terça-feira, fevereiro 23, 2010

Beligerância

Muito embora a equipe "Te Dou um Dado" de entretenimento defenda que o famoso Big Brother Brasil deva ser visto como diversão acéfala e eu torço em quem quiser, tenho cá minhas dúvidas. Tudo bem que tirar lições civilizatórias do programa é tarefa árida, mas não há como não ver aquilo como um reflexo torto do que somos e do que queremos ser.

Dourado é a personificação do "bullying". Dourado é dono daquela suástica budista. Dourado é capaz de quebrar dedos quando posto na parede. E Dourado é laureado pelo público, por ser a figura que botou ordem naquela "gaiola das loucas".

Eu não tenho medo do Dourado. Fazemos parte, por sorte e/ou merecimento, de uma pequena parcela da população esclarecida, detentora do Poder. Enquanto os skinheads não perturbarem nossos cinemas na rua Augusta, pouca gente é capaz de colocar o dedo em nosso nariz e nos privar de Liberdade. Também sabemos que as grandes vitórias não virão do horário nobre da Vênus Platinada, nem da maioria simples das Câmaras de Deputados ou Senado. Nossas vitórias, suadas, virão em decisões do STJ, onde o estado é um pouco mais laico e as idéias conseguem ser discutidas com reais argumentos e preocupações.

Preocupo-me quando volto para casa dos meus pais e me pego assistindo o BBB com meus primos, um de 11 anos e uma de poucos cinco. Numa das cenas, lá estava Serginho aprontando das suas, no melhor estilo "humor queer" inofensivo. Meu primo, imediatamente, fez uma daquelas caras do-dourado-durante-o-jantar e emendou com um "nojento" ou qualquer coisa parecida. Minha priminha, imediatamente, repetiu com inocência o que meu primo havia falado. Logo em seguida, eu disse: não. Insisti no direito a liberdade. Insisti que ele não estava fazendo mal a ninguém. Insisti que é preciso respeito e compreensão. Meus primos me olharam surpresos, mas doces.

O que tenho medo, nesta história toda, são neles: meus primos, essas crianças, todas essas folhas brancas que podem ser escritas com palavras menos pesadas. Saber que, nas escolinhas, eles provavelmente brincarão de "Dourado disse" e isto dará margem a beligerâncias infantis: isto sim é de tirar o sono.

Um comentário:

Ruy disse...

Resumiu. Nada a declarar.

Abraço.