domingo, janeiro 24, 2010

Uma Outra Estação, o penúltimo

Entre o Natal e o Reveillon, o telefone toca: segunda-feira, working-like-a-dog como o habitual. É interurbano e fico ali, matutando alguns segundos, pensando em qual DDD seria. Atendo, sorrio. Vamos tomar um vinho, assim, à queima roupa. E o que eu faço com essa bola de ferro aqui no pé, chamada minhas-obrigações-pequeno-burguesas, respondo em seguida. Escuto, doutro lado, uma risada gostosa. Ficou para o outro dia.

Veio, na madrugada, o inquérito de intenções. Vejam bem, sob este calor senegalês paulistano, qual conotação de um vinho plena segunda? Talvez um espumante, para fugir da rotina de nossas cervejas habituais a cada três meses, tão somente para dividir a vida e contar os movimentos: eu, o apê que se compra, dos rumos que se abrem; você, da perspectiva da mudança, de se fechar a porta para abrir outro mundo, sem cara ainda, sem chão. Ou talvez fosse só desculpa para relembrar outras noites, duas taças para se mandar o superego para esquina e cumprir, finalmente, todo o filminho ridículo que me ponho a dirigir por quase dois anos e meio.

O dia seguinte chegou, uma terça-feira árida de muitas opções. Acabamos no périplo noturno paulistano de cervejas, música alta, lugares conhecidos. Quase sempre mãos bem juntas dentro do carro, daquele aperto de dedos bem entrelaçados. Descemos naquele ponto em que tudo começou: eu, você, Rob Thomas, Snow Patrol. Você me diz: sabe, das noites que tive aqui a mais divertida foi aquela em que te conheci. Quis dizer: das noites que tive aqui, saiba que aquela em que nos conhecemos foi uma das mais doces que tive. Não disse, por alguns motivos. O principal, talvez, era o medo de que um amor platônico, o último que sustentava depois destes anos de realidade, virasse pó ao me ser negado. Também, por descobrir que você estava-dentro-de-uma-história-que-até-sabia-que-iria-acabar-mas-sei-lá-não-sei, penso que gosto mas não há muito futuro.

Daí, o impasse. Queria entender o movimento, queria ter o chão para saber onde pisar. Queria aquela história clássica das mãos que se encontram, da perspectiva que se criou em finalmente estarmos morando na mesma cidade para sermos felizes para sempre. Corta o filme, agora mulheres em tons pastéis e chapéus imensos - é dia, importante frisar - um dia perfeitamente iluminado, pessoas felizes, cachorros e crianças correndo num gramado verdejante. Sabem? Pois bem, nada disso. Eu tinha uma Sampa às quase quatro da madrugada, perigosamente bêbado, com uma dessas histórias cheias de significado escorrendo pelas mãos.

Não fiz, não mexi, como de habitual. Fiquei parado aguardando uma brecha clara, uma sinalização de verdade. E enquanto não aparecia, outras conversas iam acontecendo. Como clássico naquele período ocioso de fim de ano: e o Reveillon? Maresias e você? Maresias, também. Que bom que iremos passar a virada juntos...

Eu, já não tinha tanta certeza.

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