domingo, janeiro 03, 2010

Uma outra estação, parte 5

Veio Sampa, depois. Aquela clássica e chuvosa, de te gelar os ossos inesperadamente às três da tarde. Também aquela abafada, desértica, quase impossível de se sobreviver. O principal, uma Sampa sem tempo, sem horários. De permitir aquela cerveja pesada de quarta, sem a preocupação medíocre do dia seguinte e outras coisas bem leves e triviais.


Veio bem este tempo, sem expectativas. Tão bom Sampa com nada acontecendo, tanto de fora quanto de dentro. Foram dias de bagunça, sem planejamento. Como aquela sexta: vir ao Paraíso, tão só pra tomar cerveja. Até que se bebe bastante e a noite está lá, toda aberta. Lua não tinha, pois há pouco havia caído daqueles dilúvios instantâneos. Só sei que saímos, proposta simples de continuar bebendo na sarjeta. E bebemos. E voltamos pra casa, afinal, a proposta do dia era libertadora.


E enquanto todos estavam na cozinha sabe se lá fazendo o quê, ficamos. Num português irretocável, timing de humor na medida certa. Na janela, fumando. Entre pontos, entre silêncios. Entre olhares, naquele gesto lento de acender o cigarro alheio, de escutar o clack e a chama ficar dançando horas, iluminada. Peço outro, as mãos se tocam. O olhar, aquele de soslaio, até fica mais um tempo. Um carro ou outro corta a madrugada, são quase quatro. Até que as mãos se juntam, sem pudor. Sobem os braços, param na nuca. Pouco se fala, nem é preciso.

Inesperado, foi assim. E daí, no dia seguinte, você se olha no espelho e sorri destas possibilidades abençoadas: sem necessidade de ser excessivo, de bancar algo que não se é. De acontecer assim: cerveja na sarjeta, conversas sem segundas intenções. Ter a consciência que, para se encantar, só é preciso um bocado de sinceridade e transparência. Ok, talvez aquela Lua absurda tenha tido seu papel...

Um comentário:

Ruy disse...

Se fosse filme a direção seria do Fellini.

Abraço