaidade inútil, os jogos de não vou para saber por onde se anda. Hollywood colocou-me em ilusões doidas de felicidade simples, a granel.

Gosto do nosso movimento de reinvenção. Bem sabemos que o amor é uma trincheira, somos vítimas colaterais de nossas próprias idiossincrasias, o passado fica ali rangendo correntes enquanto dormimos. Solidão taí, na janela. Ninguém veio juntar nossas cartas rasgadas pela cidade ou segurar nossa mão enquanto vacilávamos no movimento de jogar a última escova de dentes fora. Mas, vá lá, vamos seguindo. Acreditamos na beleza do encontro, na mágica silenciosa do cigarro dividido na penumbra ou de tatear o corpo alheio às três madrugada num movimento insone. Sempre fazemos discursos graves, para entrar nas esperadas contradições, no nosso movimento quase sempre libertário.

Descemos um degrau, sem que o ato fosse mundano. Acho que não rifamos nossas expectativas. Digamos que a pitada de ceticismo não faz mal a ninguém. Estamos vivos, apesar dos pesares. Não sabemos quanto tempo nos resta nem em como fomos especiais para estes tantos que ficaram pelo caminho. Quando volto para casa, até fecho os olhos e penso que nunca haverá Céline para me cantar outra valsa. Estamos comprando um mundo do tamanho que nos pareça confortável.

É isso, confortável. Ainda que pequeno-burguês, ainda que abramos mão dos nossos passos vertiginosos. Lógico que o coração ainda bate firme, forte, até descompassado. Lógico que existe essa capacidade imensa de reinvenção e de ficarmos parados, esperando a banda passar.

Queremos, agora, o doce. Queremos o inteiro sem termos que juntar os cacos na calada da noite. Dizer, ora veja, por aqui não. E se estiver quente, e se casar com nossos sonhos, também dizer: porque não?

Um comentário:

Gui disse...

Cumplicidade?